terça-feira, 11 de março de 2014

XII - O CHOQUE BRUTAL

-FARDA OU FARDO?-
Chego dia 27 de fevereiro. Viagem de carro para casa. No trajeto introduzem perguntas curiosas sucessivas, mas também reveladoras, percebi logo, de neutralizar as minhas em relação a meu pai, razão da minha vinda acelerada.
Entro no quarto, ele, deitado na cama, com a feição completamente desfigurada, entra num choro convulsivo, dizendo, numa voz deficiente: “vens da Guerra, não te despediste de mim, e agora vês-me nesta forma!”. Eu, qual durão ceráceo, retorqui: “o paizinho (assim lhe chamava eu) está com razoável aspeto e vai recuperar rapidamente, vai ver!”. Saio, fecho-me no Quarto-de-Banho e choro desesperadamente procurando abafar o som, pois um homem não chora, muito menos “um guerreiro”. 

Gozo os 30 dias normais da praxe mais os 5 ao abrigo do então Artigo 109º (se a memória não me atraiçoa). Tempo dum relaxamento tenso, convívio com a família e com a namorada. Os amigos estavam todos em África. Ida ao Quartel-General no Porto, para carimbar o Passaporte Militar, como mandavam as regras, para confirmar a presença na cidade.
EM CASA DE MEUS PAIS,COM NOÉ FONTES-IRMÃO DUM
CAMARADA, TAMBÉM AMIGO DE INFÂNCIA, QUE SE ENCONTRAVA
EM LUANDA, NO POSTO DE SPM (SERVIÇO POSTAL MILITAR)
DO GRAFANIL-, E QUE, POR SER UM POUCO MAIS VELHO, JÁTINHA
PASSADO À DISPONIBILIDADE, SEM MOBILIZAÇÃO. IGNORAVA ELE 
QUE , PASSADO 3 ANOS, ESTARIA EM CABINDA, COMO CAPITÃO MILICIANO.
TAMBÉM SE TORNOU BANCÁRIO, MAS NO BANCO TOTTA & AÇORES.


O Dr. Cruz, acompanhante da doença de meu pai, tio dum cunhado meu, informa-me, com indisfarçável dificuldade: “Jorge, quando voltar para Angola não vai voltar a ver o seu pai! Vai-lhe dar o 3º AVC – estão reunidas todas as condições, não sei é quando ocorrerá – e ele não irá resistir”. Fiquei siderado.
O tempo de regresso aproxima-se rapidamente pois o tempo de convívio não passa ... voa. Peço à família que quando, e se, o pai falecer não me avisem de imediato, pois não quero conceber a ideia de receber um telegrama informando-me desse facto e eu não poder estar junto a ele. “Comuniquem-me passados aí uns dez dias”, disse eu.

Decorridos num ápice os dias 27 e 28 do segundo mês daquele ano de 1970, todo o mês de março e o 1º de abril, estou eu de mala feita para embarque no dia 2 em Pedras Rubras.

Entro no quarto de meu pai, e ele, balbuciando, diz: “já vais, não é? Vai, vai, é o teu dever e deves cumprir essa obrigação”. Nascido em 1903, viveu as duas Guerras Mundiais. O termo “guerra” era muito emblemático para ele, mas teve sempre um sentido muito patriótico acerca dos conceitos da época sobre as Províncias Ultramarinas. Sabia bastante da matéria relacionada com a defesa das Colónias aquando da I Guerra Mundial. Eu, qual autómato sorumbático, aparvalhado, dou-lhe um beijo e um abraço e saio rapidamente do quarto. Procuro colocar a minha mente já em Angola para tentar fintar o pensamento que me assalta e me fere o coração.

Abraços e choros circunstanciais dos presentes, entro no Caravelle da TAP em Pedras Rubras e concentro-me já em Lisboa, onde me aguarda um Jumbo (Boeing de 2 pisos) na sua viagem inaugural, chamado “Vasco da Gama”, com destino a Luanda.

