quarta-feira, 2 de abril de 2014

XX - MINA ANTI-CARRO NA PICADA

-FARDA OU FARDO?-
Confirmando o que sempre suspeitávamos, eles controlavam os nossos movimentos. Numa atitude de afirmação destinada a nós, que partíamos, e de meter em respeito os que chegavam, colocaram uma Mina Anti-Carro na picada, mais ou menos ao quilómetro 70. A iniciativa da nossa ação de Simulação de Ataque ao Aquartelamento comprovou-se assim, pois, que tinha sido correta. A Berliet da frente da coluna - pertencente à Companhia de Transportes de Angola, cujo símbolo era um Elefante Branco exibido nas portas, e cujos condutores se tinham oferecido como voluntários para uma sortida àquelas lindas paragens, ouviam eles dizer, e que serviram de apoio no transporte logístico - aciona o dispositivo escondido debaixo da areia. Entre o condutor de momento e o Chefe de Viatura seguia um outro Soldado-Condutor, do Montijo, em descanso, para substituição do anterior quando ele se encontrasse cansado, da dita Companhia, cujo nome jamais esquecerei, mas que não cito aqui em consideração da sua família. Os gases emergentes do acionamento incidiram sobre o tablier e ele foi mortalmente atingido por peças que se soltaram. Outros sofreram ferimentos, alguns evacuados de imediato, via Héli, para Serpa Pinto, pela sua gravidade; outros ainda, com lesões de menor dimensão, regressaram depois à Coutada em meios imediatamente disponibilizados.

Num determinado momento, as nossas Transmissões captam uma chamada na Rede “Índia, Índia”. A Rede silencia-se e o operador que estava transmitindo diz: “Sobe, Índia”. Pelo homem das Transmissões da coluna é dada a informação da ocorrência e feito o pedido de evacuação urgente.

Em Transmissões havia (há ainda?) 4 tipos de grau de prioridade no que se refere à transmissão: Rotina, Urgente, Imediato e Relâmpago, consoante a situação a aplicar. As mensagens eram soletradas letra por letra, num tipo de canto de 5 notas, de modo a haver perceção pelo recetor que alguma eventualmente pudesse não ter sido captada, e depois descriptadas. Mas a cada letra, em linguagem militar, corresponde uma palavra: Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Eco, Foxtrot, … Rómio, Uniforme, Índia, Zulu. Rotina, como se depreende, para mensagens rotineiras, tipo reporte de Sitreps; Urgente, prioridade acima da rotina; Relâmpago, que, na Natureza, descreve uma forma de Z (daí o nome Zulu) – e que é usada em casos extremamente urgentíssimos, como, por exemplo, estar a Artilharia a bombardear zonas das NT (Nossas Tropas); sobra a Imediato, a de maior prioridade a seguir a Relâmpago, e que era o grau utilizado nos pedidos de evacuações. Razão do grito de Índia! Índia!

Do Rundu, acionado através da ligação existente no Cuito Cuanavale, arranca um Héli  Alouette III dos “nossos primos” para efeito de evacuação dos feridos graves e um outro que transporta o morto e os feridos ligeiros para o nosso Aquartelamento.

Na Coutada, de imediato se organiza uma coluna, já com o pessoal em alerta máximo e com viaturas reforçadas com mais e mais sacos de areia, na cabine e na chapa servindo de chão, pois, obviamente, o IN saberia que o primeiro socorro partiria dali, e poderia haver novas surpresas, inclusivamente uma emboscada, pois eles teriam tempo de escolher o melhor ponto da picada para esse efeito, sabendo, de antemão, o sentido em que a coluna se deslocaria, colocando inclusive minas anti-pessoal nas redondezas do terreno que seria utilizado na inevitável reação das NT. E, efetivamente, aconteceu parte do que se suspeitava …
BERLIET QUE SEGUIU À CABEÇA DA COLUNA, TIPO REBENTA-MINAS
                           

