segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Voltamos a postar um novo PE, publicado no último sábado no CM.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
15FEV2014

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

VIII - RAZÕES DUMA GRANDE VIAGEM

-FARDA OU FARDO?-
Decorridos mais de 40 anos, fui sabedor agora das razões da ida da Companhia de Caçadores 2506 (a minha Companhia) para as Terras-do-Fim-do-Mundo. A distância, em linha reta, entre a Coutada de Mucusso e a fronteira do Distrito de Tete, em Moçambique, é mais curta que entre a Coutada e Luanda, capital de Angola, o que permite avaliar quão longe nos encontrávamos do nosso Batalhão.

Os hoje Coronéis, na situação de Reforma, Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, escreveram, há poucos meses, um livro intitulado ALCORA, que eu li e detenho, onde descrevem pormenorizadamente os termos do Acordo Secreto Militar então celebrado entre Portugal, a então racista RAS (República da África do Sul) e a então Rodésia do Sul, colónia britânica, autoproclamada independente como República da Rodésia – atual Zimbabwe - cujo Primeiro-Ministro, conservador, branco e racista, era Ian Smith, Acordo esse cuja existência nunca foi assumida por Portugal, pelo contrário, sempre foi negada, face à situação anómala da anunciada “independência” da Rodésia, não reconhecida pela comunidade mundial, por um lado, e, por outro, pelo isolamento internacional da RAS, decorrente da sua abominável política de Apartheid. Pela dita rebeldia, a Inglaterra procedeu de imediato a um bloqueio naval às imediações daquele território, tentando impedir o tráfego de comercialização e abastecimento, principalmente petróleo. Óbvio que, dum modo subtil, como agora é sabido, a RAS, quer diretamente quer em conjugação com as então autoridades coloniais moçambicanas, procuravam atenuar as respetivas consequências com utilização de meios ferroviários, alguns deles construídos especificamente para isso, em território moçambicano, mas que, objetivamente, ajudavam ao desenvolvimento da Província, financiados pela República da África do Sul.

Conforme é público hoje através da divulgação do ALCORA, essa Rodésia estava autorizada a patrulhar, dentro duma área de fronteira predeterminada, parte do Distrito de Tete, com meios aéreos, no princípio, e também terrestres, posteriormente, tendo a FRELIMO reivindicado o abate de alguns helicópteros, aviões de reconhecimento, e até militares de infantaria, todos rodesianos, como está atualmente documentado; a RAS, através da sua Base Aérea fronteiriça do Rundu (na atual Namíbia), fornecia o mesmo tipo de apoio – mas sem tropas no terreno - no Distrito do Kuando-Kubango, razão pela qual tinha oficiais de ligação residentes no Cuito Cuanavale. A sua área de ação ia até ao paralelo desta localidade, no início, alargando-se posteriormente mais a norte. Essa “ajuda” consubstanciava-se em meios aéreos – Dakotas, Cessnas e Helicópteros Alouette III, sempre descaracterizados e desarmados –, para apoio logístico e também para transporte de tropas, sendo que, neste último caso, obrigatoriamente acompanhados dum Heli-Canhão português, e igualmente no fornecimento de material de guerra diversificado – parte dele a título de empréstimo e outro vendido -, desde armamento (principalmente o pesado), munições, peças sobressalentes de todo o tipo, mormente para Helicópteros e Blindados Panhard, de viaturas, material de transmissões, à mais diversa gama de que Portugal então necessitava, de harmonia com o conteúdo da citada obra dos coronéis referenciados. Inclusive foram feitos empréstimos monetários ao nosso país no valor de milhões de Rands, parte do qual pago com o petróleo que Angola já extraía.

A zona de fronteira em Moçambique (Distrito de Tete) era uma área de infiltração de Tropas de Guerrilha da ZANU (sigla em inglês de União Nacional Africana do Zimbabwe), apoiada pela China, e da ZAPU (Zimbabwe African People’s Union), esta apoiado pela então União Soviética, movimentos que se guerreavam entre si, mas que tinham o objetivo comum de banir o poder branco autoinstalado e lutar pela independência em relação ao Reino Unido.

