sábado, 24 de maio de 2014

III - DESPEDIDA DE SANTA MARGARIDA

-FARDA OU FARDO?-
Dia 7 de maio, véspera da data do embarque, todo o Batalhão, com as suas quatro Companhias, é colocado em Parada junto à Capela do Campo Militar.

CAPELA
Aí, após a tradicional missa campal celebrada pelo Capelão Militar integrado na CCS, o Comandante de Batalhão, então Tenente-Coronel, António de Almeida Gonçalves Soares, faz a seguinte alocução (o rascunho do discurso tem data anterior, data essa em que terá sido elaborado):

(Documento que me foi por ele remetido pelo Correio em 2011, bem como outros - um dos quais abordarei em momento mais adequado -, na sequência duma conversa havida entre nós durante uma Confraternização de Graduados naquele ano, que começou pela minha curiosidade de querer saber as razões da Divisa do Batalhão. Exibo sua carta de outubro de 2011. Fui por ele autorizado, em telefonema que lhe efetuei há uns dias atrás, a publicar estes elementos)


Alocução cujo conteúdo só é entendível se contextualizado na época



Nesse dia, à noitinha, embarcámos em Comboio Especial na Estação de Santa Margarida, Ramal do Tramagal que liga à Linha da Beira Baixa, em viagem noturna, com destino à Estação de Alcântara-Mar, passando pelo Entroncamento, Braço de Prata e Campolide, descendo depois para o Rio Tejo, com paragem prévia em Alcântara-Terra, para controlo do trânsito viário, pois a linha atravessa a Rua nessa zona e entra no Cais. Daí, saímos e fomos em coluna apeada até ao navio Uíge, que nos aguardava no Cais da Rocha do Conde de Óbidos.

UÍGE
Abraços, despedidas emocionadas. Eu não quis lá ninguém da família, mas apareceu o meu cunhado Amorim (já falecido) que residia com minha irmã em casa dos meus pais. A Banda do Exército toca marchas militares, não só por exaltação do momento mas também para abafar os gritos de desespero das pessoas no cais. Muita confusão no seio dos civis, a atropelarem-se uns aos outros na ânsia de tocar pela última vez no seu ente querido.

Carlos Jorge Mota

sexta-feira, 23 de maio de 2014

II - JUNÇÃO AO BATALHÃO

-FARDA OU FARDO?-
Em meados de março recebo Guia de Marcha para a minha Unidade Mobilizadora – Regimento de Infantaria 2, em Abrantes. Apresento-me ao Oficial-de-Dia, que me encaminha para a Secretaria. Recebo de imediato Nova Guia de Marcha para me apresentar no dia seguinte no CIM (Campo de Instrução Militar) de Santa Margarida, próximo do Tramagal – localidade onde eram montadas as Berliets militares – para me reunir à minha nova família militar: Companhia de Caçadores 2506 do Batalhão de Caçadores 2872, cujo lema é CONQUISTANDO OS CORAÇÕES SE VENCE A LUTA. Apresento-me ao Capitão Santana, que me ordena para me dirigir à Secretaria da Companhia, onde vou encontrar o que viria a ser um grande amigo, lº Sargento Vilares, que atingiu a patente de Capitão, provindo de Soldado, tal a sua capacidade intrínseca, demonstrada pelos livros que já publicou, quer em prosa quer, e principalmente, em verso poético, de caráter genérico e épico. Sou apresentado também a todos os restantes Graduados e às Praças cujas caras e nomes me iriam ser tão familiares durante quase 26 meses.

C I M DE SANTA MARGARIDA
MORGADO, CARDOSO-2505, MINEIRO,
AUTOR, GLÓRIA E JOÃO SILVA












Nova situação, nova vida. Necessários ajustamentos. Santa Margarida, para além de outros poucos locais no país, era o Campo Militar por excelência onde se fazia o denominado I.A.O. – Instrução e Aperfeiçoamento Operacional –, atendendo às caraterísticas do terreno, que era (é) propício à criação duma ambiência similar ao teatro de operações que iríamos enfrentar em África. Seis semanas consecutivas de treino intensivo, intervaladas apenas com alguns fins-de-semana, que eram aproveitados para descanso e visita à família e namorada. Rotina desgastante. Mas eis que chega a informação da data do embarque: 8 de maio, no navio Uíge. Tensão aumentando gradualmente, face à despedida inevitável. A minha namorada é informada e todos os meus familiares também, com exceção do meu pai. No último fim-de-semana regresso a Santa Margarida, despedindo-me dele com um beijo, aparentemente normal, e um “até sábado!”. Foram muito difíceis aqueles momentos, para todos nós que sabíamos. Mas … tinha que ser.