Carlos Jorge Mota

terça-feira, 1 de abril de 2014

XIX - RENDIÇÃO, APÓS QUASE UM ANO NOS CUS-DE-JUDAS

-FARDA OU FARDO?-
Em princípios de agosto de 1970, somos informados que iríamos ser rendidos. Outras paragens, ainda ignoradas, nos eram agora destinadas. Começa-se os preparativos para entrega de todos os materiais, com exceção de viaturas e do armamento, e a passagem do testemunho. A fim de possibilitar uma interligação mais eficaz e um adequado contacto com a nova realidade, nomeadamente um melhor conhecimento das caraterísticas do terreno, potencialidades aproveitáveis, perigos e, principalmente, pontos mais sensíveis, havia sempre um tempo de sobreposição. Chega o primeiro grupo, que percorreu o trajeto que tínhamos utilizado na nossa ida para aquelas paragens. Boas-vindas aos noviços, de olhos perscrutantes, olhar revelador de muita e compreensível intranquilidade face ao início da sua Guerra. Branquinhos, tez ainda não mudada e moldada ao calor tropical, logo, maçariquitos recém-desembarcados, concluímos de imediato. Adestramento acelerado no que ficaria em sua posse, patrulhamentos em conjunto pois a experiência é grande mestra. Assisto a uma interjeição surreal: um Soldado novel avista um seu conterrâneo e dispara: “oh Luís, que estás aqui a fazer?”. O absurdo seria ridículo se o estado de alma fosse normal.

A transferência de Unidades normalmente é feita em duas fases, mas, neste caso, não se trata duma rotação porque a nova Companhia acaba de chegar à RMA. Todavia, a nossa deslocação é para efeito de rotação, portanto, sujeita ao procedimento habitual, isto é, metade de cada vez. Irei na segunda metade.

Avança a nossa primeira, mas com percurso diferente do utilizado na vinda, isto é, seguindo a picada mais a leste, via nosso Destacamento do Luengue - a ser rendido também -, logo, em áreas de maior preponderância de forças Inimigas, segundo informações recolhidas. Segue também um Grupo de GE’s, como reforço. Abraços aos que partem, por uma despedida temporária, até ao reencontro. Para os “nossos”, até Serpa Pinto, onde nos aguardarão; para os novatos, até ao Luengue, pois avança já um Grupo de Combate deles para render o nosso Grupo que lá está e se sobreporá com ele até à chegada da nossa segunda metade àquele Destacamento, Grupo nosso esse que se juntará depois a nós a fim de seguirmos em coluna única, rumo à Capital do Kuando-Kubango.

O GLÓRIA E OS GE'S NA PRIMEIRA METADE.
O AUTOR, SÓ PARA MEMÓRIA FUTURA
Metem-se ao caminho, como tantas e inúmeras vezes antes, mas, desta, uma surpresa estaria reservada.

Carlos Jorge Mota

segunda-feira, 31 de março de 2014

XVIII - NOTAS SOLTAS ...NO KUANDO-KUBANGO

-FARDA OU FARDO?-
O Comandante e … o Patrão
Como disse atrás, o Tenente-Coronel Soares, Comandante do meu Batalhão, acompanhou toda a nossa viagem até à Coutada, ao volante do “seu” jipe, acompanhado do seu condutor privativo. Como era habitual, quando se ia para a mata, ou em trânsito para ela, nada se levava em cima dos ombros, todos possuímos aparentemente o posto de Soldado. Na travessia duma cidade, um civil dirige-se a ele e faz-lhe uma pergunta sobre algo da estrada. Ele respondeu: “não sei! Isso é aqui com o Patrão!, e aponta para o lado. O homem fica perplexo, pois vê um “soldado” ao volante, já com quase 50 anos, meio careca, e o homem ao lado, de 21 anos, é que é o patrão? É que Patrão … é mesmo o nome do rapaz.

