quinta-feira, 29 de maio de 2014

XXIX - MISSA...EM ZONA DE GUERRA

-FARDA OU FARDO?-
Percurso feito com alguma precaução, velocidade lenta pois a picada tinha muitos buracos e formato irregular, e, finalmente, decorridas umas três a quatro horas, chegámos ao local onde bivacámos. Como se previa um período de permanência de, pelo menos, uns quinze dias, após montagem da respetiva segurança, tomaram-se as providências para que instalações com um mínimo de condições se assegurassem, nomeadamente a armação de tendas cónicas, triangulares e retangulares, para acomodação do pessoal, de Géneros Alimentares – incluindo Rações de Combate -, Transmissões, Enfermagem e os demais serviços. Um pouco afastado, mas dentro do perímetro de vigilância permanente, abriram-se latrinas onde se colocaram tábuas para serventia simultânea.
TERRENO COM INCLINAÇÃO E DE VEGETAÇÃO RAREADA
Entretanto, como se aproximava a data que perfaria 30 dias da morte de meu pai, pelos canais próprios de transmissões, solicitei autorização para contacto com o Capelão do Batalhão, Padre Serra, graduado em Alferes (vive atualmente nos Açores, segundo fui informado), e que se encontrava com o pessoal da CCS, noutro local. Perguntei-lhe se se disponibilizaria para vir à Companhia 2506 e dizer uma Missa em 14 de setembro, isto é, 30 dias após o falecimento de meu pai - 16 de agosto, esse mês tem 31 dias e o dia da morte já conta para este efeito. “Claro que vou, pá, é só combinarmos como!”. Daí a uns dias, eu teria que me deslocar em coluna para fazer um reabastecimento no Quartel de Cangumbe, que, antes da Operação, havia sido instruído para aumentar o  seu Nível de Abastecimento (os denominados Níveis e Avanços) pois seria a partir de si que o nosso Batalhão se forneceria. Ele deslocou-se a esse quartel num reabastecimento da CCS, ficou lá um dia, e eu trouxe-o na minha coluna de reabastecimento, que teve lugar no dia seguinte. Aproveitei para me encontrar com o “Tatarelho”, mas, por mera coincidência, ele tinha saído também para Operações. Gorado o contacto, portanto.

Dirigi-me à loja dum Cantineiro (indivíduo que vive no Mato vendendo topo o tipo de artigos - como antigamente se procedia nas nossas aldeias -, principalmente aos indígenas, mas não só) para comprar uns artigos que Camaradas me tinham solicitado. Entro na loja e ele, que estava a falar em português com um nativo, imediatamente começa a falar no dialeto, que dominava bem. Percebi logo que estava a “enrolar” o homem e, óbvio, não queria que eu entendesse … Era essa a maneira de “negociar”, muitas vezes recebendo o pagamento em géneros cujo valor … era ele que avaliava!...

O Padre Serra ficou uns dias connosco, até porque o ministério sacerdotal é genérico e universal, portanto, não só confinado à sua CCS. Montou-se um “altar” improvisado com a tampa do motor duma Berliet, assente em estacas de madeira, e, na sua retaguarda, simulando o fundo da “capela”, tudo por ele idealizado, colocaram-se cordas presas ao chão que convergiam na parte superior para um só prego numa árvore. Ficou  com um aspeto digno de registo para a posteridade. Tirei fotografia mas … revelei depois em slide, que, com o decorrer do tempo, já se deteriorou. Houve pessoal que aproveitou para assistir a essa missa, independentemente da razão da sua origem. Apesar de eu não ser pessoalmente um Ser muito crente, nestes momentos em que estão em causa entes queridos, a obrigatória tradição tem muito peso.

No reabastecimento imediatamente seguinte, ele fez comigo o trajeto inverso e regressou à CCS. Homem generoso, bom e corajoso. Posteriormente, já no Leste, deslocando-se do Lucusse para o Luso, a viatura em que seguia, quase no fim da coluna, acionou uma Mina Anti-Carro cujo dispositivo de percussão era ministrado por roda dentada, o que significa que só rebenta quando ela atinge o ponto predefinido. Felizmente, e porque muitos sacos de areia eram sempre bem acondicionados, só houve danos materiais e umas escoriações ligeiras no pessoal que se fazia transportar nessa Berliet. Para além duma surdez temporária …

No fim do regresso, ao local de bivaque, desse reabastecimento que fiz ao Quartel de Cangumbe, vi-me envolvido numa situação inusitada com consequências tremendamente … anómalas, direi mesmo, aberrantes.

