terça-feira, 15 de abril de 2014

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Aqui continuamos a postar os próximos encontros de militares, publicados no PE do CM.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
12ABR2014

domingo, 13 de abril de 2014

XXVIII - O TATARELHO APONTA-ME A G-3

-FARDA OU FARDO?-
Chegados à Estação de Cangumbe, acampámos na zona exterior à Unidade ali instalada, fora do arame-farpado, num terreno desmatado e ligeiramente inclinado para o lado da via-férrea. Partiríamos cedo, pois o nosso objetivo distanciava daí uns cento e oitenta quilómetros para norte, a percorrer por picada perigosa dada a forte presença do IN nas imediações, zona da UNITA, terra-natal do seu Chefe. Feita a necessária segurança, em semi-círculo, pois de um dos lados situava-se o Aquartelamento de Quadrícula, procurámos descansar e dormir algumas horas, nos nossos sacos-cama.
QUARTEL EM CANGUMBE

Já bem noitinha, após ter dormido um pouco, sinto uma enorme vontade de satisfazer necessidades fisiológicas primárias. Se fosse reequilibrar fluidos, seria fácil, mas não, era mais completo. “E agora? Onde vou?” Sair do perímetro de segurança, naquela escuridão, seria desaconselhável. Lembrei-me, então: “e por que não ir dentro do Quartel aqui mesmo ao lado? “. Eles, por razões óbvias militares, de noite tinham uma pequena zona, virada para a Estação, e dentro do arame-farpado, permanentemente iluminada. A sentinela, desse lado, estava postada no interior duma fortificação tipo casamata, e quem para lá olhasse via unicamente a ponta do cano da espingarda, mas ela (sentinela) avistava tudo para fora. Eles tinham conhecimento que estava ali tropa. Todavia, há que preservar as elementares regras de segurança. Logo que me aproximo do arame para transpor a entrada, ouço uma voz, cumprindo o regulamentado: “Quem vem lá faz alto!”, mantendo a Espingarda-Metralhadora G-3 apontada para mim. Parei, disse que era da Companhia de Caçadores que estava no exterior e que precisava de ir ao WC. Cito o meu Posto e o meu Nome, e ele, mais uma vez, em obediência às regras estabelecidas, ordena categoricamente: “Avance ao reconhecimento!”. Ando uns passos e entro na zona iluminada. É então que ouço uma voz dizer, duma forma eufórica: “Oh Mota, estás aqui?”. Tratava-se de um rapaz que andou comigo na Escola Primária cujo nome não sabíamos porque lhe chamávamos “O Tatarelho”, dado que ele se exprimia duma forma muito peculiar. Ficou conhecido com essa alcunha, mas também não considerava isso um anátema e convivia bem com a situação. Acabada a Escola Primária, não pertencendo ele ao grupo de privilegiados que foi estudar, contrariamente à minha pessoa, com 10 anos começou a trabalhar, e nunca mais o vi, pois cada um seguiu o seu destino. Abraçámo-nos com visível emoção … sem ele abandonar o seu posto e vigilância, obviamente, e lá fui eu ao meu desiderato.

Manhã cedo, com uma das Berliets à cabeça da coluna, por evidente prevenção de eventuais minas na picada – a viatura pesada logicamente tem maior poder de absorção do impacto do engenho, mas também protegida com inúmeros sacos de areia, tal qual as viaturas ligeiras Unimogues – arrancámos para o local previamente definido onde iríamos bivacar para, daí, a Companhia efetuar as Operações Militares previamente definidas e cujo PC (Posto de Comando) se encontrava na CCS do Batalhão.


Carlos Jorge Mota

quinta-feira, 10 de abril de 2014

XXVII - CAMINHADA PARA O LESTE

-FARDA OU FARDO?-
Com destino já programado para o Leste, mais propriamente para o Distrito do Moxico, abalámos numa manhã cedo dos princípios de setembro de 1970 para Nova Lisboa, pela estrada alcatroada utilizada normalmente pelo tráfego civil uma vez que fica fora de área de atuação do IN. Parámos novamente em Quibala para um ligeiro descanso durante o qual se almoçou a Ração de Combate, completa, pois sabia-se que à chegada à capital do Distrito do Huambo haveria uma ligeira refeição quente à nossa espera, sopa pelo menos, num dos Quartéis onde pernoitaríamos. Aproveitei para ir a um Quimbo (Mosseque) que estava muito próximo e tirar umas fotografias com gente nativa, muito afável e prestável.

