sexta-feira, 28 de março de 2014

XVII - ROTINA QUOTIDIANA...OU A SUA QUEBRA BRUSCA

-FARDA OU FARDO?-
A Companhia recebeu entretanto um barco de fibra para patrulhamento do Rio Luiana, cujo curso passa na Coutada a uma distância duns 500 metros das instalações, e servia para abastecimento de água e banho higiénico, apesar de abundarem jacarés por ali, que eram mantidos em respeito de arma em punho.
                                   
                                 Rotina em serviço e em lazer
AO FUNDO,MULHERES DE
GES LAVANDO ROUPA
REFRESCANDO E HIGIENIZANDO


O VIOLEIRO E O COW-BOY
O JOÃO SILVA E O AUTOR

















O FLECHA CAMBEMBE, ENTRE O
JOÃO SILVA E O AUTOR. FOI FERIDO
COM UMA GRANADA NUMA
SEXTA-FEIRA 13 (FEV 70)

ANTES DO JOGO















TRÊS PERSPETIVAS DO QUARTO DO AUTOR
Quebra brusca de rotina

O ENFERMEIRO SOARES RECEBENDO UM FLECHA FERIDO NUMA OPERAÇÃO
OUTROS MAIS GRAVES SEGUIRAM DIRETAMENTE PARA SERPA PINTO. E UM
OUTRO MORTO, VINDO NESTE HELI, FOI ENTERRADO JUNTO AO AQUARTELAMENTO,
EM COVA BEM FUNDA, COM PEDRAS POR CIMA PARA EVITAR A PROFANAÇÃO PELAS HIENAS.
GENERAL LUZ CUNHA ,
COMANDANTE-CHEFE
DA RMA, DE VISITA À
COUTADA DE MUCUSSO
GENERAL LUZ CUNHA ,
COMANDANTE-CHEFE
DA RMA, DE VISITA À
COUTADA DE MUCUSSO
















Na foto da esquerda: o João Silva, o General, o 1º Vilares, o Macedo, o Médico (encoberto), o Adário e o Autor
Na foto da direita:  o Tenente-Coronel Morais (Cmdt do Batalhão de Cavalaria 2870, a que estávamos adstritos)
dois encobertos, o General, o Médico, o Ajudante-de-Campo do General, o Macedo, o Adário,  o Glória e o Autor

           

Carlos Jorge Mota

segunda-feira, 24 de março de 2014

XVI - UM TIRO OU ... DOIS TIROS? EIS A QUESTÃO!

-FARDA OU FARDO?-
Num dia que julgava ir ser rotineiro, vejo o Fernando Temudo entrar na Coutada, pelo lado norte, sentado na Berliet ao lado do condutor Ajax (alcunha que o António Oliveira Costa -  atualmente um industrial de calçado bem sucedido - carrega desde a sua Recruta, por ser muito branquinho, e que ainda hoje faz parte do seu Cartão de Visita, quando se apresenta junto dos Camaradas), aos gritos de “o médico! o médico!”.  Estupefacto, pois não vislumbro qualquer anomalia, vejo a viatura carregada de nativos, homens e mulheres, eles fardados de camuflado e armados, elas com as suas tralhas domésticas.

Duas mulheres tinham sido alvejadas com uma Espingarda Mauser (calibre 7,9 mm, mais largo, portanto, que o da G3, que é 7,62 mm) e uma delas trazia um garrote na coxa, colocado pelo Temudo. O médico, Dr. Xavier da Cunha, acorre pressuroso. Analisa, pergunta o que aconteceu. O Temudo diz que houve um disparo acidental de um tiro. Ele responde logo: “um tiro não! dois tiros!” “Uma tem um buraco na perna, de cada lado, de entrada e saída; a outra tem dois buracos, na coxa, de entrada, e só um de saída! Portanto, dois tiros!” Retorque o Temudo: “não, foi só um tiro!” Entra-se ali numa troca de afirmações inconciliáveis, com os dois irredutíveis. Concretizado o indispensável socorro emergente, foi feita a evacuação das mulheres e elaborado o respetivo Relatório.