A premonição do médico foi cumprida quatro meses depois.


Carlos Jorge Mota

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Saiu no último sábado, mais um PE publicado no CM e que aqui vamos postar.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
08MAR2014

sábado, 8 de março de 2014

XI - FÉRIAS FORÇADAS

-FARDA OU FARDO?-
Dia de chegada do Cessna, dia de Correio, portanto. Uma operação helitransportada iria decorrer nos dias seguintes, portanto, a Coutada estava com todos “os nossos primos” pertencentes à Esquadra de Alouettes de Apoio. Estou a ler a carta recebida de casa e tenho os olhos lacrimejantes. Um carcamanho aproxima-se de mim e pergunta: “Bad news?” Explico-lhe que o meu pai está muito doente, que diz que não quer morrer sem me voltar a ver, e a família pergunta se posso vir à Metrópole. Estiveram meses a esconder-me dois AVC’s que o meu pai sofrera, no espaço de poucos meses. Ele nunca se conformou com a minha ida para África, até porque não tive coragem de me despedir dele. Parti como se voltasse no próximo fim-de-semana, mas sabia que iria para o Uíge daí a dias. Como já estávamos em 1970, logo no ano imediato ao início da Comissão, eu tinha já direito a férias. Contei a situação ao Capitão Santana e ele disse logo de imediato: - “Oh Mota, trate já disso que eu dou despacho favorável já hoje e remeto para o Comando de Setor, via Rádio, para aprovação”. Tudo resolvido com muita rapidez, incluindo os contactos com a TAP para aquisição dos bilhetes e do benefício que nós, militares, tínhamos em poder pagar em 12 prestações mensais, descontadas no vencimento (soldo). Embarco no Cessna sul-africano para Serpa Pinto e fico lá a aguardar passagem para Luanda, por avião da D.T.A. (Divisão dos Transportes Aéreos), via Nova Lisboa, uma vez que o voo não era diário.
O CASTRO MARIA, O AUTOR, O ACÁCIO SAMPAIO
E OUTRO CAMARADA
Aí sou acolhido pelo pessoal graduado, quase todo do meu Curso de Milicianos. Estou com o Acácio Sampaio (meu amigo de infância), com o Rego, com o Fernandes, com o Zé Mário (e a sua cabrinha), com o Castro Maria e outros mais que não me lembro. Estando no quarto a ver fotografias, vejo, numa delas, o Sarreirita, camarada que pertencia ao meu Pelotão de Instruendos e em cuja fila, que era por alturas, ficava muito próximo de mim. Ele sofria do coração e tinha dificuldades nos crosses. Levei-lhe a arma, carregando duas, portanto, várias vezes, porque ele fraquejava um pouco. Dizia nessa altura que tinha a certeza que iria para Atirador e que iria morrer na Guerra. Dizia-lhe eu; “eh pá, as tuas chances são as mesmas das minhas e de todos nós! Tem calma e vamos mas é acabar esta fase”. Nunca mais o vi, pois cada um seguiu o seu destino, para as mais diversas Especialidades. Retomando a narração: pergunto então por ele e fico a saber aí o que lhe aconteceu no Lupire, Destacamento do Cuito Cuanavale. Mais tarde, muitos anos depois, através do David Ribeiro, meu colega de Banco e que com ele estava no Destacamento, conheço todos os pormenores deste lamentável acidente. Ironia do destino: o Castro Maria, citado acima, acabada a Comissão, também se tornou meu colega de profissão, pois empregou-se no Banco Borges & Irmão, primeiro no Porto, onde o encontrei várias vezes, depois em Vila do Conde, sua terra natal e onde vivia, cuja família era e é conhecida pela alcunha dos Varelas. Num brutal assalto ao Banco, perpetrado por energúmenos transportados de moto, ele é abatido com um tiro na cabeça, pois, não se tendo apercebido de nada porque estava absorvido no computador, não se imobilizou, como os bandoleiros exigiram. Fui ao seu funeral que, com tanta gente presente e a demora do cortejo fúnebre, só desceu à terra já noite cerrada.