Carlos Jorge Mota

terça-feira, 27 de maio de 2014

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Voltamos a postar dois novos PE, publicados no CM da passada sexta feira  dia 23 e de sábado dia 24.     
JM  
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
23MAI2014

PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
24MAI2014

segunda-feira, 26 de maio de 2014

VI - EM LUANDA. ATÉ QUANDO?

-FARDA OU FARDO?
Luanda estava cercada por uma Rede de Arame Farpado, interrompida, apenas, nas três estradas que dela irrompiam: Estrada do Cacuaco (rumo ao Distrito do Zaire ou Congo e também ao Distrito de Uíge, na sua parte noroeste), Estrada de Catete (para o planalto central e para toda a restante zona angolana, tomando as respetivas vias nos locais apropriados com as suas várias derivações) e a Estrada da Barra do Quanza, rio junto do qual terminava, pois, na altura, ainda não existia a atual ponte que permite agora todo o tráfego para sul, nomeadamente o da zona costeira. Pouquíssimas pessoas civis saberiam da existência dessa Rede, dado que não era visível das estradas -  o mato a encobria. Ela, sob o ponto de vista militar, tinha a dupla função de impossibilitar a penetração na cidade de indocumentados – nos postos colocados na via, por vezes, e duma forma aleatória, as viaturas eram mandadas parar para efeito de controlo – e também de dissuadir eventuais ações de guerrilha urbana dado que a subsequente retirada para o Mato se tornaria muitíssimo dificultosa. Para nós, recém-chegados, ainda branquinhos, era uma tarefa sem risco, apenas cansativa pois o serviço era feito 24 horas ininterruptas, com alternância das Companhias do Batalhão nesta missão e na de patrulhamento. O perímetro de arame-farpado continha Postos de Vigia e uma picada por onde se deslocavam as viaturas, quer para transporte do pessoal quer para ronda. Logo no primeiro mês, uma Berliet que se deslocava para o posto na Estrada da Barra do Quanza, ao contornar uma rotunda, o seu condutor descontrolou-se e houve pessoal cuspido, do que resultaram vários feridos alguns dos quais bastante graves e cuja evacuação para Lisboa houve necessidade de fazer e que não regressaram mais.

Luanda, portanto, sempre à vista. Finda a ação rotineira diária no Campo do Grafanil, com exceção dos dias de Serviço à Companhia, apanhávamos a Camioneta Militar para o centro da cidade e eu dirigia-me de imediato para a casa do “Tio Tono” com cuja família, aos fins-de-semana, acompanhado do sobrinho meu amigo e camarada Fontes, íamos amiúde fazer uns piqueniques para matagais próximos à praia.

PIQUENIQUE




HELENA,ZÉ ANTÓNIO E MANEL
FAMÍLIA VASCONCELOS


























Como, durante a minha infância, a família Vasconcelos, com cujos filhos Zé António e Manel eu brincava – curioso que esta família morava na casa que foi posteriormente ocupada pela família da que viria a ser minha namorada e mulher –, foi para Angola, eu tive o cuidado de ir munido do seu endereço em Luanda. Moravam na Rua António Enes, nas Barrocas, para os lados de Miramar. Fui procurá-los e voltámos a reencontrar-nos passados tantos anos. Foi emocionante, pena que fosse naquelas circunstâncias, mas houve oportunidade para alguns convívios.

Entretanto, no mês de junho, veio para Luanda, em férias, e encontrava-se a meio da sua Comissão, o meu amigo e irmão dum meu cunhado, Zé Albertino. Como eu tinha levado um Gravador Telefunken, grande, mas portátil, tinha uma pega, resolvemos encontrar-nos na pensão onde ele se hospedou, junto ao Largo de Serpa Pinto. Fizemos uma gravação de mensagem, a dele separada da minha, e eu enviei a bobine para as nossas famílias que, posteriormente, gravaram também as suas e ma devolveram. Hoje, passados mais de 40 anos, e o Zé Albertino já não está entre nós, consegui transformar essas gravações, separando as duas, e digitalizá-las. Entreguei uma cópia em CD aos seus dois filhos e ao meu cunhado, seu irmão. Para os da minha família, entreguei cópia a cada uma das minhas irmãs e aos dois filhos do meu falecido irmão. É emocionante ouvir hoje aquelas vozes, num total de cerca de 20 pessoas, metade das quais já faleceram. Fica a recordação.

