sexta-feira, 6 de junho de 2014

XXXIV - CORNETEIRO DESAFINADO... OU DESENFIADO?

-FARDA OU FARDO?-
Em pleno mês de fevereiro de 1971, encontrando-me eu de férias, vejo o Capitão Santana parar o “seu” jipe à porta da “minha” casa. Entrou, cumprimentou e disse-me: “Mota, preciso de um favor seu”. “É de caráter militar ou particular?, perguntei. “Se for militar, atenção que eu estou de férias; se for particular, faça o favor de dizer do que se trata!” digo eu. “É um misto das duas coisas”, retorquiu logo. “Você sabe que o Silva (Cabo Corneteiro) se perdeu de amores com uma mulatinha e eu sei onde ele está, fui informado. Está lá para a Lunda mas eu tenho a indicação do local exato. Vamos buscá-lo antes que passe o tempo de o gajo ser considerado desertor. Estamos já quase no fim da Comissão e eu não quero ver um homem meu com a sua vida estragada por causa dum caso destes”.

Dia seguinte, estou de camuflado vestido e de G-3 na mão, e, à hora marcada, o Capitão Santana pára o jipe. Vem acompanhado de outro Santana, mas do Pires Santana, Alferes do Recrutamento Local, que veio substituir um outro que, tendo vindo de férias à então Metrópole, deu baixa ao Hospital Militar da Estrela, em Lisboa, e não mais regressou ao nosso seio.

A estrada para o Distrito da Lunda (agora há duas Lundas, foi feita divisão), cuja capital é Henrique de Carvalho (denominada atualmente Saurimo), é alcatroada, mas entre o Luso e a localidade do Buçaco era uma área de forte ação inimiga razão por que, entre aqueles dois locais, obrigatoriamente toda a viatura civil tinha que fazer o trajeto em coluna devidamente escoltada por militares.

Esperámos pela sua formação e o Capitão Santana falou com o Comandante da Escolta, um Furriel, e transmitiu-lhe que o jipe se iria incorporar na coluna mas que viajávamos por nossa conta e risco.
ESTRADA LUSO/HENRIQUE DE CARVALHO
BUÇACO-COINCIDÊNCIA,NOME DA RUA DA
CASA DOS MEUS PAIS












Chegados a Dala, pernoitámos no quartel de lá depois do Cap. Santana ter falado ao Oficial-de-Dia à Unidade. O Capitão teve aposento melhorado, pois eu e o Pires Santana deitámo-nos numa arrecadação e dormimos no saco-cama que levávamos, numa completa escuridão, e com a arma ao lado. De noite, sou acordado com uma voz a gritar, ao meu lado: “eles aí vêm, eles aí vêm!” Apuro o ouvido e nada de anormal ouço. Acordo-o então com uma cotovelada, pois o Pires Santana estava a sonhar alto …

Já que ali estávamos, disse ao Capitão Santana: “meu Capitão, por que não vamos ver as famosas Quedas do Dala? É uma oportunidade única!”. “Vamos lá, pá!”, disse logo.











Fomos ao quimbo (musseque) que o Capitão tinha referenciado, não encontrámos o Silva, porque ele tinha saído de momento. Deixámos recado … e ele apareceu na BTR ao terceiro dia. Levou um raspanete e ficou com um castigo leve, sem registo escrito. Agradeceu a nossa atenção dum modo que me emocionou.                   

Nota: “Desenfiado”, em gíria militar, significa “ausente sem autorização”.

Carlos Jorge Mota

quinta-feira, 5 de junho de 2014

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Com um pequeno atraso, voltamos a postar os PE publicados no CM, na sexta-feira e sábado da passada semana.

O PE do dia 31 de Maio tem para a nossa Companhia uma particular curiosidade, pelo facto de anunciar encontros de militares que incorporaram batalhões bem nossos conhecidos.

