domingo, 6 de abril de 2014

XXIV - REVELAÇÃO ESTUPEFACTA

-FARDA OU FARDO?-
Atravessado o Rio Cuito, no Rito, através da LDM, eis-nos novamente na picada a caminho das instalações do Destacamento dos Fuzileiros Navais (Marinha) em Vila Nova da Armada, perto do Baixo Longa, ainda a uns bons quilómetros de distância a percorrer.
COM UM CAMARADA CONTERRÂNEO  (DE GONDOMAR)

O TEMUDO E O AUTOR ATRÁS, OS MECÂNICOS REIS E NUNO
Somos recebidos como só os Fuzos sabem receber. Os nossos anfitriões acamaradaram connosco duma forma muito calorosa, procurando que nada nos faltasse e que saciássemos a fome resultante de vários dias a Ração de Combate. De comida e … principalmente de bebida, de tal forma que tive que levar o Serginho (nome por que o Sérgio Lopes era carinhosamente por nós designado) – posteriormente meu colega na Filial do Porto do Banco Pinto & Sotto Mayor, colocado no Contencioso – ao colo para a cama e despi-lo, tal era o seu estado de … desequilíbrio. Mas não foi o único. Os Fuzileiros só deixavam de nos encher o copo quando se apercebessem que tinham atingido o objetivo … Permanecemos lá um dia, para retemperar forças e atestar viaturas.

Na conversa decorrente da amena cavaqueira prolongada até de madrugada, quando são sabedores da Companhia a que pertencíamos, um 1º Sargento dispara: “Ai vocês são da Companhia de Caçadores 2506?”, “Ah, seus malandros, então eram vocês que queriam dar-nos uns tiritos?”. Narra então algo que desconhecíamos em absoluto.

Numa das operações realizadas na zona de Mavinga, ainda permanecendo na Coutada do Mucusso, o pessoal da nossa Companhia teve como missão fazer uma nomadização (“bater” uma designada área de modo a empurrar o IN) na margem esquerda de determinado rio, pois tropa de outras unidades encontrava-se emboscada uns quilómetros mais a montante na intenção de os intercetar e neutralizar. O Héli prepara-se para largar o pessoal e, então, o Guia, que seguia junto, disse que esse rio não era o certo, esse era o Rio X, e não o nosso. O piloto afirmou que estava na posição correta, no Rio Y, segundo o mapa que exibia. Prevalecendo a afirmação do homem aos comandos – por vezes os Guias deliberadamente induziam em erro, sendo óbvio, nesses casos, que estariam “feitos” com eles - , o pessoal salta e inicia a nomadização. Isto foi o que aconteceu.

Agora a versão dos Fuzos: “estávamos nós a fazer uma nomadização no Rio X quando, ao terceiro dia, nos apercebemos dumas pegadas em linha, tipicamente ‘batendo’ um terreno. Ora os ‘turras’ não andam em linha, mas sempre em bicha-de-pirilau” (designação militar para a fila-indiana). Esse 1º Sargento, que comandava o Grupo, homem experiente neste tipo de Guerra, já tinha duas Comissões no “papo”, uma das quais na Guiné. E continua a narração: “Ligo para o PC (Posto de Comando) e pergunto se anda ali mais tropa”. Resposta obtida: “não! Só andam vocês! Portanto, tudo que mexa é para abater!” (não havia população ali). Desconfiado, transmite ao seu pessoal que algo não estava a bater certo. E continua: “de repente, detectámos miolo de pão no chão. Ora os ‘turras’ não têm pão. Andava ali tropa nossa, com toda a certeza. Redobrámos o cuidado e avistámos, então, pessoal ‘nosso’ a abastecer-se de água, indo um de cada vez encher o cantil ao rio. Tivemos o Morteiro apontado para lá, antes de nos certificarmos que era mesmo gente nossa. A operação, para nós, parou aí. Será que nós estamos em terreno errado? Questionei-me eu! Aguardámos o tempo que faltava, que era só mais um dia, e deslocámo-nos para o local previamente combinado para a recolha. Procurei indagar depois quais as unidades envolvidas nesta Operação e soube que nela estava a Companhia de Caçadores 2506. Algo de anormal tinha acontecido”. Conclusão então tirada: o Guia afinal estava mesmo certo e quer os Fuzos quer o pessoal da nossa Companhia foram largados no Rio Y. Constou-se, segundo disseram, que, posteriormente, tinha sido levantado um Processo de Averiguações ao Piloto da nossa Força Aérea. Constou-se!...