MOENDO O PIRÃO
MACAQUINHO BRINCALHÃO



















Retomada a marcha e chegados à tardinha a Nova Lisboa, atestaram-se viaturas num dos Aquartelamentos na denominada Zona dos Quartéis, concretamente no R.I. 21, comemos uma sopinha quente e fomo-nos recolher pois o dia seguinte iria ser árduo.

Alvorada tocada, dirigimo-nos para a Estação de Caminho de Ferro de Nova Lisboa do CFB - Caminhos de Ferro de Benguela, que liga a Vila de Teixeira de Sousa, na fronteira com o Congo ex-Belga (Zaire), ao Porto de Benguela (e que tem continuação para o Porto do Lobito), e que é utilizado por aquele país para escoamento marítimo dos seus produtos daquela sua área geográfica, nomeadamente minérios. Na Estação tínhamos um Comboio Especial já à nossa disposição no qual carregámos as viaturas, pesadas e ligeiras, e todo o material que necessitávamos, incluindo armamento e munições – tarefa trabalhosa e bastante demorada.











A viagem até à localidade definitiva, cidade do Luso, no Moxico, nosso destino final, iria ser feita em duas fases, dado que uma Operação de alguns dias, na zona do Munhango, Distrito do Bié, estava já programada, envolvendo todo o Batalhão, com as suas Companhias dispersas por uma área alargada, na zona de atuação da UNITA, precisamente na localidade onde nasceu o seu Comandante-em-Chefe, Jonas Malheiro Savimbi, cuja captura, a concretizar-se, seria um troféu preponderante. O comboio habitualmente fazia todo o percurso precedido duma Draisine, um pequeno veículo, totalmente blindado, que também era usado para Serviço de Obras na via, mas que ali desempenhava a função de detetar a eventual colocação de minas ou armadilhas, situação muito pouco provável atendendo a que o próprio Zaire não estava interessado na desestabilização deste importante braço escoador marítimo das suas mercadorias e impunha as suas regras aos Movimentos de Guerrilha que apoiava (FNLA, no Norte, e UNITA, no Leste), bem como a própria Zâmbia, que apoiava o MPLA, e que também utilizava esta via ferroviária, atravessando previamente território zairense.

Decorridas umas 4 a 5 horas de viagem, com algumas paragens pelo meio, chegámos finalmente, já pelo fim da tarde, ao nosso destino provisório: Estação de Cangumbe, em cuja proximidade a nossa Companhia iria atuar em Operações, pelo que foi necessário efetuar todo o processo inverso, isto é, descarregar viaturas e material.

Mesmo junto à Estação existia um Aquartelamento das NT, fortemente guarnecido, que, enquanto permaneceu dia, e depois de findos todos os procedimentos, para liberação do Comboio, nos permitiu alguma descompressão na respetiva Cantina e beber umas cervejas, que o calor apertava.

 Carlos Jorge Mota

terça-feira, 8 de abril de 2014

XXVI - OPERAÇÕES AO NORTE EM MATA CERRADA

-FARDA OU FARDO?-
Rendido já o Batalhão no Serviço à Rede de Luanda e colocado às ordens do QG (Quartel General) como reforço, somos escalados para duas Operações na zona do Zenza do Itombe, área de mata serrada, selva plena. Numa dela, a primeira, marcham dois Grupos de Combate da minha Companhia, que entraram no terreno pelo lado norte, operação conjugada com outras Unidades quer de quadrícula quer especificamente deslocadas para lá para o efeito. Na segunda, passados uns quinze dias, já a nível de toda a Companhia, mas a entrada na selva fez-se, desta vez, pelo lado sul, oposto portanto à da primeira.
RIO ZENZA
MATANDO O TEMPO, NUM INTERVALO SENTADOS EM CUNHETES DE
DE MUNIÇÕES. RIACHOS O HOMEM DE PÉ, OPERADOR DE TRANSMISSÕES
,QUE RECENTEMENTE NOS DEIXOU, DEPOIS DE TER ALEGRADO MUITOS CONVÍVIOS PÓS-DESMOBILIZAÇÃO