A fronteira sul de Angola, principalmente a denominada Faixa do Caprivi, era a zona de passagem dos guerrilheiros da SWAPO (South West Africa People’s Organization) - cujo apoio logístico naquela área lhes era ministrado pelo MPLA - que lutavam pela expulsão dos sul-africanos da sua terra namibiana, denominada ainda então oficialmente por Sudoeste Africano.

A República da África do Sul, ao abrigo desse Acordo, exigiu de Portugal o reforço, nessa zona-tampão, de mais um Batalhão, razão por que a minha Companhia foi render, ao tempo, um Grupo de Combate (Pelotão), possivelmente com deslocação posterior de mais Companhias que completassem os efetivos pretendidos, situação que desconheço se aconteceu ou não porque entretanto acabamos a Comissão e o livro citado é omisso nessa matéria.

Percebi mais concretamente só agora o porquê do meu batismo de voo ter sido feito num avião militar dos “nossos primos”, designação eufemística aplicada aos sul-africanos nesta aliança, mas também apelidados por nós de carcamanhos.

Carlos Jorge Mota

domingo, 9 de fevereiro de 2014

OUTRO CAMARADA QUE NOS DEIXOU

-NOTÍCIA-
Tivemos posterior conhecimento do falecimento no dia 7 do corrente, do nosso camarada José Tavares Antunes.
O Antunes era soldado atirador da nossa Companhia e creio que pertencia ao 2º. Pelotão. Ultimamente vinha sofrendo de vários problemas de saúde inclusive os cardiocirculatórios. Tinha 66 anos de idade, era natural de Foz de Arouce e residia em Vila Nova de Poiares. O funeral realizou-se ontem às 10H30 para o cemitério daquela localidade,
Frequentava com regularidade os nossos almoços/convívios anuais, pelo que vamos sentir a sua falta. Aos que com ele conviveram, ficará também a saudosa recordação.
A toda a família, deixamos aqui um profundo sentimento de pesar, pela sua precoce partida.
Que descanse em paz.
JM

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Como tem sido hábito postamos mais um PE, publicado no CM do último sábado.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
08FEV2014

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

VII - AS TERRAS-DO-FIM-DO-MUNDO São Terras de Portugal – cantava o Quarteto 1111

-FARDA OU FARDO?-
Depois de cerca de 3 meses de Serviço à Rede de Luanda, a Companhia de Caçadores 2506 recebeu guia de marcha, separando-se do seu Batalhão, para ir reforçar o dispositivo do Batalhão de Cavalaria 2870, instalado no Kuando-Kubango, Distrito ainda hoje designado por Terras-do-Fim-do-Mundo.
ONDE ESTOU E PARA ONDE VOU
Como o Capitão Santana se encontrava doente, fomos comandados pelo Capitão Pires, da CCS, e acompanhados pelo Comandante Tenente-Coronel Soares, este último regressado logo de imediato a Luanda para junto do seu e nosso Batalhão. O Capitão Pires voltou mais tarde para a sua CCS logo que foi substituído pelo já restabelecido Capitão António Filipe Reis Santana.

O Batalhão de Cavalaria 2870 tinha a CCS e uma Companhia Operacional sediadas em Serpa Pinto (atual cidade de Menongue, designação, já nessa altura, da Rádio local), uma Companhia no Cuito Cuanavale - que enviava um Destacamento para o Lupire (onde morreu o meu grande amigo e camarada Sarreira, carinhosamente por nós designado por Sarreirita  - noutro artigo abordarei peripécias com este saudoso amigo e a forma como ele faleceu) - e a outra Companhia estava aquartelada em N’Riquinha, junto à fronteira com a Zâmbia, e enviava um Destacamento para a Coutada de Mucusso – nosso destino de agora -, ponto relativamente próximo à fronteira com a Namíbia, então designada por Sudoeste Africano, território formalmente administrado, por mandato da ONU, pela República da África do Sul, mas efetivamente considerado por esta como território seu. 