Colocados de novo na picada, aí vamos nós para Serpa Pinto, capital do Distrito de Kuando-Kubango, onde chegámos ao anoitecer. O pessoal da primeira metade da nossa Companhia, contrariamente ao que pensávamos, já estava em Luanda, junto do Batalhão a que organicamente pertencíamos.

Apresentámo-nos no Comando do Batalhão a que tínhamos estado adstritos, para uma despedida formal, como mandam as regras militares, e aí permanecemos dois dias. E dissemos finalmente adeus às Terras-do-Fim-do-Mundo.

 Carlos Jorge Mota

sábado, 5 de abril de 2014

XXIII - MARCHA PARA SERPA PINTO

-FARDA OU FARDO?-
Coluna formada, lá vai o pessoal da segunda metade, sem Rádios nem Bússolas - que ficaram na Coutada entregues à Companhia que nos rendeu -, com uma Berliet na frente da marcha, por razões óbvias de segurança,  rumo ao Destacamento da Coutada do Luengue, local da nossa primeira pernoita. Recolhido o nosso Grupo de Combate já entretanto rendido pelos noviços, aí vamos nós, logo pela manhãzinha, pela picada que liga ao Rito, muitos quilómetros à frente, onde nos aguardará uma LDM (Lancha de Desembarque Média) da Marinha, com hora marcada para o dia seguinte. Ao anoitecer, o Capitão Santana ordena que paremos para descanso e também por razões de segurança. Embrenhamo-nos na mata, ainda tipo savana. Ao clarear, toca a acordar o pessoal para retoma da viagem. Apercebo-me que o Capitão está um pouco irrequieto, tenso mesmo. Tinha suficiente confiança com ele, respeitando-o, obviamente, quer como Comandante quer como humanista que sempre demonstrou ser. Pergunto-lhe: “Meu capitão, há algum problema?” Ele respondeu logo: “Oh pá, não sei para que lado hei de seguir. Não tenho bússola! Estamos tramados!” (o termo não foi bem este, foi outro mais militarizado). Eu respondi-lhe de pronto: “Mas eu sei!” – “Sabe, como? Você tem nariz de pombo-correio?”, disse ele. Habituado ao uso da minha inseparável bússola (comprada antes do embarque e que ainda hoje transporto sempre comigo como talismã) nas entradas da mata aquando das caçadas, pois, naquele tipo de vegetação, facilmente se anda às voltas, pensando estar a seguir numa direção certa, principalmente de noite, ao desviar de uma árvore e de outra a seguir, ao entrar na mata saindo da picada, naquela noite, instintivamente vi qual o azimute que seguimos. Disse-lhe, então. “Meu Capitão, tenho aqui no bolso um pombo-correio!”, e mostrei-lhe a bendita pecinha. Mirou-me sorridente e disse: “Porra, pá, você é um gajo mesmo muito organizado. Até nisso!”. Disse-lhe: “reparei que a picada seguia para noroeste. Nós virámos à esquerda, quando entrámos na mata. Partindo do princípio que a picada é a direito, porque não haverá aqui próximo qualquer obstáculo, o rio está longe, que eu vi no mapa que também tenho aqui, é só seguir o sentido inverso (e nós viemos na direção de aproximadamente 270º), e haveremos de encontrá-la algures. Quando isso acontecer, é só virar à esquerda”. Disse-me: “vá à frente, então!” e eu respondi-lhe: “Com certeza, se é essa a sua vontade, mas também posso emprestar-lha e o senhor devolve-mo-la na picada”. – “Também pode ser”, retorquiu. E assim se procedeu.

Penso que ninguém saberá desta história, salvo se ele a tiver narrado a alguém. Pusemo-nos ao caminho, que a LDM dos Fuzos nos espera, para travessia do Rio Cuito, o mesmo rio da Coutada. Ele nasce no Bié, na Serra de Mozamba, e desagua no Rio Kubango, de que é afluente.
LDM
UMA VIATURA DE CADA VEZ, MAS CARREGADA