Refiro-me ao Batalhão de Cavalaria 2889 o "ÁS de Espadas" e o Batalhão de Caçadores 2873. Ambos foram contemporâneos do Batalhão de Caçadores 2872, o "Pop", em Angola nos anos de 1969 a 1971. O "Ás de Espadas" esteve em Cangamba e Catete. Por sua vez o Batalhão 2873, esteve em Aldeia, Zala, Dembos e passando também pelo leste terminou a comissão no Cacuaco.

Tive a oportunidade e o prazer de falar com um dos organizadores do Bat 2873, o Firmino Antunes (Canina), combatente da Companhia de Caçadores 2507 e com o qual recordando locais mantive uma conversa muito interessante.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
30MAI2014

PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
31MAI2014

quarta-feira, 4 de junho de 2014

XXXIII - NOTÍCIA ARRASADORA

-FARDA OU FARDO?-
O nosso 1º Grupo de Combate, comandado pelo Madureira, foi destacado para uma permanência alongada na Vila de Teixeira de Sousa, junto à fronteira com o Zaire, e términus, em território angolano, da linha-férrea do CFB – Caminho de Ferro de Benguela.

No dia 31 de outubro de 1970, portanto, a pouco mais de seis meses da data do fim da Comissão, recebemos, na Companhia, uma notícia arrasadora: um Soldado nosso tinha morrido. “Quem é?”, pergunta generalizada. “É o Coradinho!”, correu célere a triste e abaladora informação.  Não resistiu à pressão acumulada, foi logo posto a circular. Foi um choque terrível em todos os Camaradas.
O CORADINHO, NO LUENGUE
De seu nome Joaquim dos Santos Jesus Rodrigues, do Bombarral, em cujo Cemitério jaz, homem calado, disciplinado e de uma educação invulgar, muito afável no trato. Inúmeras vezes pronunciei, em voz alta, a sua verdadeira “graça”, na distribuição do Correio, em formatura.

A população da Vila de Teixeira de Sousa apareceu em massa no seu funeral local, em sua homenagem. Posteriormente o corpo seguiu o seu destino para Luanda rumo à terra que o viu nascer. Repousa em paz, Grande Camarada! Foi e é o desejo dos que contigo conviveram!
TEIXEIRA DE SOUSA, AGORA DENOMINADA LUAU
Chegados os seus pertences à BTR, sede improvisada da Companhia, houve necessidade de elaborar o respetivo Auto a fim de o seu espólio ser remetido para a família. Tarefa objeto de muita reflexão e de muita apreensão, pois nenhum de nós consegue avaliar, à partida, o seu limite de resistência física e, principalmente, psicológica.

Todos ficámos muito combalidos pela partida do nosso Companheiro desta Viagem de Juventude … mas a Guerra, a nossa Guerra, tinha que continuar porque, para o dia 8 de maio de 1971, ainda faltavam 189 dias …

Carlos Jorge Mota

terça-feira, 3 de junho de 2014

XXXII - QUOTIDIANO NO LUSO

-FARDA OU FARDO?-
Na BTR a vida quotidiana da Companhia era de mera rotina dum Aquartelamento e de lá saía um Grupo de Combate para a localidade de Sacassanje, que se revezava diariamente, a fim de dar proteção às obras em curso, consubstanciada naquilo que, em linguagem militar, se define como de Segurança Imediata e de Segurança Próxima, isto é, posicionamento, respetivamente, junto aos civis da Tecnil (Empresa Adjudicatária) e na mata envolvente.


Às outras Companhias, sediadas nos pontos já citados, era-lhes atribuída idêntica missão, acrescida de, através de um ou mais Grupos de Combate, entrar em Operações, nomeadamente na zona do Rio Lungué-Bungo, onde existia um Destacamento de Fuzileiros Navais, e fazer escoltas a MVL’s destinados à Vila de Gago Coutinho, que envolviam alguma perigosidade face às frequentes minas colocadas pelo IN na picada.