Embarco para Luanda e logo nessa noite parto para o Porto, via Lisboa, em avião da TAP. Estávamos em fevereiro, frio de rachar, e eu com roupa tropical. A família e namorada me esperavam no Aeroporto de Pedras Rubras, com o meu sobretudo, um chapéu e um cachecol.  
                             
Carlos Jorge Mota

terça-feira, 4 de março de 2014

X - ATAQUE...DE DENTRO PARA FORA

-FARDA OU FARDO?-
Quando se regressava duma caçada, geralmente à tardinha, depois da saída pelo amanhecer, formalmente em patrulhamento, o animal capturado ficava pendurado numa árvore alta junto ao local destinado a Refeitório, para arrefecimento da sua carne durante a noite e posterior desmancho logo pela manhã cedo. Óbvio que nessa escuridão quase total, um pouco aliviada nas luas-cheias, as sentinelas teriam que redobrar a atenção porque os leões, atraídos pelo cheiro, frequentemente aproximavam-se muito do arame-farpado e, por vezes, até tocavam nas latas, garrafas e tudo que chocalhasse, lá pendurado por razões de segurança. O bicho Homem, principalmente quando em grupo, mete respeito a todo o animal, por mais feroz que ele seja. A Coutada continha dois pontos de entrada, sem arame, para tráfego das viaturas, mas com pessoal em vigilância, e ainda a larga chana, em declive mas sempre iluminada com holofotes, por razões óbvias.
LOCAL REFEITÓRIO PARA O PESSOAL (PROVISÓRIO)

BÚFALO. FIZ PARTE DESTA
CAÇADA












De noite, como é normal nos Quartéis, e ali por razões acrescidas, é colocado pessoal de reforço para vigilância em locais interpostos entre os pontos normais diurnos. Em cada posto ficavam 3 soldados cujo tempo de sentinela era de duas horas, com descanso de quatro horas para dormida no chão, e cada um ia acordando o seguinte, até fim do serviço.

A hora da temperatura mais baixa, em qualquer parte do planeta, é por volta das 6 horas da manhã, e, talvez já pelo cansaço e também pelo frio, era frequente, na ronda aos postos, serem encontrados os três soldados a dormir, portanto, posto sem vigilância. Por razões decorrentes da minha atividade dentro do Aquartelamento, a minha ronda era sempre a última, isto é, exatamente a que abrangia aquela terrível hora. E eu seria, porventura, o Graduado que mais soldados encontrava a dormir. Uma participação formal dessa ocorrência traria como consequência uma punição extremamente severa para o infrator, inclusive julgamento em Tribunal Militar, razão por que, normalmente, em toda as latitudes, as participações, quando elaboradas, descreviam uma situação de “menor atenção”, nunca “a dormir”, embora o Comandante, fosse a que nível fosse, percebesse imediatamente o que realmente tinha acontecido. Na Companhia de Caçadores 2506, que eu tenha conhecimento, e julgo estar bem informado, nunca se fez qualquer tipo de participação por tais razões. Para evitar que, estremunhados, pudessem ter uma reação perigosa, segurávamos as armas dos três soldados, porque desconhecíamos quem competia estar de vigia, e acordávamo-los. O infrator pedia desculpa e diziam todos, depois, como que para atenuar os efeitos: “não há problema, aqui não há turras”. Incutíamos-lhes a ideia, que era verdadeira, que naquele tipo de terreno, um ataque ao quartel se faria sempre com tiro curvo (de morteiro, por exemplo), pois com tiro direto noturno os “turras” denunciariam as suas posições.