Carlos Jorge Mota

sexta-feira, 4 de abril de 2014

XXII - O CHEIRO DA MORTE

-FARDA OU FARDO?-
Aterra o Alouette, transportando os feridos ligeiros, que são prontamente socorridos, mas nada de grave, e também traz no seu bojo o corpo do montijense, que é levado, silenciosa e respeitosamente, para uma tenda, que ficará vazia, e lá depositado no chão, na lona. À noite, entro sozinho no seu aposento provisório. De camuflado, aparentemente incólume, sereno, parece que está a dormir. Reflito sobre este trágico acontecimento e apercebo-me instintivamente como o destino nos é cruel: ofereceu-se voluntariamente para esta tarefa de apoio logístico; dois dias antes estávamos todos a jogar futebol junto à Pista Nova … E a família descansada em casa como irá reagir ao receber esta notícia? E se fosse eu? A roleta pára num ponto indeterminado …

No dia seguinte, logo pela manhã, chega um DO (avião Dornier) da nossa Força Aérea. Traz expressamente um Soldado do PAD (Pelotão de Apoio Direto), habituado à função mórbida de soldador … de urnas. Apercebo-me da sua destreza na tarefa, sinal provável de que pouco descansa. Sou sabedor, nesse momento, e para minha surpresa, que é procedimento normal colocar-se cal dentro da urna metálica para facilitar a decomposição do cadáver. Tem lógica, mas nunca tinha pensado nisso. Acabado o trabalho, a urna é metida dentro dum caixão que possuíamos como dotação e o DO encarrega-se de o levar ao seu novo destino … alterado poucas horas antes.

É preciso reagir ao mal-estar psicológico porque eu estou na Guerra, onde já sabia que se pode morrer, ficar ferido e até estropiado. Mas o choque é profundo. E tenho que preparar a fase final para eu também poder abalar para Serpa Pinto.

Como não sobrevivemos sem comer, e ainda vamos estar mais uns dias, é preciso ir à caça. Os voluntários que sempre se disponibilizaram para esse tipo de patrulhamento, era o termo oficial, agora, com o rebentamento das minas, percebendo que afinal eles andam mesmo por ali, escapuliam-se. Falo com o Capitão Santana e ele diz-me: “Mota, tente conseguir voluntários. Se não os arranjar, selecione o pessoal que entender e arranque! Trate disso e comande você! Eu só tenho cá metade do pessoal, o resto já abalou, e tenho muito que tratar agora na sobreposição!” Apenas dois Soldados se ofereceram, os outros escolhi-os eu, pois teriam que comportar, no mínimo, o equivalente a uma Secção, reforçada.  Arranco com dois Unimogues, ando uns duzentos metros e saio da picada. Meto-me a corta-mato, pois, desse modo, jamais acionarei uma mina anti-carro. Tive necessidade de fazer mais três caçadas, agora acompanhado já dos maçaricos para eles se adestrarem na matéria. Aprenderam rapidamente.
APÓS REGRESSO DUMA CAÇADA
             
Carlos Jorge Mota

quinta-feira, 3 de abril de 2014

XXI - NOVA MINA NA PICADA

-FARDA OU FARDO?-
Já esperando o socorro indispensável, eles, deslocando-se rapidamente, o que demonstra a sua grande capacidade operacional (ou outro grupo articulado?), vêm colocar nova mina anti-carro a uns bons quilómetros da anterior, a montante. A viatura pesada, Berliet, que, por precaução, se deslocava à testa da coluna, seguida dos Unimogues, acionou o dispositivo. O pessoal salta imediatamente para a berma, toma posições de combate no terreno e aguarda a emboscada … que não aconteceu. Fica uma Secção a cuidar da viatura agora inoperacional e avança outra Berliet para a frente para se continuar a tarefa de socorro. Chegados ao local, monta-se a necessária segurança e os mecânicos avaliam a possibilidade de eventual reboque para a Coutada. Concluem que, depois duns arranjos provisórios, mas morosos, com material entretanto já por si transportados, seria possível concretizá-lo. Estes homens faziam, por vezes, autênticos milagres na picada, sem ferramenta adequada resolviam problemas aparentemente insolúveis. O pessoal seguiu o seu destino, juntos, os “nossos” para Serpa Pinto e os maçaricos para o Destacamento do Luengue. A Berliet veio rebocada para o nosso Aquartelamento. Entretanto, a segunda Berliet inoperacional permaneceu no local ainda mais um dia, com a respetiva segurança, até também ser rebocada, depois de adaptações para o efeito.
O CONDUTOR, DE PÉ, ATRÁS DO HOMEM QUE SEGURA A G-3. O JOÃO SILVA,
CMDT DO GC, DE ÓCULOS ESCUROS
Nada similar havia acontecido até aí. Fase evolutiva por parte deles ou meras ações intimidatórias? Seria para aumentar a pressão sobre a Companhia recém-chegada? Provavelmente a última hipótese, porque a função do MPLA naquela área era de mero apoio logístico à SWAPO, portanto não estariam interessados em contacto direto com as NT. Todavia, a tropa agora chegada teria que fazer uma reavaliação da situação e atuar em conformidade, como mandam as regras militares.