2 Dias de Prisão …
Para travessia do Rio Cuito, no Dirico, utilizava-se uma jangada, que só transportava uma viatura de cada vez, e vazia. Demorámos nisso quase dois dias. Como não sou apologista de ordenar algo cuja dificuldade de execução não tenha avaliado, e como era preciso descarregar as viaturas de todo o seu conteúdo (e carregá-las de novo, do outro lado do rio, após a travessia), desde géneros alimentares a cunhetes de munições, passando por todo o restante e muito diverso tipo de material, resolvi ajudar o pessoal e “alombar” também. De repente, aparece-me o Comandante, chama-me ao lado e diz-me, numa voz calma mas firme: “você está aqui para coordenar, não para andar com caixas às costas. Se o volto a ver nesta situação, enfio-lhe com 2 dias de prisão!”. E a punição dum Graduado implicava obrigatoriamente a sua transferência de Unidade. Aconteceu, infelizmente, já quase no fim da Comissão, com um Camarada meu.

Acidente na Jangada
Não presenciei, foi-me narrado, mas que me marcou profundamente: um moço nativo, civil, ficou com a perna entalada entre a jangada do Dirico e a margem. Como o ferimento era aparentemente grave, alguém solicitou, através dos canais próprios, a evacuação do rapaz. Os  “nossos primos” tinham uma base aérea a menos de 10 minutos de voo. Aterrado o Cessna, o piloto indaga o que se passa e verifica, obviamente, que se trata dum negro, e civil. Manda aguardar, fala em afrikaans com o Rundu. Diz, depois, que o avião está avariado e tem que regressar à base. Verdade? Talvez! Mentira? Se sim, seria por ser civil e eles não se sentirem “obrigados” a isso? É que, conhecendo agora os termos do ALCORA, o Acordo era meramente militar … Seria por ser negro? Não sei. Soube depois que foi amputada a perna ao infortunado nativo. Mas foi coisa que me incomodou!

Fogo no Cessna
Carregado o Saco do Correio e algo que havia sempre a remeter para Serpa Pinto, despeço-me do piloto carcamanho e fico a aguardar a descolagem. Ele põe o motor a trabalhar e, de repente, uma labareda na parte inferior do avião, provinda do motor, irrompe. Como se trata de uma aeronave que, pousada, fica com o nariz levantado, ele de nada se apercebe. Atravesso-me à frente do avião, para evitar que ele arranque, esbracejando com vigor e a gritar “Fire! Fire!”. Com o barulho do motor ele nada ouve mas percebe que algo de anormal se passa. Sai apressadamente da cabine, vê o fogo, corre a buscar um extintor e domina-o rapidamente. Deveriam ser restos de combustível que andavam por ali e, com o aquecimento repentino, deflagraram… Ficou pálido, sentou-se no chão uns minutos. Pediu-me para estar atento e voltou para dentro, deixando a porta aberta. Põe o motor a trabalhar, aquece uns minutos e pergunta-me, gesticulando, se noto alguma anormalidade. Faço-lhe sinal com o polegar que parece estar agora tudo bem. Fecha a porta. Acena-me dum modo muito enfático, como que a agradecer, arranca, eleva-se nos céus e toma o rumo definido.

12 Candeias
x 12



Solicitou-se a Serpa Pinto transporte para 12 Candeias. Aterra o Cessna dos “nossos primos”, vai descarregando o conteúdo, sempre com o bendito CORREIO, e diz o piloto: “I have here in the aircraft a small space for twelve oil-lamps, but I must charge somethings yet at my base, in Rundu”  (eu tenho aqui no avião um pequeno espaço para 12 candeias, mas tenho ainda que carregar umas coisas na minha base no Rundu). Fora-lhe transmitido que iria transportar 12 candeias. Nas Forças Armadas, a cada Posto corresponde um número. A Segundo-Sargento era (é ainda?) o número 12. Era o Sargento Candeias, de seu nome, que precisava de ir a Serpa Pinto. Alentejano de gema, de Ponte de Sor, latagão duns quilos bons, amigo do seu amigo, homem muito dinâmico, o que contraria a ideia errada de molenguice que se atribui àquela gente, teria que se reduzir ao espaço de 12 candeias …  Lá teve ele que aguardar mais uns dias.