Como esta situação, pela nossa avaliação, se poderia tornar perigosa – um dia os guerrilheiros iriam apanhar-nos à cama e levar-nos “à unha” – decidiu-se, num período em que o Capitão Santana estava ausente em Luanda, não me lembro já por que razão, e quem comandava a Companhia era o Madureira, por ser o Alferes com o Curso de Operações Especiais, logo, com a Nota de Curso mais alta, deliberou-se, como atrás digo, fazer-se uma simulação de ataque, como sendo verdadeiro, ao Aquartelamento. Assim se decidiu, assim se fez. À noite, todos os Graduados se colocaram na Messe, com exceção do 1º Vilares e do Candeias, penso que só estes, mas foram avisados, e eu, trocando a última ronda pela primeira, depois de passar o primeiro posto e entre este e o segundo, atiro uma granada ofensiva para fora do espaldão. Imediatamente, do lado precisamente oposto, o Freitas procede de igual modo. Bum! Bum! foi ouvido em pontos diametralmente opostos. Gerou-se logo uma situação confusa, com o pessoal a sair das tendas e a correr para os abrigos, mas alguns fazendo já fogo, penso que para o ar. Comecei a ouvir uma fuzilaria atrás de mim e pensei que iria morrer ali com um tiro pelas costas. Começo a gritar “alto ao fogo!”, “alto ao fogo!”, “só se abre fogo no abrigo e quando se localizar o IN!”.

Foram momentos curtos, de uns 10 minutos, mas muito problemáticos. Fiquei meio surdo do ouvido esquerdo e ainda hoje carrego essa deficiência nos sons agudos. O homem da Metralhadora Breda, do lado esquerdo, varreu toda aquela zona, já via até, na escuridão, os turras a correr na pista …

Para aumentar a credibilidade do ato, imediatamente saiu um Grupo de Combate para a mata, bateu toda a zona circundante num raio de cerca de 2 Kms e lá pernoitou.

Por mera e feliz coincidência, no dia seguinte deslocou-se de avião à Coutada o 2º Comandante do Batalhão a que estávamos adidos, Major José Maria Barroso Branco Ló, e, pelo Madureira, ainda na pista, foi-lhe relatado o que havíamos feito. Ele ouviu e aquiesceu, não sei se por dedução pragmática militar da positividade aplicada ou se por mera condescendência compreensiva… Essa vinda deu-nos a possibilidade de gerar na mente do Pessoal de Transmissões a razão da não inclusão no Sitrep desta ocorrência, o que não diminuiu a sua verosimilhança. Todos os Graduados fizeram um Pacto de Silêncio sobre o assunto e o compromisso de esta Simulação nunca ser revelada. Certo, certo, certo, é que nunca mais se apanhou uma sentinela a dormir!... E eles andavam mesmo por ali, conforme desenvolvimentos posteriores vieram a demonstrar.

Penso que, agora, passados mais de 40 anos, este compromisso solene pode ser quebrado, razão por que cito aqui esta façanha, que nos poderia ter saído muito cara, se as coisas tivessem corrido mal. Mas … era a exigência do momento … e os 23/24 anos de idade também ajudaram um pouco… E era a Guerra!...

                               
Carlos Jorge Mota

segunda-feira, 3 de março de 2014

MARCHA CÍVICA E DISCIPLINADA DE EX COMBATENTES

-NOTÍCIA-
Passamos a postar como notícia,  a realização da concentração e marcha cívica de ex combatentes, sábado dia 1 de Março, assim como, o relato da mesma publicado no Jornal de Notícias, do mesmo dia.
JM

"DIA 01-03-14 PELAS 14h30, CONCENTRAÇÃO NO MARQUÊS DE POMBAL, PARA EXECUTAR-MOS UMA MARCHA CÍVICA DE PROTESTO E INDIGNAÇÃO CONTRA AS CONDIÇÕES A QUE TEMOS SIDO VOTADOS".