Apanho o comboio em Campanhã, passo a velhinha Ponte D. Maria, olho para a minha linda cidade, que vista de Vila Nova de Gaia ainda é mais encantadora, e questiono-me: “será que vou voltar a ver o Porto?”. Muita tropa no comboio, de regresso aos quartéis, como era normal naquela época, no fim do fim-de-semana. Porém, talvez só eu me encontrasse naquela situação especial … que tinha que controlar.

Carlos Jorge Mota

I - ESTOU MOBILIZADO PARA ANGOLA

-FARDA OU FARDO?-
Em princípios de outubro de 1968, acabada a Especialidade de Serviço de Administração Militar, na Póvoa de Varzim, sai em Ordem de Serviço a minha Mobilização, feita pelo R.I. 2 (Regimento de Infantaria 2, em Abrantes), integrado na Companhia de Caçadores 2506 pertencente ao Batalhão de Caçadores 2872, em formação naquela Unidade. Fiquei logo a ela adstrito, todavia, como a minha presença era dispensável no período da Recruta e Formação do Pessoal do Batalhão a constituir, face à especificidade da minha Especialidade, recebi Guia de Marcha, em Regime de Diligência, para o R.A.L. 5 (Regimento de Artilharia Ligeira 5), em Penafiel, em cujo Conselho Administrativo comecei a desempenhar funções e cujo Chefe era o meu amigo de infância Joaquim Santos, já licenciado entretanto em Economia. Lá apresentado, e com outros camaradas também recém-chegados, logo surge o Furriel Miliciano Pequito a convocar-nos para uns crosses e Aplicação Militar. Corremos 8 Kms, bem suados, e, em fato de ginástica, em plena praça frente ao Quartel, gramámos ali uns 50 minutos no duro. Viemos a perceber depois que se tratava de uma praxe de que ele fora encarregado. Homem sempre bem disposto, contador de piadas consecutivas. Mais tarde, com um mês de África, venho a saber que ele faleceu num brutal acidente de automóvel quando se dirigia para a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, onde entretanto fora recolocado para dar Instrução.

Não me recordo do nome do Comandante à altura do RAL 5, mas lembro-me que o 2º Comandante era o então Major Rolando Tomás Ferreira, que veio a ser Adjunto do meu Comandante de Companhia lá, Capitão Eurico Corvacho, aquando do 25 de Abril, no momento em que ele, graduado em Oficial General, era o responsável, nesse período, pela Região Militar Norte, e era também membro do Conselho da Revolução.

O meu serviço era de natureza administrativa, leve, portanto, mas estava submetido à escala de Serviço à Unidade, como os demais Graduados. Entretanto, na minha perna esquerda surgem uns papilomas (verrugas) cujo diagnóstico foi logo feito, por análise laboratorial: “moluscum contagiosum”. Nada de importante, mas o nome mete respeito. Um deles emergiu no tornozelo, o que me dificultava calçar a bota. Mas, como negligenciei durante algum tempo, ele inflamou e formou-se uma ferida completamente redonda, que ulcerou. Como se aproximava o dia em que, por Escala, entraria de Serviço, fui ao Médico da Unidade para atestar a situação e me poder isentar dele, porquanto, por razões regulamentares, estava impedido de fazer o serviço de sapatos. A sua reação foi estranha, chocante, até: “essa ferida não vai fechar mais. Tem que ir já para o Hospital Militar”. Entro em “parafuso”. E vejo-me, de repente, metido numa Ambulância Militar rumo ao Hospital Militar Regional nº 1, no Porto.

COM O FRANÇA, MEU CONTERRÂNEO,
QUE VIRIA A SER COLEGA, MAS NO BBI,
FALECIDO MUITO NOVO, DE ATAQUE CARIA



R.A.L. 5 HOJE OCUPADO PELA GNR













Tratamento à base de pomadas várias, mas “aquela treta” não cicatrizava mesmo. Passaram 15 dias e melhoras … nenhumas. Até que me aplicaram uma nova, milagrosa, de seu nome Halibut, e logo tudo se recompôs.