Carlos Jorge Mota

quarta-feira, 2 de abril de 2014

XX - MINA ANTI-CARRO NA PICADA

-FARDA OU FARDO?-
Confirmando o que sempre suspeitávamos, eles controlavam os nossos movimentos. Numa atitude de afirmação destinada a nós, que partíamos, e de meter em respeito os que chegavam, colocaram uma Mina Anti-Carro na picada, mais ou menos ao quilómetro 70. A iniciativa da nossa ação de Simulação de Ataque ao Aquartelamento comprovou-se assim, pois, que tinha sido correta. A Berliet da frente da coluna - pertencente à Companhia de Transportes de Angola, cujo símbolo era um Elefante Branco exibido nas portas, e cujos condutores se tinham oferecido como voluntários para uma sortida àquelas lindas paragens, ouviam eles dizer, e que serviram de apoio no transporte logístico - aciona o dispositivo escondido debaixo da areia. Entre o condutor de momento e o Chefe de Viatura seguia um outro Soldado-Condutor, do Montijo, em descanso, para substituição do anterior quando ele se encontrasse cansado, da dita Companhia, cujo nome jamais esquecerei, mas que não cito aqui em consideração da sua família. Os gases emergentes do acionamento incidiram sobre o tablier e ele foi mortalmente atingido por peças que se soltaram. Outros sofreram ferimentos, alguns evacuados de imediato, via Héli, para Serpa Pinto, pela sua gravidade; outros ainda, com lesões de menor dimensão, regressaram depois à Coutada em meios imediatamente disponibilizados.

Num determinado momento, as nossas Transmissões captam uma chamada na Rede “Índia, Índia”. A Rede silencia-se e o operador que estava transmitindo diz: “Sobe, Índia”. Pelo homem das Transmissões da coluna é dada a informação da ocorrência e feito o pedido de evacuação urgente.

Em Transmissões havia (há ainda?) 4 tipos de grau de prioridade no que se refere à transmissão: Rotina, Urgente, Imediato e Relâmpago, consoante a situação a aplicar. As mensagens eram soletradas letra por letra, num tipo de canto de 5 notas, de modo a haver perceção pelo recetor que alguma eventualmente pudesse não ter sido captada, e depois descriptadas. Mas a cada letra, em linguagem militar, corresponde uma palavra: Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Eco, Foxtrot, … Rómio, Uniforme, Índia, Zulu. Rotina, como se depreende, para mensagens rotineiras, tipo reporte de Sitreps; Urgente, prioridade acima da rotina; Relâmpago, que, na Natureza, descreve uma forma de Z (daí o nome Zulu) – e que é usada em casos extremamente urgentíssimos, como, por exemplo, estar a Artilharia a bombardear zonas das NT (Nossas Tropas); sobra a Imediato, a de maior prioridade a seguir a Relâmpago, e que era o grau utilizado nos pedidos de evacuações. Razão do grito de Índia! Índia!

Do Rundu, acionado através da ligação existente no Cuito Cuanavale, arranca um Héli  Alouette III dos “nossos primos” para efeito de evacuação dos feridos graves e um outro que transporta o morto e os feridos ligeiros para o nosso Aquartelamento.