Ex-combatentes exigem "respeito e honra"

"Um perdeu um olho na Guiné. Outro foi ferido num braço. Muitos sofrem de "stress" de guerra. Todos combateram na Guerra do Ultramar e desfilaram, este sábado, pela Avenida da Liberdade, em Lisboa, pedindo "respeito" por quem lutou pela pátria e está hoje "esquecido".  
EX COMBATENTES MARCHARAM CONTRA O ESQUECIMENTO
Quase duas centenas de ex-combatentes de África concentraram-se no Marquês de Pombal para descer a  Avenida da Liberdade, em Lisboa, numa iniciativa que pretendeu ser uma chamada de atenção para os problemas que vivem muitos destes antigos militares que se sentem "abandonados" pelo Estado.

Vitor Roque paraquedista em Moçambique e um dos promotores deste protesto que juntou vários ramos das Forças Armadas, disse á Lusa que os antigos combatentes quiseram manifestar o seu descontentamento com os cortes das reformas e "indignação" pela forma como são tratados.

"Muitos dos nossos camaradas encontram-se na miséria, a passar fome, sem casa, por causa dos cortes brutais a que todos os portugueses têm estado sujeitos", frisou, destacando que o protesto não foi convocado por nenhuma associação de militares.

Vitor Roque afirmou que muitos antigos combatentes que estão a sofrer os cortes eram fiadores dos filhos e "entraram numa situação de incumprimento", acabando por perder as suas próprias casas.

José Pacheco por outro lado, chamou a atenção para os 800 mil ex-combatentes que sofrem de stress pós-traumático de guerra sem estarem a ser tratados nem ajudados e para os 2500 que ficaram na rua. 

"As famílias não estão preparadas para lidar com este tipo de doenças e os ex-combatentes são expulsos pelas famílias, pelos amigos, pela sociedade e acabam por morrer junto aos caixotes de lixo onde comem" indignou-se o ex-caçador paraquedista e enfermeiro em Moçambique, que pertence à Associação dos Deficientes das Forças Armadas.

José Pacheco quer a "dignificação dos ex-combatentes", sublinhando que todos os países do mundo honram os seus heróis e têm o Dia do Combatente ao contrário do que acontece em Portugal, onde foram esquecidos.

"O dinheiro é importante, mas a nossa dignidade como ex-combatentes, como pessoas humanas e como heróis nacionais, que não somos reconhecidos, é muito mais importante", vincou.

José Casimiro Carvalho, ex-ranger na Guiné entre 1972 e 1974, tem queixas e reivindicações semelhantes e lamenta que muitos dos seus colegas que sofrem de stress de guerra estejam abandonados e não tenham medicação.

"Não há governo que trate dos ex-combatentes. Precisavam de ter um cartão dos ex-combatentes, fazer uma triagem  de quem realmente necessita", salientou, garantindo estar disposto a abdicar do seu subsidio (pago anualmente aos antigos combatentes e que tem um valor máximo de 150 euros)"para os que estão a dormir debaixo das pontes". 

O antigo ranger reclama um estatuto especifico para os ex-combatentes e enquanto aponta as medalhas que traz ao peito desabafa. "Estas medalhas que estão aqui são respeitadas pelo povo americano,(que respeita) os soldados que andaram no Vietname. Nós, infelizmente, estamos votados ao ostracismo, nem falam de nada.

E o que esperam do Governo? A resposta vem sob a forma de um riso sarcástico. "Já não espero nada. Vamos ver se pelo menos criam um cartão de ex-combatente para quem precisa de ser tratado, de ser ajudado, não é para mim." 

A Marcha que atravessou a Avenida da Liberdade, terminou no Rossio menos de uma hora depois da saída do Marquês, com os militares a cantarem o hino nacional e a gritarem palavras de ordem "Nós somos por Portugal, somos pela liberdade, o que queremos é respeito e honra".