Estas Operações Militares envolviam, por norma, grandes efetivos, de múltiplas áreas de ação e com objetivos diferentes no terreno: uns com função de nomadização, outros com tarefas de emboscadas e outros ainda para Golpes de Mão, ou seja, assaltos repentinos aos aquartelamentos do IN referenciados.

Chegados ao nosso destino – cada Companhia tinha o seu ponto de estacionamento -, instalámos, montámos segurança e pernoitámos, pois a ação conjugada só teria lugar ao alvorecer do dia seguinte.

Deito-me dentro do meu saco-cama, com a arma ao meu lado, junto a um barranco com um desnível brusco de cerca duns 7 metros, mas afastado da orla da mata aí uns bons 20 metros, a fim de me salvaguardar duma eventual visita inesperada noturna duma jiboia ou bicho semelhante. Estávamos em alerta máximo contra todos os perigos, quer do inimigo humano quer animalesco. Adormeci quase de imediato, mas havia pessoal de vigia permanente. Passado um tempo que eu julguei ser de pouquíssimas horas, mas, resultante do cansaço e do stress pelos riscos da viagem, o alvorecer já despontava. Subitamente, ouço, mesmo ao meu lado, dois rebentamentos estrondosos. Pensei: - “duas morteiradas estão a cair-nos em cima”. Pego na arma, fico na expectativa da evolução da situação e, de repente, ouço: “Fogo!”. Eram dois obuses do pessoal de Artilharia que chegou já depois de eu adormecer, instalados precisamente no topo do terreno ao qual eu me encontrava encostado. Eu não os vi chegar nem os vislumbrava agora. Só quando me pus de pé.

Selva completamente cerrada, a Artilharia estava a bombardear zonas previamente marcadas na Carta Militar a fim de obrigar o IN a deslocar-se para pontos onde se encontravam as NT emboscadas. Tática operacional normal.

Acabada a Operação, regressámos ao Grafanil, onde iríamos fazer os preparativos para uma nova grande viagem, agora até ao Leste de Angola.
                                                
Carlos Jorge Mota

segunda-feira, 7 de abril de 2014

XXV - REGRESSO AO BATALHÃO A LUANDA E...NOTÍCIA ARRASADORA

-FARDA OU FARDO?-
Depois de cerca de um ano de separação do nosso Batalhão, finalmente regressámos ao seu seio. Marchámos para Luanda novamente por estrada alcatroada, fora de zona de atuação do IN, mas com percurso ligeiramente diferente do da vinda para Serpa Pinto: tomámos a via de Chitembo, em vez de Artur de Paiva, e passámos pelo Chinguar, muito perto de Nova Lisboa. Parámos finalmente em Quibala para reabastecimento na Unidade de quadrícula de lá, onde pernoitámos. Dia seguinte, logo pela manhãzinha, arrancámos com destino final ao Grafanil, com passagem pelo Dondo, linda localidade nas margens do Rio Lucala, que ali se junta ao Rio Cuanza, de que é afluente. Finalmente juntos, de novo, na capital. E refeição quente à nossa espera, após mais dois dias a Ração de Combate.

EM QUIBALA
Somos então sabedores que a vida das outras Companhias, sob o ponto de vista de atuação militar, tinha sido bastante dura durante aqueles meses da nossa ausência. A CCS, através do seu PelRec (Pelotão de Reconhecimento), que incluía uma Secção de Sapadores (homens especializados em Minas e Armadilhas), tinha sido destacada inúmeras vezes para missões ao Norte de Angola, embrenhando-se em plena zona de Selva, suscetível de contactos frequentes com o IN, fosse a fazer escoltas aos denominados MVL’s (Movimento de Viaturas Logísticas),  isto é, colunas de camiões civis transportando toda a logística, quer a militar quer a destinada à atividade civil normal das localidades por onde passavam, fosse também em tarefas de fornecimento de Mantimentos e Munições a Unidades mais isoladas. As outras duas Companhias Operacionais,  a 2504 e a 2505, também ficaram incumbidas de ações bem perigosas, nomeadamente do controlo de áreas das margens do Rio Dange, de cuja ponte principal ficaram alguns meses a manter segurança. Tiveram aí diversas baixas, quer em mortos quer em feridos.