Somente muito mais tarde vim a saber o que se passou: O Capitão Santana chamou o Temudo e disse-lhe: “Temudo, tenho uma missão especial para si: vai a Mavinga com uma Berliet buscar um grupo de GE’s (sigla de Grupos Especiais, tropa indígena normalmente com armamento capturado ao IN e utilizada em operações também muito especiais) e familiares e trazê-los para aqui, onde farão acampamento, junto a nós!”. Estranha ordem, uma viatura isolada, com dois militares, sem rádio … a Mavinga, local onde antes se tinham feito já duas operações!? Bom! Ordens são ordens, e quem ordena sabe, com toda a certeza, o que está a fazer!... Levantam Rações de Combate. Passam o Destacamento do Luengue e tomam a picada de Mavinga. Chegados, o Temudo apresenta-se ao Oficial-de-Dia à Unidade e diz ao que vai. Ele questiona: “vocês devem estar cheios de fome, não? Vá chamar os outros para comerem alguma coisa!”. -“Não há mais ninguém, somos só nós os dois” responde. -“Coooomo?” “Uma só viatura e … só com dois homens?!”. “Bom! O problema não é meu!”. Comeram, abasteceram a Berliet, carregaram o pessoal e ala para a picada rumo à Coutada. Agora já eram muitos, e todos armados. No caminho, o Chefe deles diz que estão com fome e pede ao Temudo para pararem a fim de caçarem algo. Tempo aproveitado para descanso, que a viagem é longa e maçadora. Acabado o repasto, ao subir para a viatura, um deles, incauto, pois não levava a arma em posição de Segurança, dá um tiro. O gatilho prendeu-se num dos ferros da viatura. A bala passa entre o Temudo e o Ajax, perfura a perna duma mulher, perfura a coxa, junto à virilha, duma outra, faz ricochete e volta a entrar nela. Uma delas, a que menos sangrava, era a que mais se queixava com dores; a outra, com o sangue a sair em catadupa, quase não gemia. O Temudo imediatamente faz um garrote, tal qual aprendemos no Curso para fazer face a emergências, aliviando o aperto de tempos a tempos, com vista a facilitar a circulação sanguínea, e procura ir controlando a situação. Todos a bordo em silêncio, aceitando em absoluto as medidas tomadas. Mas ainda faltavam muitas horas para chegar à Coutada … O autor do disparo trazia duas mulheres e uma delas foi a sua vítima.
O AUTOR ENTRE O GRUPO DE GE'S, JÁ COM O ACAMPAMENTO DELES CONCLUÍDO
Para os intervenientes, nunca houve qualquer dúvida que foi mesmo só um tiro. Depois, em Serpa Pinto, constatou-se que o segundo furo na coxa foi feito pela mesma e única bala … que ficou alojada dentro da perna. Felizmente ambas as mulheres recuperaram. Não fosse a pronta e eficaz medida aplicada pelo Temudo uma delas não teria sobrevivido.


Carlos Jorge Mota

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTICIA-
Aqui está um novo PE, publicado no último sábado dia 22 no CM.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
22MAR2014

sexta-feira, 21 de março de 2014

XV - UMA CAÇADA ESPECIAL

-FARDA OU FARDO?-
Patrulhas sucessivas, consubstanciadas principalmente nas deslocações ao Dirico e Calai, para abastecimento de combustível e nas ações de caça, único alimento substancial, normalmente de gazelas ou gnus, quer por serem os mais abundantes quer pelo sabor excelente da sua carne. Numa dessas incursões, deparamo-nos com uma manada de centenas de búfalos, em terreno aberto, em corrida, naquela savana imensa, a uns trezentos metros. Avistando-nos, pararam e, numa atitude de autodefesa, colocaram-se em linha, virando-se para nós. Estancámos os Unimogues e ficamos a observar, receosos que, nessa disposição defensiva, arrancassem em correria. Ficaríamos em massa disforme. Mas não, recolocaram-se em fila indiana e retomaram a marcha. Recompostos e aliviados do susto, dirigimos as viaturas para o fundo da manada na tentativa de isolarmos um animal, mas sempre atentos à reação dos restantes. A dado momento, um casal, macho e fêmea, foi ficando para trás, provavelmente já cansadíssimos. Virámos então as viaturas na sua direção, lateralizando-os, e tentando modificar o sentido da sua marcha, em galope. Assim aconteceu. Viraram para trás e continuaram a sua correria louca … mas estavam já isolados. O resto da manada seguiu o seu destino. A dado momento, o macho, provavelmente não aguentando mais aquela aceleração, parou e começou aos urros, assustadores. Deixámos a fêmea continuar a sua correria e concentrámo-nos naquele bicharoco, mais pujante, logo, mais pesado, mais carne, portanto. Ficamos expectantes e olhamos em redor. Nem uma árvore de grande ou médio porte, onde nos pudéssemos refugiar para uma eventual situação reativa. Passados uns cinco minutos, talvez já recomposto e sentindo-se acossado, vemos repentinamente aqueles seiscentos quilos de carne abaixar os cornos, num berrar horrendo, e correr na nossa direção, perpendicularmente à posição dos Unimogues. Ficamos estarrecidos pois ele derrubaria a viatura por si selecionada e desfaria por completo quem lá fosse instalado. Já a uns dez metros de proximidade, o João Silva (irmão dum conhecido escritor e jornalista desta praça, César Príncipe, e que viria a exercer a profissão de Delegado de Informação Médica) dá um alto berro para o condutor: - ”arranca!”. O bicho deverá ter-se assustado com o grito e deu uma volta de 90º, mas sempre em correria. Ficamos amarelos, brancos, sem pinta de sangue. Mas já que éramos duma Companhia de Caçadores … aí vamos nós novamente na sua peugada. Ele já não deveria aguentar mais, porque estancou a espumar-se abundantemente. Combinámos o ponto onde deveria levar o tiro, na parte superior da pata esquerda da frente, e então abrimos fogo simultaneamente. Ele caiu, aos berros, e, como já não poderia levantar-se, aproximamo-nos, já apeados, e demos-lhe o tiro de misericórdia.
NA BALANÇA DE CAÇA GROSSA DA COUTADA DEU 623 KGS
E agora, como o transportar? Como se pega num peso daqueles e como o levamos? O desenrascanço tipicamente portuga logo emergiu: amarrámos o guincho duma das viaturas à cabeça do animal, travado pelos cornos, e fomo-lo arrastando para junto de uma árvore com sustentação razoável. Desmontámos o banco de um dos Unimogues e colocámo-lo transversalmente à frente, junto à chapa de separação do condutor. Encostámos essa viatura à árvore já escolhida. Passámos o guincho por cima dessa árvore e fomos içando, devagarinho, aquelas centenas de quilos. O Unimogue foi-o recebendo no seu seio muito devagar até ficar estabilizado. Algum pessoal passou para a outra viatura, apertando-se um pouquinho, e o restante sentou-se no dorso do nosso troféu.