Na Coutada, de imediato se organiza uma coluna, já com o pessoal em alerta máximo e com viaturas reforçadas com mais e mais sacos de areia, na cabine e na chapa servindo de chão, pois, obviamente, o IN saberia que o primeiro socorro partiria dali, e poderia haver novas surpresas, inclusivamente uma emboscada, pois eles teriam tempo de escolher o melhor ponto da picada para esse efeito, sabendo, de antemão, o sentido em que a coluna se deslocaria, colocando inclusive minas anti-pessoal nas redondezas do terreno que seria utilizado na inevitável reação das NT. E, efetivamente, aconteceu parte do que se suspeitava …
BERLIET QUE SEGUIU À CABEÇA DA COLUNA, TIPO REBENTA-MINAS
                           

Carlos Jorge Mota

terça-feira, 1 de abril de 2014

XIX - RENDIÇÃO, APÓS QUASE UM ANO NOS CUS-DE-JUDAS

-FARDA OU FARDO?-
Em princípios de agosto de 1970, somos informados que iríamos ser rendidos. Outras paragens, ainda ignoradas, nos eram agora destinadas. Começa-se os preparativos para entrega de todos os materiais, com exceção de viaturas e do armamento, e a passagem do testemunho. A fim de possibilitar uma interligação mais eficaz e um adequado contacto com a nova realidade, nomeadamente um melhor conhecimento das caraterísticas do terreno, potencialidades aproveitáveis, perigos e, principalmente, pontos mais sensíveis, havia sempre um tempo de sobreposição. Chega o primeiro grupo, que percorreu o trajeto que tínhamos utilizado na nossa ida para aquelas paragens. Boas-vindas aos noviços, de olhos perscrutantes, olhar revelador de muita e compreensível intranquilidade face ao início da sua Guerra. Branquinhos, tez ainda não mudada e moldada ao calor tropical, logo, maçariquitos recém-desembarcados, concluímos de imediato. Adestramento acelerado no que ficaria em sua posse, patrulhamentos em conjunto pois a experiência é grande mestra. Assisto a uma interjeição surreal: um Soldado novel avista um seu conterrâneo e dispara: “oh Luís, que estás aqui a fazer?”. O absurdo seria ridículo se o estado de alma fosse normal.

A transferência de Unidades normalmente é feita em duas fases, mas, neste caso, não se trata duma rotação porque a nova Companhia acaba de chegar à RMA. Todavia, a nossa deslocação é para efeito de rotação, portanto, sujeita ao procedimento habitual, isto é, metade de cada vez. Irei na segunda metade.

Avança a nossa primeira, mas com percurso diferente do utilizado na vinda, isto é, seguindo a picada mais a leste, via nosso Destacamento do Luengue - a ser rendido também -, logo, em áreas de maior preponderância de forças Inimigas, segundo informações recolhidas. Segue também um Grupo de GE’s, como reforço. Abraços aos que partem, por uma despedida temporária, até ao reencontro. Para os “nossos”, até Serpa Pinto, onde nos aguardarão; para os novatos, até ao Luengue, pois avança já um Grupo de Combate deles para render o nosso Grupo que lá está e se sobreporá com ele até à chegada da nossa segunda metade àquele Destacamento, Grupo nosso esse que se juntará depois a nós a fim de seguirmos em coluna única, rumo à Capital do Kuando-Kubango.

O GLÓRIA E OS GE'S NA PRIMEIRA METADE.
O AUTOR, SÓ PARA MEMÓRIA FUTURA
Metem-se ao caminho, como tantas e inúmeras vezes antes, mas, desta, uma surpresa estaria reservada.

Carlos Jorge Mota

segunda-feira, 31 de março de 2014

XVIII - NOTAS SOLTAS ...NO KUANDO-KUBANGO

-FARDA OU FARDO?-
O Comandante e … o Patrão
Como disse atrás, o Tenente-Coronel Soares, Comandante do meu Batalhão, acompanhou toda a nossa viagem até à Coutada, ao volante do “seu” jipe, acompanhado do seu condutor privativo. Como era habitual, quando se ia para a mata, ou em trânsito para ela, nada se levava em cima dos ombros, todos possuímos aparentemente o posto de Soldado. Na travessia duma cidade, um civil dirige-se a ele e faz-lhe uma pergunta sobre algo da estrada. Ele respondeu: “não sei! Isso é aqui com o Patrão!, e aponta para o lado. O homem fica perplexo, pois vê um “soldado” ao volante, já com quase 50 anos, meio careca, e o homem ao lado, de 21 anos, é que é o patrão? É que Patrão … é mesmo o nome do rapaz.