Chegados a Serpa Pinto, completamente exaustos duma longuíssima viagem de alguns dias, e feitos os preparativos para o destino final, sofro o meu batismo de voo, pois sou metido num Avião Dakota sul-africano, com mais 18 camaradas, viajando de pé, arma e bornal às costas, com destino à fronteira sul para recebermos 6 viaturas Bedford provindas da RAS. Sobrevoada a Base Sul-Africana do Rundu (palavra que normalmente era pronunciada “Runtu”) a baixa altitude, o piloto recebe a informação que as viaturas já se encontravam do lado de Angola e fomos então aterrar numa pista curta e de areia grossa, mas consistente, na localidade do Calai, junto ao Rio Kubango e perto do Rio Cuito. Recebemos as viaturas e ficamos a aguardar a coluna formada pelo resto da Companhia que partira entretanto de Serpa Pinto.
NO TRAJETO-O AUTOR E O ADÁRIO



EM ARTUR DE PAIVA









Todos juntos de novo, lá vamos a passo de caracol para a Coutada de Mucusso, pois essa zona já se integra no Deserto do Calaari, o terreno é arenoso e as viaturas não conseguem exceder os 30 Kms/hora. Acresce que para atravessar o Rio Cuito, não havendo ponte, a única solução era utilizar uma jangada flutuante cujo tempo de travessia é de cerca de 20 minutos para cada lado, com cabos de aço puxados à mão, e cuja capacidade de carga era de uma única viatura, e descarregada. Imagina-se, portanto, o tempo necessário para a passagem de todo o pessoal duma Companhia, com o manancial dos seus materiais militares.
A JANGADA-RIO CUITO
HIGIENE MATINAL NO RIO CUITO









Chegados à Coutada, rendemos então um Grupo de Combate, comandado por aquele que é hoje o meu amigo e colega de profissão, à altura Alferes Miliciano Esteves, com quem me interligo diariamente via Internet.

Recordo-me do Paixão, Furriel Miliciano desse Pelotão, estar permanentemente a dizer “eh pá, nós somos de Cavalaria! Nós somos de Cavalaria”, brincando connosco por sermos os chamados “caçanhos” – de Caçadores. Um belo dia, estando nós ainda em sobreposição com eles, o Glória acorda o Paixão às 3 horas da madrugada. E o Paixão, estremunhado, pergunta: “Que foi? Que foi?” O Glória responde prontamente: “Oh pá, está na hora de ires dar de comer ao cavalo!
AREIA DO DESERTO DO CALAARI
AQUARTELAMENTO: TENDAS CÓNICAS JÁ MONTADAS








Estudadas as melhores posições e respetivo armamento pesado para ser mantida a necessária segurança, e uma vez completada esta, foram montadas as tradicionais tendas-cónicas para os Cabos e o Zé-Soldado, feita a distribuição dos Graduados pelos poucos Quartos existentes, em madeira assente em estacaria (lembrar que os aposentos eram de uma Coutada de Caça Grossa), instalou-se o Parque das Viaturas e respetivas Oficinas, a Arrecadação de Combustível, de Material de Guerra, o Armazém de Géneros, o Serviço de Enfermagem, de Transmissões – separando, por razões óbvias, o Serviço Cripto -, Secretaria, Paiol, enfim, tudo que uma Guarnição Militar ao nível de subunidade carece. Para Messe foi utilizada uma pequena casinha redonda, no centro do aquartelamento, também de madeira, já existente. 
QUARTOS
MESSE: CAP SANTANA E SUA SIMPATIA SERVINDO
BEBIDA AOS SEUS COMANDADOS GRADUADOS









Cortaram-se árvores a moto-serra (com motor a gasolina) com cujo material tudo que não existia se construiu de raiz, incluindo espaldões para defesa, distribuídos de modo estratégico, dentro do circuito de arame-farpado entretanto reforçado ao já existente que se encontrava de forma rudimentar e pouco robusta. Com tijolos feitos no local concebeu-se um resguardo para um Filtro de Água Potável. E até um forno para fazer pão apareceu rapidamente, fruto de mãos habilidosas de gente habituada ao ofício. Instalações Sanitárias do nada surgiram, e inclusive chuveiros se improvisaram. Entretanto fomos abastecidos de um Gerador e, já mais tarde, de Frigoríficos a Petróleo, que muita falta fizeram no início, pois sendo abundante a caça e o único meio de subsistência para compor a ementa, além do tradicional bacalhau embalado em latões de alumínio – que encarecia substancialmente o custo orçamentável - e das conservas tipicamente portuguesas, não fosse a utilização massiva e contínua dessa carne muita dela se teria estragado pela sua deterioração rápida, face à amplitude térmica elevada nessa região. De dia a temperatura atingia os 45º e à noite descia para os 5º, tipicamente clima desértico. Foi o local onde senti mais calor e mais frio, no mesmo dia, em toda a minha vida. 
ESPALDÃO PARA ABRIGO
    