Minha imã tinha acabado de ser mãe e queria-me como padrinho da filha, Delfina Alexandra (Xana), nome já registado. E como, se eu me encontro internado? Não estando ainda curado mas já em vias disso, aproveitou-se então uma coincidência proveitosa: uma amiga e ex-vizinha de mocidade, de seu nome Fernanda Matos, a conhecida Teresinha do filme Aniki-Bóbó, primeira obra do grande Manoel de Oliveira, trabalhava, como Enfermeira, num Posto de Previdência onde também exercia funções clínicas o médico que acompanhava o meu problema no H.M., embora ele fosse civil. Falou-se-lhe na questão e ele logo resolveu: deu-me alta e entrei em regime de convalescença, em casa, por uns dias, onde continuei o tratamento, mas já estava praticamente curado.


Apresento-me de novo na Unidade e retomo as funções já previamente definidas. Meu último Natal antes do embarque e, para azar dos azares, calha-me, por escala, Serviço de 24 para 25 de dezembro. Não consegui troca com ninguém. Talvez se estivesse presente alguém das Ilhas Adjacentes tivesse conseguido esse desiderato … E a rotina manteve-se até à noite de 27 para 28 de fevereiro de 1969. Tendo acabado de Fazer a Ronda, inclusive ao paiol que ficava no exterior do Quartel, precisamente às 02:40 da madrugada, abaixo-me para me sentar na cama para descansar um pouco, fardado e calçado, obviamente, e começo a ouvir um silvo horripilante, provindo de debaixo da terra, a aumentar brutalmente de intensidade, parecendo milhões de comboios. Lembrei-me logo do filme A Rua de Delfim Verde, onde era tipificado um Tremor-de-Terra. Não cheguei a sentar-me, levantei-me de supetão. Fiquei calmo, para minha surpresa, quando tudo começou a estremecer. E, para meu espanto, dos camaradas que estavam a dormir, só um acordou. A população da cidade veio para a Rua, apavorada, algumas senhoras aos gritos. Conforme o silvo soou na aproximação, atingindo o seu clímax sob os nossos pés, foi exatamente o mesmo som no afastamento, mas agora baixando lentamente, até desaparecer.

Carlos Jorge Mota

quarta-feira, 21 de maio de 2014

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Passamos a postar os dois PE publicados pelo CM na semana passada. Esta duplicação deve-se ao maior número de convívios de militares realizados nestes meses do ano.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
16MAI2014

PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
17MAI2014

quinta-feira, 15 de maio de 2014

ENCONTRO 2014 C CAÇ 2505

=ENCONTROS C CAÇ 2505=
ENCONTRO C CAÇ 2505 EM POMBAL 2014

A manhã estava encoberta e quando estacionámos a viatura no parque do restaurante o Manjar do Marquês, a emissão de rádio que ouvíamos era interrompida, para dar o sinal horário das dez horas. O F Santos e eu próprio, fizemos uma excelente viagem Lisboa/Pombal, numa minúscula viatura.

Pouco a pouco começavam a estacionar outras viaturas transportando camaradas da nossa Companhia e a concentração tomava forma.

Já passava das 12H30 quando tirámos a “foto de família”, nas escadarias de acesso ao restaurante.

Antes do almoço e já com todos sentados à mesa, pronunciei algumas palavras recordando os 26 meses da comissão de serviço em terras de Angola, evocando o 45º aniversário do nosso embarque e apresentando as saudações amigas de camaradas que não puderam estar presentes. Por fim, pronunciando os nomes dos nossos camaradas de armas falecidos e em sua memória, seguiu-se um minuto de silêncio.

O almoço começou a ser servido e deu a degustar o bom serviço do Manjar do Marquês. De toda a ementa, de excelente qualidade, quero destacar nas entradas, a salada de polvo, os pasteis de bacalhau e o delicioso bolo comemorativo.

Entre o café e o bolo acompanhado de espumante, o “pessoal” começou a levantar-se e trocando de lugares, iniciavam conversas, recordando decerto, alguma coisa do presente, mas também, muita coisa do “longínquo passado”.

Com o avançar da tarde, começaram as despedidas e o regresso a casa. Eram quase 19H00, quando o Simões, Santos (Leça), F Santos e eu próprio, nos dirigimos para as viaturas e abandonamos o parque de estacionamento do Manjar do Marques.

Ficou mais esta despedida e até para o ano.

JM

A CONVOCATÓRIA


O DISCURSO
CARAS AMIGAS…AMIGOS

PASSADOS QUE FORAM 45 ANOS, PRECISAMENTE NO DIA 10 DE MAIO, NAVEGAVAMOS JÁ HÁ 2 DIAS EM ÁGUAS ATLANTICAS, A BORDO DO PAQUETE UIGE.