Jornal Notícias 01-03-20114 às 19.34

domingo, 2 de março de 2014

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Postamos abaixo o último PE, publicado pelo CM no passado sábado.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
01MAR2014

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

IX - UMA COMPANHIA DE CAÇADORES TEM DE TER ... CAÇADORES

-FARDA OU FARDO?-
Logo à chegada à Coutada de Mucusso sinto-me doente, com febre alta, suores frios e dores abdominais. O médico, Dr. Eduardo Ribeiro da Cunha (hoje um conhecido Ortopedista/Traumatologista na zona de Carcavelos), que nos acompanhou na viagem e que connosco ficou algum tempo, pouco – foi substituído por outro médico também chamado Cunha, mas Xavier -, mostrou ali a sua competência profissional pois fez de imediato o diagnóstico correto, felizmente para mim: - Oh Mota, oh pá, estás com a Febre Tifóide, talvez apanhada na água do Rio Cuito, disse. Fiquei estarrecido. Febre tifóide aqui no cu do mundo, vou lerpar, pensei, provavelmente influenciado pela morte da minha mãe com essa doença quando eu tinha apenas 3 meses de idade. Mas, com medicação certa e eficaz, e o Mineiro sempre por perto, rapidamente recuperei e me pus novo.

Como a área sob a nossa responsabilidade era de muitas centenas de quilómetros quadrados, recebemos, entretanto, como reforço, um Grupo de Combate da Companhia 2504 do nosso Batalhão, que seguiu em Destacamento para o Luengue, a cerca duma centena de quilómetros, a norte. Para o Dirico e Calai, a sul, tinha já marchado um outro Destacamento, ao nível de Secção, que se desdobrou por estas duas localidades, a fim de receber os bidões de Combustível fornecidos pelos “nossos primos”, que era o sangue das nossas viaturas.
Em regime de quadrícula estava colocado um Pelotão próximo ao denominado Bico da Luiana (Faixa do Caprivi), do Quartel de Sá da Bandeira,  cuja situação era um pouco bizarra: administrativamente eles dependiam da sua Unidade (Sá da Bandeira), operacionalmente estavam sob a alçada da nossa Companhia e disciplinarmente sob a responsabilidade do Comando de Setor. O Relatório Diário de Ocorrências, designado militarmente por Sitrep (sigla OTAN, em inglês, designativa de Situation Report) era remetido para nós via rádio.

Através de um Cessna carcamanho, éramos abastecidos, duas vezes por semana, de hortaliça mais ou menos fresca e o sempre ambicionado CORREIO, nosso elo de ligação daqueles Cus de Judas ao mundo civilizado. Conheces o Os Cus de Judas, de Lobo Antunes? Ele esteve também nas Terras-do-Fim-do-Mundo, como médico, em N’Riquinha, junto à fronteira com a Zâmbia (ex-Rodésia do Norte), e escreveu esse livro em alusão a estas paragens.

Inicialmente o Cessna aterrava na que começou posteriormente a ser chamada Pista Velha, isto é, uma pequena abertura de terreno razoavelmente duro onde o avião avançava aos solavancos. Como os pilotos, que se revezavam sucessivamente, só falavam inglês, foi-me atribuída, pelo Capitão Santana, a tarefa de com eles me articular, uma vez que dominava esse idioma. Quando ouvíamos o roncar do avião ao longe, de imediato reunia o pessoal, que prontamente se disponibilizava voluntariamente para fazer a necessária segurança, até pela ânsia do bendito Correio a chegar. O “pássaro” dava uma volta sobre o Aquartelamento, em voo rasante, como sinal, mas o dispositivo adequado estava já devidamente montado na pista. Numa das vezes, chegados nós ao ponto de aterragem, o Cessna já se encontrava imobilizado no chão. Alertei o piloto que era arriscado e temerário da sua parte. Nunca se sabia onde o IN espreitava e poderia tirar partido dessa ousadia imprudente. Agradeceu o aviso. Imagine-se o seu aprisionamento pelo IN, fardado com camuflado sul-africano, e as repercussões internacionais que isso acarretaria, pois o Inimigo não deixaria de explorar esse trunfo de evidência da presença de forças estrangeiras em território angolano, que Portugal sempre negava, para além da destruição do avião, que obviamente levaria com uma bazucada em cima, pois não teriam tempo de o desfazer com explosivos, até porque os reservariam para as minas.
CESSNA JÁ NA PISTA NOVA
Entretanto chegou o pessoal civil da Tecnil (empresa de construções angolana), chefiado pelo amigo Júlio das “amargosas” – nome como ele designava as cervejas (Cuca e Nocal). E deu-se início à construção da nova pista para aviões de pequeno e médio porte, construída exatamente no enfiamento do ponto alto do Aquartelamento, do lado oposto à chana, razão por que foi desmatada uma área razoável que nos permitiu uma visão de defesa mais consistente. Era precisamente em cada um dos extremos da linha de separação que tínhamos montadas as Bredas (metralhadoras pesadas).