VISÃO ACAMPAMENTO DO LADO DA CHANA









Carlos Jorge Mota

NOTA: Trata-se de um testemunho de um camarada e amigo da 2506, nossa companhia irmã. Mais à frente em outro artigo, irá relatar um episódio que presenciou, insólito senão único, passado na Guerra do Ultramar.
O nosso obrigado ao Carlos Jorge pela colaboração e pelo enriquecimento que traz ao blogue, que também é seu.
JM

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Mais uma semana passou e com ela um novo Ponto de Encontro foi publicado no CM. Vamos a isto...
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
01FEV2014

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

VI A MORTE DEMASIADO CEDO

-TESTEMUNHO-
A "estória" que agora conto antecedeu a formação da C Caç 2505, a nossa companhia.

Estamos em Lamego no decorrer da primeira metade do ano de 1968. Estamos no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais), a tirar a especialidade com o mesmo nome (OP). São contemporâneos neste curso do CIOE, no COM e CSM os nossos camaradas de Batalhão, A Madureira e A Freitas da C Caç 2506, J Marques e J Campos da C Caç 2504 e J Franco (já falecido) e eu próprio da C Caç 2505.


FOTO RECENTE CIOE
PORTA ARMAS CIOE










Todos os instrutores eram oficiais com patente igual ou superior a tenente, com excepção de um aspirante colocado neste grupo e proveniente de um curso OP anterior. O Comandante de instrução foi o major Fonseca, número um em curso de "Ranger" nos EUA. Os denominados pelotões eram designados em Lamego por Grupos de Combate formados por três Secções, cada uma com dez homens e seis Equipas com cinco homens cada. A todos nós, quer no COM ou CSM, separadamente, cabia a função de comandarmos por escala, o grupo, as secções e as equipas. Não me recordo na altura, quem comandava o quê, mas sei que o meu amigo J Campos da 2504, fazia parte da minha equipa.


GRUPO COMBATE INSTRUENDOS
Após esta apresentação vamos então contar o que se passou.

Nas matas de Castro Daire fazíamos uma progressão com vista a um objectivo, debaixo de fogo real. Esta manobra era completada por tiros de precisão, disparados por dois ou três oficiais designados, para muito próximo do instruendo, que não estivesse a cumprir a norma estabelecida para o exercício.
Progredíamos em "bicha de pirilau" com distância de homem a homem de mais ou menos dois a três metros, tomando o melhor caminho, abrigando-nos quando o fogo real era mais intenso. O Pereira, outro homem da minha equipa, que seguia à frente do Campos e logo seguido por mim, acabou por ser ferido de morte, pelo ricochete  de uma bala, desviada num rochedo de granito. A bala já um pouco desfeita, atingiu a carótida do nosso camarada, que apesar de todos os nossos esforço acabou ali por falecer.

O Pereira era natural de uma povoação perto de Lamego. Os dois restantes elementos da equipa, o Campos e eu próprio prestámos uma guarda de honra, junto à urna na Igreja da sua terra natal e transportámos o nosso camarada até à sua última morada naquela povoação.

Em todo o curso no CIOE, tivemos somente três dias seguidos de licença, que podia dar para ir a casa, conforme o caso e um dia por semana, que podia calhar de 2ª a 6ª feira, só comunicado na noite anterior. Bom! Nessa semana e finda a cerimónia do funeral do saudoso Pereira tivemos dois dias de licença.
Durante toda a especialidade, nunca conseguimos apagar aquela imagem, mas tenho a certeza que tudo o que ali passámos ajudou em muito o que a seguir tivemos de ultrapassar. 

Embora passando perto, vi a morte demasiado cedo.
JM