O Palaio e os seus patos
Logo à chegada à Coutada do Mucusso, o nosso Comandante de Batalhão, que nos acompanhou às Terras-do-Fim-do-Mundo, resolveu ir à caça e fez-se acompanhar dum pequeno grupo. Encontraram uma peça jeitosa cujas patas o Comandante deduziu logo serem boas para fazer as pernas duma mesa. Dispararam sobre o bicho, mas ele não morreu, apenas ficou ferido e largando um pequeno rasto de sangue na sua fuga. Para facilitar a localização, e pressupondo que ele estaria por perto, o Comandante e outro Camarada seguiram no Unimogue na sua peugada enquanto os restantes desceram da viatura e prosseguiram a busca, mas apeados. O Comandante desorientou-se nos azimutes e seguiu a direção leste enquanto os restantes conseguiram localizar a peça, que entretanto soçobrou. Esperaram, esperaram, mas nenhum sinal dos outros foi recebido. Entretanto escureceu. E agora, que fazer? O Palaio prontificou-se a ficar a tomar conta da peça de caça, mas, por precaução, subiu para uma árvore de porte razoável munido da sua arma enquanto os outros sobrantes, que eram dois, foram fazer pesquisas do terreno na tentativa de encontrarem vestígios de retorno. Atraídos pelo cheiro do sangue, começam a afluir aves de rapina, leões, leopardos e toda a bicharada ávida de repasto. O Palaio lá foi abatendo ou afugentando alguns no sentido de salvaguardar a peça. Mas ... e agora, se também os outros não aparecem? Resolveu então abandonar o local e desprezar o bicharoco, pois não tinha como levá-lo. Descobriu o caminho de retorno sozinho e foi o primeiro a chegar ao Aquartelamento, já noite adentro. Trazia às costas, para seu orgulho, já morto, um "pato" grande, e, cheio de regozijo, dizia: "há ali muitos, muitos, mais!". Só que o "pato" do Palaio não era mais que um abutre ... Os outros militares, que eram quatro, divididos em dois grupos separados, chegaram no dia seguinte, em momentos bem diferentes.


Tiro na mosca
No Destacamento do Luengue, durante uma caçada para abastecimento alimentar, e estando apeado, um Soldado nosso vê de repente vir em sua direção, qual comboio expresso em velocidade acelerada, um rinoceronte, cabeça abaixada com o corno em riste. Levanta a arma, faz pontaria e abre fogo. O bicharoco cai à sua frente, morto. Mais tarde, Caçadores Profissionais disseram que lhe tinha saído a sorte grande. O Rinoceronte, afirmaram, tem a cabeça com uma couraça, tipo blindagem, e há só, nessa zona, uma pequena área, entre os olhos, que é vulnerável. Mais disseram que um bicho destes tem que ser abatido (mas que não o faziam, avisaram logo, talvez lembrando-se que era proibido) com arma de calibre grosso e com bala especial. Na falta dessa bala, deveria cortar-se, em formato de cone, um bocado dessa outra, para que, com o impacto do embate, ela achatasse e alargasse o poder de perfuração. Não me lembro já do que foi feito ao cadáver do bicho, mas deverão ter sido cumpridas todas as normas, até porque o tiro só foi efetuado em legítima defesa. Não sei se esse Soldado tem sorte ao jogo …


Natal de 1969
Noite de Natal. Regressa, precisamente ao anoitecer, vindo duma missão, um Grupo de Combate comandado pelo Temudo. De repente, um Soldado, em pânico, diz que perdeu a Arma. Durante o trajeto, talvez com receio de adormecer porque o ronronar do motor do Unimogue é convidativo, pousou a G3 no chão da viatura, junto a si. E agora? É de noite, voltar para trás nada resultará pois é escuro como breu. Acertou-se, de imediato, que, logo pela manhãzinha, se faria o percurso inverso na tentativa de encontrar a malvada escapulida. Ofereci-me como voluntário para ajudar. Dia de Natal, aí vamos nós quais cães farejadores. Percorremos durante umas 7 horas toda a picada, perscrutando a sua orla. E … encontrámo-la mesmo, deitadinha no chão, à espera de mão caridosa ou de uma outra menos misericordiosa, o que seria extremamente grave. Foi precisamente numa zona onde habitavam avestruzes de grande envergadura (devem continuar ainda lá, mas já os descendentes). À nossa passagem desatam numa correria, qual avião rolando na pista para descolagem, que chegam a atingir cerca de 80 Kms por hora. Espetáculo lindo, maravilhoso de se ver. Foi só nessa zona, já muito próximo de Bambangando, que vi este tipo de animal. Regressados ao Aquartelamento, e para alívio geral, com a recuperação concretizada. Tempo ainda para se saborear algo de diferente. Para não nos esquecermos que era Natal …