Fazendo uma comparação objetiva, concluímos então, nesse momento de chegada, que a nossa Guerra até tinha sido menos penosa, apenas o isolamento de centenas de quilómetros a sul da civilização nos foi muito adverso.

Como tomámos logo conhecimento que iríamos ser destacados a curto prazo para Operações no Norte e que brevemente nos seriam apontados novos destinos definitivos, procurámos tirar partido da vida de Luanda o máximo possível, principalmente da noturna, até porque a quase totalidade do pessoal (não foi o meu caso, pois tive férias nesse período) já não via uma mulher há muitíssimos meses.

Eu, pessoalmente, voltei a aboletar-me em casa do tio do meu amigo de infância Francisco Fontes, pertinho da Vila Alice, para minha melhor comodidade e, principalmente, para convívio tipo familiar. Só que o Fontes estava já perto do fim da sua Comissão … mas também eu brevemente voltaria para o Mato, com o final da minha ainda a uns 10 meses de distância temporal.

Dia 29 de agosto de 1970, estando nós os dois a conversar, digo-lhe eu: “eh pá, não sei o que se passa, não recebo carta nem de casa nem da Vitória (minha namorada) há um bom par de dias”. Ele ficou tenso, reflexivo, até que disparou: “olha lá, tu tens que saber e tens que saber mesmo: o teu pai faleceu. Recebi há uns dias a notícia de minha casa”. Meu pai tinha partido para a sua última viagem no dia 16 anterior. Uma carta do Porto para Luanda demorava, nessa altura, dois dias a chegar ao destino, no máximo três. No dia seguinte à expedição estava em Lisboa e seguia no avião da TAP, diário, logo de imediato. Os CTT estavam instruídos para dar prioridade ao Correio destinado a Militares pois é dos livros que a Retaguarda de qualquer Guerra é fundamental para manter o elevado espírito moral das Tropas. E um destinatário militar era distinguido pela sua visível designação. Era escrito o Posto, o Nome e o Código do S.P.M. (Serviço Postal Militar). A cada subunidade (Companhia) era atribuído um número composto por 4 algarismos, sendo que o último se reportava à Região Militar respetiva ou ao CTI (Comando Territorial Independente)  Guiné, que era 8. No caso de Angola era 6. O meu S.P.M. era o 7416.

Foi um choque terrível no meu coração, embora a notícia não fosse propriamente inesperada. Fomos ao cinema nessa noite, eu tentando espairecer um pouco a minha cabeça e ele a fazer a descompressão por algo muito dificultoso que tinha para narrar …
                       
 Carlos Jorge Mota

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Postamos mais um PE, com novos encontros de militares, que serviram nas várias armas das Forças Armadas Portuguesas.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
05ABR2014

domingo, 6 de abril de 2014

XXIV - REVELAÇÃO ESTUPEFACTA

-FARDA OU FARDO?-
Atravessado o Rio Cuito, no Rito, através da LDM, eis-nos novamente na picada a caminho das instalações do Destacamento dos Fuzileiros Navais (Marinha) em Vila Nova da Armada, perto do Baixo Longa, ainda a uns bons quilómetros de distância a percorrer.
COM UM CAMARADA CONTERRÂNEO  (DE GONDOMAR)

O TEMUDO E O AUTOR ATRÁS, OS MECÂNICOS REIS E NUNO
Somos recebidos como só os Fuzos sabem receber. Os nossos anfitriões acamaradaram connosco duma forma muito calorosa, procurando que nada nos faltasse e que saciássemos a fome resultante de vários dias a Ração de Combate. De comida e … principalmente de bebida, de tal forma que tive que levar o Serginho (nome por que o Sérgio Lopes era carinhosamente por nós designado) – posteriormente meu colega na Filial do Porto do Banco Pinto & Sotto Mayor, colocado no Contencioso – ao colo para a cama e despi-lo, tal era o seu estado de … desequilíbrio. Mas não foi o único. Os Fuzileiros só deixavam de nos encher o copo quando se apercebessem que tinham atingido o objetivo … Permanecemos lá um dia, para retemperar forças e atestar viaturas.