E a rotina diária era quotidianamente retomada. Parecia até que não tinha ido para a Guerra. Mas, eis que chega a notícia do fim desta etapa. E nova aventura irá ser iniciada

Carlos Jorge Mota

V - A NOVA REALIDADE, FINALMENTE

-FARDA OU FARDO?-
Diversas viaturas militares da Companhia de Transportes estacionadas no cais e nas suas imediações. Subida para elas dum modo receoso ainda, muitos pretos por perto e aparentemente todos iguais – sensação generalizada mas rapidamente considerada absurda -, passagem pela baixa da cidade rumo ao Campo Militar do Grafanil, na Estrada de Catete, em cuja entrada, à laia de aviso “à navegação”, se encontrava em destaque, e deliberadamente muito bem visível em cima de um palanque em cimento, um Jeep acidentado, todo amassado, fruto de choque frontal e capotagem. Fomos colocados provisoriamente em bancadas de cimento-armado, com dormida no chão duro, sem qualquer resguardo. Era o modo usual para tropas em transição do navio para o Mato e vice-versa. A bagagem de porão, muito pouca, chegaria umas horas depois e colocada dum modo amontoado perto de nós. O meu amigo Fontes queria que eu fosse dormir a casa do seu tio, onde ele já vivia dum modo “civilizado” (era militar, como eu), mas receei que pudesse haver problemas, até porque teria que enquadrar o pessoal.
CAMPO MILITAR DO GRAFANIL
Na noite imediata, e já devida e superiormente autorizado, tive o privilégio de me aboletar em casa do “Tio” Tono, na Avenida Brasil, próximo da Vila Alice – homem generoso e muito prestimoso, a quem muito fiquei a dever na vida, recentemente falecido em Celorico de Basto. Não soube atempadamente da sua morte razão por que não estive presente no seu funeral, o que muito lastimo. Com exceção de quando se encontravam de serviço à Unidade, os Graduados tinham permissão de pernoitar fora do Quartel do Grafanil, havendo uma viatura que fazia a recolha domiciliária diariamente logo pela manhã cedo, até porque as instalações, mesmo após a mudança para as outras definitivas, decorrente das tarefas de que iríamos ficar incumbidos, continuavam a ser precárias.

Apresentação do Batalhão, pelo seu Comandante, ao General-Comandante da Região Militar de Angola







E a missão vai começar.

Carlos Jorge Mota

sábado, 24 de maio de 2014

IV - UÍGE, NOSSO HOTEL FLUTUANTE DURANTE 13 DIAS

-FARDA OU FARDO?-
Uma vez embarcados tivemos logo que considerar a nova hora pois o relógio de bordo regula-se pelo tempo do fuso-horário em que o navio está posicionado, que não era coincidente com a nossa Hora de Verão. Dentro eram 11 horas, no cais era meio-dia. E isso é importante em virtude do Almoço cuja primeira mesa estava marcada para o meio-dia (hora de bordo) e a segunda para a uma da tarde – duas fases de refeições, situação normal mesmo em viagem civil, pela dimensão dos Restaurantes … só destinados a Graduados porque o Zé-Soldado, esse, será sempre o eterno sacrificado. Face ao elevado número de Praças as suas refeições eram distribuídas em marmita.

O navio começa a descer lentamente o Tejo, passa sob a Ponte, então Salazar, e pára junto ao Bugio para saída do Piloto da Barra. A Lancha dá um apito, tradição naval de desejo de Boa-Viagem a que o Uíge responde com dois estridentes roncos, à laia de agradecimento. E … lá vamos nós, afastando-nos da costa, até que surge só céu e água. Procuramos distrair-nos, das mais diversas formas: uns, bebendo, bebendo, bebendo, bebendo; outros, jogando cartas, dominó ou xadrez; outros, segurando uma revista ou um livro, mas nada lendo; outros ainda, tentando entabular conversa, divagando apenas … e … navegando, navegando, Atlântico abaixo. Vida rotineira a bordo, mas com um interesse diário de saber a posição do navio, através de bandeirinhas colocadas sobre um mapa, e preocupação de saber a hora respetiva para controlo das refeições. Passámos ao largo da Madeira, das Canárias, de Cabo Verde. Entretanto, são dadas instruções pelo Comandante de Bandeira, Oficial da nossa Armada, para exercícios de marcação de baleeiras e colocação dos Coletes de Salvação, para eventual emergência. Alguma confusão da primeira vez, mas à segunda saiu tudo direitinho.