ESPINGARDA AUTOMÁTICA G-3

                    
Carlos Jorge Mota

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Aqui está o último PE, publicado no CM.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
29MAR2014

sexta-feira, 28 de março de 2014

XVII - ROTINA QUOTIDIANA...OU A SUA QUEBRA BRUSCA

-FARDA OU FARDO?-
A Companhia recebeu entretanto um barco de fibra para patrulhamento do Rio Luiana, cujo curso passa na Coutada a uma distância duns 500 metros das instalações, e servia para abastecimento de água e banho higiénico, apesar de abundarem jacarés por ali, que eram mantidos em respeito de arma em punho.
                                   
                                 Rotina em serviço e em lazer
AO FUNDO,MULHERES DE
GES LAVANDO ROUPA
REFRESCANDO E HIGIENIZANDO


O VIOLEIRO E O COW-BOY
O JOÃO SILVA E O AUTOR

















O FLECHA CAMBEMBE, ENTRE O
JOÃO SILVA E O AUTOR. FOI FERIDO
COM UMA GRANADA NUMA
SEXTA-FEIRA 13 (FEV 70)

ANTES DO JOGO















TRÊS PERSPETIVAS DO QUARTO DO AUTOR
Quebra brusca de rotina

O ENFERMEIRO SOARES RECEBENDO UM FLECHA FERIDO NUMA OPERAÇÃO
OUTROS MAIS GRAVES SEGUIRAM DIRETAMENTE PARA SERPA PINTO. E UM
OUTRO MORTO, VINDO NESTE HELI, FOI ENTERRADO JUNTO AO AQUARTELAMENTO,
EM COVA BEM FUNDA, COM PEDRAS POR CIMA PARA EVITAR A PROFANAÇÃO PELAS HIENAS.
GENERAL LUZ CUNHA ,
COMANDANTE-CHEFE
DA RMA, DE VISITA À
COUTADA DE MUCUSSO
GENERAL LUZ CUNHA ,
COMANDANTE-CHEFE
DA RMA, DE VISITA À
COUTADA DE MUCUSSO
















Na foto da esquerda: o João Silva, o General, o 1º Vilares, o Macedo, o Médico (encoberto), o Adário e o Autor
Na foto da direita:  o Tenente-Coronel Morais (Cmdt do Batalhão de Cavalaria 2870, a que estávamos adstritos)
dois encobertos, o General, o Médico, o Ajudante-de-Campo do General, o Macedo, o Adário,  o Glória e o Autor

           

Carlos Jorge Mota

segunda-feira, 24 de março de 2014

XVI - UM TIRO OU ... DOIS TIROS? EIS A QUESTÃO!

-FARDA OU FARDO?-
Num dia que julgava ir ser rotineiro, vejo o Fernando Temudo entrar na Coutada, pelo lado norte, sentado na Berliet ao lado do condutor Ajax (alcunha que o António Oliveira Costa -  atualmente um industrial de calçado bem sucedido - carrega desde a sua Recruta, por ser muito branquinho, e que ainda hoje faz parte do seu Cartão de Visita, quando se apresenta junto dos Camaradas), aos gritos de “o médico! o médico!”.  Estupefacto, pois não vislumbro qualquer anomalia, vejo a viatura carregada de nativos, homens e mulheres, eles fardados de camuflado e armados, elas com as suas tralhas domésticas.