Com exceção de duas operações na zona de Mavinga feitas pela nossa gente, onde houve recontros diretos com o IN, e duma outra helitransportada nas imediações da Coutada, e de ainda várias na área periférica alargada do Aquartelamento mas efetivadas pelos Flechas (bosquímanos, totais conhecedores deste terreno e exímios na arte de pisteiros) que se encontravam sob a alçada da PIDE/DGS, as ações praticadas pela Companhia eram de mero patrulhamento rotineiro, ora nas deslocações ao Dirico para reabastecimento de Combustível ora nas surtidas à caça para satisfação alimentar. Naquelas paragens havia todo o tipo de animais, a maioria de grande porte, jamais vistos por mim fora dum jardim-zoológico: elefantes, girafas, hipopótamos, leões, leopardos, hienas, chitas, jacarés, avestruzes, rinocerontes, búfalos em manadas de centenas de unidades, gazelas, palancas, gnus (boi-cavalo), javalis, cabras-de-mato, coelhos, enfim, todo um manancial de bicharada que era um regalo de encher o olho, naquela imensidão de chanas. Chatos eram os mabecos (cães de mato) que, em matilha, se atiravam contra os Unimogues na esperança de abocanhar a perna de um incauto. Era fácil resolver o problema: abatia-se um e todos os restantes, com o cheiro do sangue, devoravam-no em segundos. Certa vez, o Jorge, loirinho de Matosinhos, numa das deslocações ao Dirico, desceu da viatura para tentar abater uma peça de caça que estava perto da picada e, de repente, aparece-lhe um leão. O condutor, sem se ter apercebido da presença do bicharoco, acelerou para outra posição no terreno e então vê-se o Jorge a correr atrás do Unimogue aos berros de “pára, pára!”. E o leão a apreciar a cena … deve-se ter fartado de rir à sua maneira!
HÉLIS ALINHADOS JUNTO AO ARAME
Nas operações circundantes, os Helicópteros Alouette III dos “nossos primos” ficavam alinhados na nova pista. Nos intervalos operacionais, aproveitávamos para realizar jogos de futebol, em campo improvisado junto ao arame. Eu próprio entrei nessas competições. Posso dizer, portanto, dum modo jocoso, que já competi em jogos de futebol internacionais. O nosso Guarda-Redes, o Freitas, tinha sido jogador do Sandim nessa função, portanto, a coisa era perfeita. No fim acabava tudo na cerveja, ganhasse quem ganhasse.
JOGO INTERNACIONAL DE "SELEÇÕES MILITARES"
Aquela zona era de atuação do MPLA, mas a sua função era única e simplesmente fornecer apoio logístico e operacional à SWAPO, facilitando a sua passagem para o Sudoeste Africano, razão por que os seus guerrilheiros (ditos “turras”) furtavam-se ao contacto connosco, mas nunca deixaram de tentar controlar os nossos movimentos, como posteriormente se veio a constatar aquando da chegada dos maçaricos que nos vieram render.

Carlos Jorge Mota