E lá calculámos o azimute correto, quais patrulheiros em serviço, rumo ao Aquartelamento, sem captura de Inimigos, mas com uma peça especial de iguaria.


Carlos Jorge Mota

XIV - REGRESSO À COUTADA DE MUCUSSO

-FARDA OU FARDO?-
Piloto carcamanho muito jovem, de 20 anos, fez a melhor distribuição da carga, para equilíbrio do avião, como mandam as regras aeronáuticas, colocando o Saco do Correio atrás, juntamente com as cestas contendo legumes frescos, arrumou um saco com pertences seus, algum material requisitado pela Companhia e apetrechos que só à chegada percebi que nos eram alheios.

Decorridos uns bons 90 minutos após a descolagem, e indo nós numa amena cavaqueira, começa-se a visualizar as enormes chanas (savanas) a perder de vista, num horizonte mais alargado pela altitude de voo. De repente, ele, às gargalhadas, “pica” sobre uma manada de búfalos, passa em voo rasante, e ergue-se de novo nos céus. Já não sei de que lado tenho o fígado nem o estômago. A cabeça fica tonta de tal modo que entro numa situação de enjoo aflitivo. Os comandos eram duplos e viajávamos um ao lado do outro. Tínhamos intercomunicador, de contrário, com o barulho do motor, não nos ouviríamos, apesar de tão próximos. Digo-lhe como me sinto e ele responde-me, de pronto: “põe a mão na manche!” E, inexplicavelmente para mim – ainda hoje me interrogo como é isso possível -  não é que resultou mesmo? Serenei, fiquei tranquilo e estável. Então, vai daí, sempre às gargalhadas, resolveu fazer um quase looping … digo quase porque ele não fechou o círculo. Perdi por completo o sentido de orientação: já não sabia onde estava o céu e onde estava a terra … Era um tipo muito simpático, afável e muito conversador.

Decorridas duas horas de voo, avistámos, por fim, ao longe, as instalações da Coutada.
VISTA AÉREA DA COUTADA DO MUCUSSO
O “pássaro” faz um voo rasante às copas das árvores e aterra na Pista Nova. Entretanto, ele diz-me para ficar junto ao avião até à descolagem.
Descarregado tudo que a nós se destinava, ele faz-me sinal, de novo, para ficar na pista, mas no meio. Descola num espaço muito curto, sobe, dá meia volta, e, qual o meu espanto, “pica” sobre mim, que me obriga a atirar-me para o chão. Toma, de novo, um pouco de altitude, dá a volta, passa novamente, abana as asas, como saudação, e toma o rumo da sua Base no Rundu. Percebi, então, que o material não descarregado tinha como destino final aquele território.

Narro ao lº Vilares o que o Major Ló me havia transmitido em Serpa Pinto. Respondeu-me que, na minha ausência, tudo tinha sido já resolvido.