2 Dias de Prisão …
Para travessia do Rio Cuito, no Dirico, utilizava-se uma jangada, que só transportava uma viatura de cada vez, e vazia. Demorámos nisso quase dois dias. Como não sou apologista de ordenar algo cuja dificuldade de execução não tenha avaliado, e como era preciso descarregar as viaturas de todo o seu conteúdo (e carregá-las de novo, do outro lado do rio, após a travessia), desde géneros alimentares a cunhetes de munições, passando por todo o restante e muito diverso tipo de material, resolvi ajudar o pessoal e “alombar” também. De repente, aparece-me o Comandante, chama-me ao lado e diz-me, numa voz calma mas firme: “você está aqui para coordenar, não para andar com caixas às costas. Se o volto a ver nesta situação, enfio-lhe com 2 dias de prisão!”. E a punição dum Graduado implicava obrigatoriamente a sua transferência de Unidade. Aconteceu, infelizmente, já quase no fim da Comissão, com um Camarada meu.

Acidente na Jangada
Não presenciei, foi-me narrado, mas que me marcou profundamente: um moço nativo, civil, ficou com a perna entalada entre a jangada do Dirico e a margem. Como o ferimento era aparentemente grave, alguém solicitou, através dos canais próprios, a evacuação do rapaz. Os  “nossos primos” tinham uma base aérea a menos de 10 minutos de voo. Aterrado o Cessna, o piloto indaga o que se passa e verifica, obviamente, que se trata dum negro, e civil. Manda aguardar, fala em afrikaans com o Rundu. Diz, depois, que o avião está avariado e tem que regressar à base. Verdade? Talvez! Mentira? Se sim, seria por ser civil e eles não se sentirem “obrigados” a isso? É que, conhecendo agora os termos do ALCORA, o Acordo era meramente militar … Seria por ser negro? Não sei. Soube depois que foi amputada a perna ao infortunado nativo. Mas foi coisa que me incomodou!

Fogo no Cessna
Carregado o Saco do Correio e algo que havia sempre a remeter para Serpa Pinto, despeço-me do piloto carcamanho e fico a aguardar a descolagem. Ele põe o motor a trabalhar e, de repente, uma labareda na parte inferior do avião, provinda do motor, irrompe. Como se trata de uma aeronave que, pousada, fica com o nariz levantado, ele de nada se apercebe. Atravesso-me à frente do avião, para evitar que ele arranque, esbracejando com vigor e a gritar “Fire! Fire!”. Com o barulho do motor ele nada ouve mas percebe que algo de anormal se passa. Sai apressadamente da cabine, vê o fogo, corre a buscar um extintor e domina-o rapidamente. Deveriam ser restos de combustível que andavam por ali e, com o aquecimento repentino, deflagraram… Ficou pálido, sentou-se no chão uns minutos. Pediu-me para estar atento e voltou para dentro, deixando a porta aberta. Põe o motor a trabalhar, aquece uns minutos e pergunta-me, gesticulando, se noto alguma anormalidade. Faço-lhe sinal com o polegar que parece estar agora tudo bem. Fecha a porta. Acena-me dum modo muito enfático, como que a agradecer, arranca, eleva-se nos céus e toma o rumo definido.

12 Candeias
x 12



Solicitou-se a Serpa Pinto transporte para 12 Candeias. Aterra o Cessna dos “nossos primos”, vai descarregando o conteúdo, sempre com o bendito CORREIO, e diz o piloto: “I have here in the aircraft a small space for twelve oil-lamps, but I must charge somethings yet at my base, in Rundu”  (eu tenho aqui no avião um pequeno espaço para 12 candeias, mas tenho ainda que carregar umas coisas na minha base no Rundu). Fora-lhe transmitido que iria transportar 12 candeias. Nas Forças Armadas, a cada Posto corresponde um número. A Segundo-Sargento era (é ainda?) o número 12. Era o Sargento Candeias, de seu nome, que precisava de ir a Serpa Pinto. Alentejano de gema, de Ponte de Sor, latagão duns quilos bons, amigo do seu amigo, homem muito dinâmico, o que contraria a ideia errada de molenguice que se atribui àquela gente, teria que se reduzir ao espaço de 12 candeias …  Lá teve ele que aguardar mais uns dias.