O AUTOR, O SÉRGIO, O RODRIGUES E O ANTUNES

Navegando ao largo da Guiné, aí durante uns dois dias, sentia-se um ar irrespirável, pelo elevadíssimo grau de Humidade Relativa. Um calor infernal e o corpo suando dum modo que ficava pegajoso. Ao entrarmos no Golfo da Guiné começamos a ouvir, em onda média, emissores de Rádios do Brasil, talvez da Paraíba ou Pernambuco. No 9º dia de viagem, o navio parou durante umas 4 a 5 horas. O que foi? O que sucedeu? Pergunta generalizada. Houve um problema nos motores, entretanto resolvido. No dia seguinte, o 2º Comandante do Batalhão, Major Nuno Alexandre Lousada, detentor do Curso de Estado-Maior, já com várias Comissões cumpridas, uma das quais na Índia (foi um dos signatários dos Acordos de Lusaca com a Frelimo, em nome do MFA, para o cessar-fogo e a posterior Independência de Moçambique), homem culto, afável e muito educado, reúne os Graduados no convés e diz-nos: “Meus senhores: estamos prestes a chegar ao destino. Não sabemos ainda onde nos colocarão. Todavia, iremos passar por situações muito complicadas, onde quer que nos encontremos. Um Comandante, seja qual for o seu nível de comando, mesmo que esteja a borrar-se de medo, não pode de forma alguma transparecê-lo para os seus homens. Tem que aguentar firme o momento e ter a necessária adrenalina para o suster. De contrário, não será um Comandante, mas um simples elemento fardado com algo em cima dos ombros. Já passei por essas situações de medo e sei do que falo”. Sabíamos que íamos para a Guerra, mas aí começamos a tomar mais consciência que a hora se aproximava. Passámos ao largo de São Tomé e ao 13º dia, 21 de maio de 1969, já de noite, o Uíge atraca no Porto de Luanda, onde tinha à minha espera, no cais, fardado, o meu amigo de infância Francisco Fontes. Quem passou por Angola, integrado em Batalhão ou Companhia Independente, entre 1968 e 1970, com toda a certeza que o conhece, talvez tenha até falado com ele, pois estava colocado no Posto do S.P.M. (Serviço Postal Militar) no Campo Militar do Grafanil, por onde transitavam todas as tropas antes de tomarem o seu destino, e primeiro ponto de deslocação de todo o militar a fim de depositar mais rapidamente a sua primeira Carta, ou Aerograma, para a família, namorada ou amigos, na Metrópole.

Efervescência a bordo, na ânsia de sabermos qual o local de Angola onde seríamos colocados de imediato. Chega a notícia, não sei por que via: Serviço à Rede de Luanda e também de Reserva às ordens do QG (Quartel-General).

Nota: Quando um navio mercante é fretado para transporte de tropas, obrigatoriamente terá a bordo um Oficial da Marinha de Guerra com a função de Comandante de Bandeira sob cujas ordens o efetivo Comandante do Navio se encontra. 

Carlos Jorge Mota

III - DESPEDIDA DE SANTA MARGARIDA

-FARDA OU FARDO?-
Dia 7 de maio, véspera da data do embarque, todo o Batalhão, com as suas quatro Companhias, é colocado em Parada junto à Capela do Campo Militar.