EM MUITOS DE NÓS PAIRAVA A INCERTEZA, ONDE IRIAMOS SER COLOCADOS APÓS O DESEMBARQUE. TINHA NOTÍCIA QUE UMA ZONA A EVITAR SERIA NAMBUANGONGO E O NORTE DE ANGOLA. JÁ EM LUANDA TIVEMOS CONHECIMENTO QUE O BATALHÃO FICARIA NO GRAFANIL PRESTANDO SERVIÇO À REDE/INTERVENÇÃO. FOI UM DESCARREGAR DE ANSIEDADE E RECEIO.

POIS, MAS DUAS OU TRÊS SEMANAS DEPOIS LÁ PARTIMOS PARA AS MATAS DOS DEMBOS NÃO MUITO LONGE DE NAMBUANGONGO, ONDE PARTICIPAMOS DURANTE 6 MESES NA OPERAÇÃO GRANDE SALTO.

NÃO ERAMOS MELHORES, NEM PIORES, MAS ERAMOS DIFERENTES E ESTAVAMOS MILITARMENTE BEM PREPARADOS EM COMPARAÇÃO COM OUTROS, FALTANDO SÓMENTE A EXPERIÊNCIA E O SABER DOS MAIS VELHOS.

NA APARENTE DESCONTRAÇÃO, NÃO CONFUNDIR COM “BALDA”, PARECIAMOS ESCOLHIDOS A DEDO, HIERAQUICAMENTE SEM MEDO, MAS COM RESPEITO COMPLEMENTAVAMO-NOS , NÃO ESQUECENDO QUE APESAR DE TUDO A SORTE TAMBÉM ESTEVE SEMPRE DO NOSSO LADO.

DEIXANDO PARA TRÁS ALGUMAS RECORDAÇÕES, QUE PENSO SERÃO AINDA PARA MAIS LOGO TEMA DE ALGUMAS CONVERSAS ENTRE NÓS, HOJE NÃO ESTAMOS TODOS AQUI, MAS OS QUE ESTÃO FAZEM LEMBRAR O SENTIMENTO QUE NA ADVERSIDADE PASSADA NASCEU ESTA CAMARADAGEM, MANTENDO-SE PRESENTE AINDA ESTE ESPÍRITO DE GRUPO.

AGRADECEMOS E CONGRATULAMO-NOS COM A PRESENÇA DOS OFICIAIS, SARGENTOS E PRAÇAS, FAMILIARES E AMIGOS EM MAIS ESTE ENCONTRO DA COMPANHIA DE CAÇADORES 2505.

QUERO TAMBÉM TRANSMITIR UM ABRAÇO AMIGO DOS CAMARADAS DE ARMAS QUE POR VÁRIOS MOTIVOS NÃO PODEM ESTAR PRESENTES: FERNANDO REIS – JOSÈ MOURA- FRANCISCO PEDRO-FREDERICO MALTEZ-JACINTO JORGE-ÁLVARO GONÇALVES-JOAQUIM SARZEDAS - ANGELO GABRIEL-ANTÓNIO CLARO-MANUEL MATEUS – FRANCISCO FRANQUINHO E ANTÓNIO ROSA

VOU TERMINAR PRONUNCIANDO O NOME DOS NOSSOS CAMARADAS FALECIDOS EM ANGOLA ASSIM COMO OS TAMBÉM JÁ FALECIDOS  DEPOIS DO NOSSO REGRESSO.

EM SUA MEMÒRIA VAMOS FAZER AGORA UM MINUTO DE SILÊNCIO

UM BOM ALMOÇO. UM BOM CONVÍVIO. OBRIGADO.

JM
AS FOTOS

A CONCENTRAÇÃO





















A FOTO DE FAMÍLIA


O CONVÍVIO











O BOLO

quarta-feira, 7 de maio de 2014

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Aqui damos de novo a conhecer outros convívios de militares, publicados no PE do último sábado no CM.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
03MAI2014

sábado, 3 de maio de 2014

FALECIMENTOS NA COMPANHIA

-NOTÍCIA-

Acabámos de ter conhecimento que o José Moço Coelho nos deixou aos 63 anos. O seu falecimento já ocorreu há dois anos provocado por um súbito ataque cardíaco, mas esta triste notícia só agora nos chegou. O José Moço Coelho, era soldado atirador e pertencia ao quarto grupo de combate da nossa companhia. Participou em alguns dos nossos encontros anuais, sendo o último em Torres Vedras decorria o ano de 2005.
Deixamos, aqui, o nosso profundo pesar a toda a família e amigos pela sua precoce partida. Para todos que com ele mais conviveram ficará sempre uma profunda saudade. Que descanse em paz.
JM