O Palaio e os seus patos
Logo à chegada à Coutada do Mucusso, o nosso Comandante de Batalhão, que nos acompanhou às Terras-do-Fim-do-Mundo, resolveu ir à caça e fez-se acompanhar dum pequeno grupo. Encontraram uma peça jeitosa cujas patas o Comandante deduziu logo serem boas para fazer as pernas duma mesa. Dispararam sobre o bicho, mas ele não morreu, apenas ficou ferido e largando um pequeno rasto de sangue na sua fuga. Para facilitar a localização, e pressupondo que ele estaria por perto, o Comandante e outro Camarada seguiram no Unimogue na sua peugada enquanto os restantes desceram da viatura e prosseguiram a busca, mas apeados. O Comandante desorientou-se nos azimutes e seguiu a direção leste enquanto os restantes conseguiram localizar a peça, que entretanto soçobrou. Esperaram, esperaram, mas nenhum sinal dos outros foi recebido. Entretanto escureceu. E agora, que fazer? O Palaio prontificou-se a ficar a tomar conta da peça de caça, mas, por precaução, subiu para uma árvore de porte razoável munido da sua arma enquanto os outros sobrantes, que eram dois, foram fazer pesquisas do terreno na tentativa de encontrarem vestígios de retorno. Atraídos pelo cheiro do sangue, começam a afluir aves de rapina, leões, leopardos e toda a bicharada ávida de repasto. O Palaio lá foi abatendo ou afugentando alguns no sentido de salvaguardar a peça. Mas ... e agora, se também os outros não aparecem? Resolveu então abandonar o local e desprezar o bicharoco, pois não tinha como levá-lo. Descobriu o caminho de retorno sozinho e foi o primeiro a chegar ao Aquartelamento, já noite adentro. Trazia às costas, para seu orgulho, já morto, um "pato" grande, e, cheio de regozijo, dizia: "há ali muitos, muitos, mais!". Só que o "pato" do Palaio não era mais que um abutre ... Os outros militares, que eram quatro, divididos em dois grupos separados, chegaram no dia seguinte, em momentos bem diferentes.


Tiro na mosca
No Destacamento do Luengue, durante uma caçada para abastecimento alimentar, e estando apeado, um Soldado nosso vê de repente vir em sua direção, qual comboio expresso em velocidade acelerada, um rinoceronte, cabeça abaixada com o corno em riste. Levanta a arma, faz pontaria e abre fogo. O bicharoco cai à sua frente, morto. Mais tarde, Caçadores Profissionais disseram que lhe tinha saído a sorte grande. O Rinoceronte, afirmaram, tem a cabeça com uma couraça, tipo blindagem, e há só, nessa zona, uma pequena área, entre os olhos, que é vulnerável. Mais disseram que um bicho destes tem que ser abatido (mas que não o faziam, avisaram logo, talvez lembrando-se que era proibido) com arma de calibre grosso e com bala especial. Na falta dessa bala, deveria cortar-se, em formato de cone, um bocado dessa outra, para que, com o impacto do embate, ela achatasse e alargasse o poder de perfuração. Não me lembro já do que foi feito ao cadáver do bicho, mas deverão ter sido cumpridas todas as normas, até porque o tiro só foi efetuado em legítima defesa. Não sei se esse Soldado tem sorte ao jogo …


Natal de 1969
Noite de Natal. Regressa, precisamente ao anoitecer, vindo duma missão, um Grupo de Combate comandado pelo Temudo. De repente, um Soldado, em pânico, diz que perdeu a Arma. Durante o trajeto, talvez com receio de adormecer porque o ronronar do motor do Unimogue é convidativo, pousou a G3 no chão da viatura, junto a si. E agora? É de noite, voltar para trás nada resultará pois é escuro como breu. Acertou-se, de imediato, que, logo pela manhãzinha, se faria o percurso inverso na tentativa de encontrar a malvada escapulida. Ofereci-me como voluntário para ajudar. Dia de Natal, aí vamos nós quais cães farejadores. Percorremos durante umas 7 horas toda a picada, perscrutando a sua orla. E … encontrámo-la mesmo, deitadinha no chão, à espera de mão caridosa ou de uma outra menos misericordiosa, o que seria extremamente grave. Foi precisamente numa zona onde habitavam avestruzes de grande envergadura (devem continuar ainda lá, mas já os descendentes). À nossa passagem desatam numa correria, qual avião rolando na pista para descolagem, que chegam a atingir cerca de 80 Kms por hora. Espetáculo lindo, maravilhoso de se ver. Foi só nessa zona, já muito próximo de Bambangando, que vi este tipo de animal. Regressados ao Aquartelamento, e para alívio geral, com a recuperação concretizada. Tempo ainda para se saborear algo de diferente. Para não nos esquecermos que era Natal …

ESPINGARDA AUTOMÁTICA G-3

                    
Carlos Jorge Mota