Findo o serviço diário e dos dias de alternância na mata vínhamos para a casa alugada e matávamos o tempo a ler, ouvir música e a conversar, mas antes disso passávamos pela Pastelaria Cristália, ex-libris do Luso, cujos donos eram provenientes do Porto, de Campanhã, onde lanchávamos e fazíamos novas amizades com camaradas doutras Unidades. Aí conheci o Cândido Rodrigues, de Viana do Castelo, que posteriormente se licenciou, penso que em Direito, e o Fernandinho e o Jorge, ambos do Porto, colocados no Comando da ZIL, e que, para o regresso a Luanda, o primeiro me foi muito útil. Finda a Comissão de todos (eles tinham um ano a menos do que eu em Angola) encontrávamo-nos amiúde na nossa cidade. Inclusive o Jorge casou com uma moça minha conhecida, mas, infelizmente, ficou viúvo muito novo.

O Clube Ferrovia era também local de presença assídua, nomeadamente para as festas que organizavam e cuja entrada nos facilitavam, apesar de não sermos sócios, mas obrigatoriamente trajando à civil. E o Cinema Luena era local obrigatório de permanência, onde exibia filmes de bastante interesse para a época.

LINDO JARDIM NO CENTRO DA CIDADE


CLUBE FERROVIA











Também na Pastelaria Cristália conheci dois Alferes Milicianos, o Diogo e o Martins (este de Espinho), Comandantes de dois Pelotões de Artilharia Anti-Aérea, recém-chegados da Metrópole e cuja viagem tinha sido atribulada. Quando navegavam já no Golfo da Guiné, receberam ordem para um dos Pelotões rumar a São Tomé. A Guerra do Biafra estava no seu auge e temia-se que a Nigéria bombardeasse com aviação aquele arquipélago, pois havia pilotos portugueses (talvez não oficialmente) a auxiliar os secessionistas. Situação insólita se deparou ao Comandante do Pelotão destacado, não me lembro já se foi o Camarada Diogo ou o Martins, pois durante todo o tempo de permanência lá não receberam um tostão de pagamento do soldo e todo o pessoal não tinha dinheiro para comprar rigorosamente nada. Andou a assinar vales pelos estabelecimentos civis, que seriam resgatados posteriormente.

Carlos Jorge Mota

segunda-feira, 2 de junho de 2014

XXXI - MOXICO, DESTINO FINAL

-FARDA OU FARDO?-
Finda a Operação, regressámos à Estação de Cangumbe, para onde convergiram todas as Companhias do Batalhão. Novo Comboio Especial nos esperava para nos transportar para a Estação do Luso, cidade hoje denominada de Luena – nome do Rio muito próximo, afluente, pela margem direita, ainda em Angola, no Cazombo, do grande Rio Zambeze, que atravessa vários países, inclusive Moçambique –, capital do Distrito do Moxico, nosso destino final. Aproveito para procurar de novo o “Tatarelho” mas, mais uma vez, estava ausente … tinha ido a Silva Porto, a uma Consulta Médica. Nunca mais o encontrei … até aos dias de hoje. Não sei se ainda é vivo. Espero que sim.

A MESMA ESTAÇÃO NA ACTUALIDADE




ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DO LUSO














Chegados finalmente à Estação do Luso ficamos a saber que a nossa missão consistiria em dar proteção à construção duma estrada - com introdução de melhoramentos da picada já existente, nomeadamente o seu alargamento e corte de algumas curvas, para posterior alcatroamento - que liga o Luso a Vila de Gago Coutinho, localidade já muito próxima da fronteira da Zâmbia, a uns bons quilómetros abaixo do conhecidíssimo Quadrado do Cazombo, como era (ainda é) designado o território angolano que penetra no da Zâmbia, em termos geográficos. Distribuição das Companhias? É-nos dito que, para compensar o nosso isolamento nas Terras-do-Fim-do-Mundo durante quase um ano, a Companhia 2506, a minha Companhia, ficaria instalada dentro da BTR, Bataria de Artilharia de Campanha, nas imediações da cidade do Luso. As outras – CCS, 2504 e 2505 – iriam ser distribuídas ao longo dessa estrada, perigosamente conhecida pelas suas minas e emboscadas constantes, área cuja guerrilha atuante era a da UNITA e do MPLA, que se guerreavam mutuamente. As Companhias do Batalhão instalariam bases fixas, a 2505 no Canaje e a CCS, juntamente com a 2504, mais a sul, no Lucusse, e as suas tropas deslocar-se-iam na tarefa predeterminada, acompanhando as obras à medida que estas progredissem na quilometragem.
ESTRADA A MELHORAR E A PROTEGER