Duas mulheres tinham sido alvejadas com uma Espingarda Mauser (calibre 7,9 mm, mais largo, portanto, que o da G3, que é 7,62 mm) e uma delas trazia um garrote na coxa, colocado pelo Temudo. O médico, Dr. Xavier da Cunha, acorre pressuroso. Analisa, pergunta o que aconteceu. O Temudo diz que houve um disparo acidental de um tiro. Ele responde logo: “um tiro não! dois tiros!” “Uma tem um buraco na perna, de cada lado, de entrada e saída; a outra tem dois buracos, na coxa, de entrada, e só um de saída! Portanto, dois tiros!” Retorque o Temudo: “não, foi só um tiro!” Entra-se ali numa troca de afirmações inconciliáveis, com os dois irredutíveis. Concretizado o indispensável socorro emergente, foi feita a evacuação das mulheres e elaborado o respetivo Relatório.

Somente muito mais tarde vim a saber o que se passou: O Capitão Santana chamou o Temudo e disse-lhe: “Temudo, tenho uma missão especial para si: vai a Mavinga com uma Berliet buscar um grupo de GE’s (sigla de Grupos Especiais, tropa indígena normalmente com armamento capturado ao IN e utilizada em operações também muito especiais) e familiares e trazê-los para aqui, onde farão acampamento, junto a nós!”. Estranha ordem, uma viatura isolada, com dois militares, sem rádio … a Mavinga, local onde antes se tinham feito já duas operações!? Bom! Ordens são ordens, e quem ordena sabe, com toda a certeza, o que está a fazer!... Levantam Rações de Combate. Passam o Destacamento do Luengue e tomam a picada de Mavinga. Chegados, o Temudo apresenta-se ao Oficial-de-Dia à Unidade e diz ao que vai. Ele questiona: “vocês devem estar cheios de fome, não? Vá chamar os outros para comerem alguma coisa!”. -“Não há mais ninguém, somos só nós os dois” responde. -“Coooomo?” “Uma só viatura e … só com dois homens?!”. “Bom! O problema não é meu!”. Comeram, abasteceram a Berliet, carregaram o pessoal e ala para a picada rumo à Coutada. Agora já eram muitos, e todos armados. No caminho, o Chefe deles diz que estão com fome e pede ao Temudo para pararem a fim de caçarem algo. Tempo aproveitado para descanso, que a viagem é longa e maçadora. Acabado o repasto, ao subir para a viatura, um deles, incauto, pois não levava a arma em posição de Segurança, dá um tiro. O gatilho prendeu-se num dos ferros da viatura. A bala passa entre o Temudo e o Ajax, perfura a perna duma mulher, perfura a coxa, junto à virilha, duma outra, faz ricochete e volta a entrar nela. Uma delas, a que menos sangrava, era a que mais se queixava com dores; a outra, com o sangue a sair em catadupa, quase não gemia. O Temudo imediatamente faz um garrote, tal qual aprendemos no Curso para fazer face a emergências, aliviando o aperto de tempos a tempos, com vista a facilitar a circulação sanguínea, e procura ir controlando a situação. Todos a bordo em silêncio, aceitando em absoluto as medidas tomadas. Mas ainda faltavam muitas horas para chegar à Coutada … O autor do disparo trazia duas mulheres e uma delas foi a sua vítima.
O AUTOR ENTRE O GRUPO DE GE'S, JÁ COM O ACAMPAMENTO DELES CONCLUÍDO
Para os intervenientes, nunca houve qualquer dúvida que foi mesmo só um tiro. Depois, em Serpa Pinto, constatou-se que o segundo furo na coxa foi feito pela mesma e única bala … que ficou alojada dentro da perna. Felizmente ambas as mulheres recuperaram. Não fosse a pronta e eficaz medida aplicada pelo Temudo uma delas não teria sobrevivido.


Carlos Jorge Mota

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTICIA-
Aqui está um novo PE, publicado no último sábado dia 22 no CM.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
22MAR2014