CAPELA
Aí, após a tradicional missa campal celebrada pelo Capelão Militar integrado na CCS, o Comandante de Batalhão, então Tenente-Coronel, António de Almeida Gonçalves Soares, faz a seguinte alocução (o rascunho do discurso tem data anterior, data essa em que terá sido elaborado):

(Documento que me foi por ele remetido pelo Correio em 2011, bem como outros - um dos quais abordarei em momento mais adequado -, na sequência duma conversa havida entre nós durante uma Confraternização de Graduados naquele ano, que começou pela minha curiosidade de querer saber as razões da Divisa do Batalhão. Exibo sua carta de outubro de 2011. Fui por ele autorizado, em telefonema que lhe efetuei há uns dias atrás, a publicar estes elementos)


Alocução cujo conteúdo só é entendível se contextualizado na época



Nesse dia, à noitinha, embarcámos em Comboio Especial na Estação de Santa Margarida, Ramal do Tramagal que liga à Linha da Beira Baixa, em viagem noturna, com destino à Estação de Alcântara-Mar, passando pelo Entroncamento, Braço de Prata e Campolide, descendo depois para o Rio Tejo, com paragem prévia em Alcântara-Terra, para controlo do trânsito viário, pois a linha atravessa a Rua nessa zona e entra no Cais. Daí, saímos e fomos em coluna apeada até ao navio Uíge, que nos aguardava no Cais da Rocha do Conde de Óbidos.

UÍGE
Abraços, despedidas emocionadas. Eu não quis lá ninguém da família, mas apareceu o meu cunhado Amorim (já falecido) que residia com minha irmã em casa dos meus pais. A Banda do Exército toca marchas militares, não só por exaltação do momento mas também para abafar os gritos de desespero das pessoas no cais. Muita confusão no seio dos civis, a atropelarem-se uns aos outros na ânsia de tocar pela última vez no seu ente querido.

Carlos Jorge Mota

sexta-feira, 23 de maio de 2014

II - JUNÇÃO AO BATALHÃO

-FARDA OU FARDO?-
Em meados de março recebo Guia de Marcha para a minha Unidade Mobilizadora – Regimento de Infantaria 2, em Abrantes. Apresento-me ao Oficial-de-Dia, que me encaminha para a Secretaria. Recebo de imediato Nova Guia de Marcha para me apresentar no dia seguinte no CIM (Campo de Instrução Militar) de Santa Margarida, próximo do Tramagal – localidade onde eram montadas as Berliets militares – para me reunir à minha nova família militar: Companhia de Caçadores 2506 do Batalhão de Caçadores 2872, cujo lema é CONQUISTANDO OS CORAÇÕES SE VENCE A LUTA. Apresento-me ao Capitão Santana, que me ordena para me dirigir à Secretaria da Companhia, onde vou encontrar o que viria a ser um grande amigo, lº Sargento Vilares, que atingiu a patente de Capitão, provindo de Soldado, tal a sua capacidade intrínseca, demonstrada pelos livros que já publicou, quer em prosa quer, e principalmente, em verso poético, de caráter genérico e épico. Sou apresentado também a todos os restantes Graduados e às Praças cujas caras e nomes me iriam ser tão familiares durante quase 26 meses.

C I M DE SANTA MARGARIDA
MORGADO, CARDOSO-2505, MINEIRO,
AUTOR, GLÓRIA E JOÃO SILVA












Nova situação, nova vida. Necessários ajustamentos. Santa Margarida, para além de outros poucos locais no país, era o Campo Militar por excelência onde se fazia o denominado I.A.O. – Instrução e Aperfeiçoamento Operacional –, atendendo às caraterísticas do terreno, que era (é) propício à criação duma ambiência similar ao teatro de operações que iríamos enfrentar em África. Seis semanas consecutivas de treino intensivo, intervaladas apenas com alguns fins-de-semana, que eram aproveitados para descanso e visita à família e namorada. Rotina desgastante. Mas eis que chega a informação da data do embarque: 8 de maio, no navio Uíge. Tensão aumentando gradualmente, face à despedida inevitável. A minha namorada é informada e todos os meus familiares também, com exceção do meu pai. No último fim-de-semana regresso a Santa Margarida, despedindo-me dele com um beijo, aparentemente normal, e um “até sábado!”. Foram muito difíceis aqueles momentos, para todos nós que sabíamos. Mas … tinha que ser.

Apanho o comboio em Campanhã, passo a velhinha Ponte D. Maria, olho para a minha linda cidade, que vista de Vila Nova de Gaia ainda é mais encantadora, e questiono-me: “será que vou voltar a ver o Porto?”. Muita tropa no comboio, de regresso aos quartéis, como era normal naquela época, no fim do fim-de-semana. Porém, talvez só eu me encontrasse naquela situação especial … que tinha que controlar.

Carlos Jorge Mota