Aconteceu que em alguns Destacamentos tinha sido já detetada, antes da minha partida, uma falta de alguns géneros, incluindo Rações de Combate, tudo surripiado por mãos anónimas e velozes na arte. Constou-se que alguns soldados “compravam” o amor de algumas pretinhas bosquímanas com “aquelas guloseimas”. E como quem comanda é o responsável por tudo que os seus subordinados fazem ou deixam de fazer, foram instalados Autos de Averiguações e, claro, da conclusão tirada, como não se apuraram responsáveis diretos, sobrou para os respetivos Comandantes.  


Carlos Jorge Mota

terça-feira, 18 de março de 2014

XIII - DE LUANDA A SERPA PINTO

-FARDA OU FARDO?-
Aterro em Luanda e tenho a aguardar-me, no Aeroporto, o meu amigo Francisco Fontes, irmão do já citado Noé - que comigo tirou uma fotografia em casa dos meus pais -, e que igualmente viria a ser meu colega no mesmo Banco, terminando a sua carreira como Gerente do Balcão da Venda Nova. Transmito-lhe que está tudo bem com a sua família, entrego-lhe um pequeno pacote de que fui portador e relato a situação do meu pai. Ele estava por dentro de tudo mas nunca me havia revelado absolutamente nada. Dirigimo-nos para o domicílio de seu Tio António, na Avenida Brasil, próximo da Vila Alice – homem generoso e muito prestimoso, a quem muito fiquei a dever na vida, recentemente falecido em Celorico de Basto. Não soube atempadamente da sua morte razão por que não estive presente no seu funeral, o que muito lastimo -, casa onde eu estive aboletado durante os 3 meses enquanto a minha Companhia esteve de Serviço à Rede logo após o desembarque em 21 de maio do ano anterior. Os Graduados estavam autorizados a pernoitar fora do Quartel do Grafanil, havendo uma viatura que fazia a recolha domiciliária diariamente logo pela manhã cedo.

Fardo-me e dirijo-me imediatamente ao QG (Quartel-General) para me apresentar na Região Militar de Angola, a fim de carimbar o Passaporte Militar e, dessa forma, regularizar a minha situação de retorno à RMA. Fui dispensado de me apresentar nos Adidos uma vez que a viagem para Serpa Pinto teria lugar daí a dois dias, tempo aproveitado para gozar Luanda e os seus encantos.
O AUTOR E O XICO FONTES NA MARGINAL
NA ILHA DO MUSSULO














Trajando à civil, tomo um Friendship (avião turbo-hélice) da DTA para Serpa Pinto, via Nova Lisboa. Para minha surpresa, vejo na Pista de Aterragem, à chegada àquela longínqua cidade, o Major Ló, também trajando à civil. E para meu espanto, depois de cumprimentos feitos por ele a algumas pessoas que comigo viajaram, dirige-se a mim, pôs a mão no meu ombro e diz-me: “então Mota, como correram as férias?”. Fiquei admirado por ele ter conhecimento que eu viajava ali e ser sabedor do meu nome, não pertencendo eu ao seu Batalhão… A minha Companhia encontrava-se em reforço da sua Unidade mas não lhe era organicamente afeta. Dei-lhe uma resposta de circunstância e procurei ser afável. “Disparou” de imediato: “É preciso ir rapidamente para baixo pois há por lá uns problemas que eu quero ver resolvidos com urgência!”. Deduzi ao que se reportava, pois, antes da minha saída, tinham sido detetadas situações anómalas quanto a abastecimentos em alguns nossos Destacamentos. Com um ar respeitoso, disse-lhe eu: “vou já tratar à CCS do transporte no Cessna, pois quanto mais depressa lá chegar mais depressa mato o leão!”. Olhou para mim com um ar circunspecto, num misto de surpresa pelo atrevimento e algo que não estivesse a entender, tentando adivinhar o sentido dúbio das minhas palavras, e, inteligente como era (é, ele ainda é vivo), o seu semblante sofreu uma metamorfose rapidíssima: passou do olhar gélido, tipo “fuzilamento”, para o do sorriso, dizendo, com alguma simpatia: “a notícia do Luengue chegou rápida, já estou a ver!”. É que o Carlos Paulo, da Companhia de Cavalaria 2499, tinha abatido um leão no Destacamento do Luengue, o que era absolutamente proibido. Foi-lhe feita uma ameaça duma punição muito severa, mas, felizmente, nada aconteceu. Desconheço o destino que foi dado ao cadáver do bicho, desde a juba até aos ossos …

Feitas as necessárias e habituais diligências na Secretaria da Companhia de Comando e Serviços do Batalhão de Cavalaria 2870, eis-me pronto para embarque, no dia aprazado,  fardado de camuflado, no Cessna dos “nossos primos”, de regresso à minha “família militar”.


Carlos Jorge Mota

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Aqui está mais um PE publicado no CM do último sábado.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
15MAR2014