Na conversa decorrente da amena cavaqueira prolongada até de madrugada, quando são sabedores da Companhia a que pertencíamos, um 1º Sargento dispara: “Ai vocês são da Companhia de Caçadores 2506?”, “Ah, seus malandros, então eram vocês que queriam dar-nos uns tiritos?”. Narra então algo que desconhecíamos em absoluto.

Numa das operações realizadas na zona de Mavinga, ainda permanecendo na Coutada do Mucusso, o pessoal da nossa Companhia teve como missão fazer uma nomadização (“bater” uma designada área de modo a empurrar o IN) na margem esquerda de determinado rio, pois tropa de outras unidades encontrava-se emboscada uns quilómetros mais a montante na intenção de os intercetar e neutralizar. O Héli prepara-se para largar o pessoal e, então, o Guia, que seguia junto, disse que esse rio não era o certo, esse era o Rio X, e não o nosso. O piloto afirmou que estava na posição correta, no Rio Y, segundo o mapa que exibia. Prevalecendo a afirmação do homem aos comandos – por vezes os Guias deliberadamente induziam em erro, sendo óbvio, nesses casos, que estariam “feitos” com eles - , o pessoal salta e inicia a nomadização. Isto foi o que aconteceu.

Agora a versão dos Fuzos: “estávamos nós a fazer uma nomadização no Rio X quando, ao terceiro dia, nos apercebemos dumas pegadas em linha, tipicamente ‘batendo’ um terreno. Ora os ‘turras’ não andam em linha, mas sempre em bicha-de-pirilau” (designação militar para a fila-indiana). Esse 1º Sargento, que comandava o Grupo, homem experiente neste tipo de Guerra, já tinha duas Comissões no “papo”, uma das quais na Guiné. E continua a narração: “Ligo para o PC (Posto de Comando) e pergunto se anda ali mais tropa”. Resposta obtida: “não! Só andam vocês! Portanto, tudo que mexa é para abater!” (não havia população ali). Desconfiado, transmite ao seu pessoal que algo não estava a bater certo. E continua: “de repente, detectámos miolo de pão no chão. Ora os ‘turras’ não têm pão. Andava ali tropa nossa, com toda a certeza. Redobrámos o cuidado e avistámos, então, pessoal ‘nosso’ a abastecer-se de água, indo um de cada vez encher o cantil ao rio. Tivemos o Morteiro apontado para lá, antes de nos certificarmos que era mesmo gente nossa. A operação, para nós, parou aí. Será que nós estamos em terreno errado? Questionei-me eu! Aguardámos o tempo que faltava, que era só mais um dia, e deslocámo-nos para o local previamente combinado para a recolha. Procurei indagar depois quais as unidades envolvidas nesta Operação e soube que nela estava a Companhia de Caçadores 2506. Algo de anormal tinha acontecido”. Conclusão então tirada: o Guia afinal estava mesmo certo e quer os Fuzos quer o pessoal da nossa Companhia foram largados no Rio Y. Constou-se, segundo disseram, que, posteriormente, tinha sido levantado um Processo de Averiguações ao Piloto da nossa Força Aérea. Constou-se!...

Colocados de novo na picada, aí vamos nós para Serpa Pinto, capital do Distrito de Kuando-Kubango, onde chegámos ao anoitecer. O pessoal da primeira metade da nossa Companhia, contrariamente ao que pensávamos, já estava em Luanda, junto do Batalhão a que organicamente pertencíamos.

Apresentámo-nos no Comando do Batalhão a que tínhamos estado adstritos, para uma despedida formal, como mandam as regras militares, e aí permanecemos dois dias. E dissemos finalmente adeus às Terras-do-Fim-do-Mundo.

 Carlos Jorge Mota