CIDADE DO LUSO TOTALMENTE PLANA











Avançaram para a Estrada, rumo ao seu destino, e nós dirigimo-nos para a BTR em cujas instalações só havia lugar para as Praças. Como a distância ao Luso é de pouquíssimos quilómetros, os Graduados, não estando de serviço, teriam que dormir fora desse Quartel, pelo que houve necessidade de providenciar por alojamento. Havia um Hotel destinado a Oficiais, mas quase sempre lotado, pelo que os restantes Graduados e os que lá não conseguiram lugar procuraram alugar uma casa. Foi o que fiz, conjuntamente com outros, portanto, em grupo. O edifício ficava situado mesmo ao lado do do Comando da ZIL – Zona de Intervenção Leste – cujo Comandante era o então Brigadeiro Bettencourt Rodrigues, que, posteriormente, em 1973, já com o Posto de General, substituiu o General Spínola no CTI Guiné. Curiosamente, os quartos estavam colocados contiguamente ao Posto de Transmissões do Comando, apenas separados por uma parede, pelo que ouvíamos permanentemente os “cânticos” dos Operadores no som monótono de mensagens … até nos habituarmos a ele e já não nos incomodar.

IGREJA


LUSO HOTEL













Ironia do destino: na área do Lucusse, onde a UNITA fez várias emboscadas a pessoal nosso e colocou minas, foi precisamente o local onde Jonas Malheiro Savimbi haveria de ser abatido em 22.02.2002 pelas FAPLA (Forças Armadas Angolanas após a Independência). É no Cemitério do Luso (agora Luena) que ele se encontra sepultado.

Carlos Jorge Mota

sábado, 31 de maio de 2014

XXX - BOFETADA... EM PLENA MATA

-FARDA OU FARDO?-
Almoçados no Quartel de Cangumbe, com carregamento de víveres e mais munições já efetuado, eis-nos de novo na picada de retorno ao aquartelamento em bivaque, logo, temporário. Dispositivo devidamente adequado para vencer os 180 quilómetros, de intenso stress perante uma eventual emboscada a todo momento.

CONTRATEMPO POR VIATURA ATASCADA
Chegámos ao destino já noite cerrada - pois em África escurece muito cedo -, após umas seis horas de viagem, com várias paragens pelo meio, pois algumas viaturas atascaram naquele terreno lodoso face à chuva caída.

Cansados, pela viagem, pelo esforço despendido nas ações de desatascamento e pelo próprio stress, a nossa vontade premente era ir jantar e descansar. O Capitão Santana manda-me chamar e diz-me: “Mota, é preciso descarregar já as viaturas porque elas vão ser precisas às 5 horas da manhã para saída em Operações!”. Dirijo-me ao pessoal, ainda aguardando ordem de destroçar, e transmito a necessidade de momento. Todos imediatamente deram início ao descarregamento das Berliets, transportando o seu conteúdo para o local respetivo, consoante o tipo de material em causa. Mas … há sempre um mas em tudo. Um deles, Soldado com especialidade específica, talvez por entender que só aos Atiradores incumbia essa tarefa, disse que estava cansado e com fome e que iria comer alguma coisa e descansar. Disse-lhe que não podia de modo algum abandonar o local sem a tarefa terminada e que todos nós nos encontrávamos em igual situação e que todos pretendíamos o mesmo desejado descanso. Mas havia aquela incumbência prioritária. Desobedecendo às minhas ordens, virou costas e foi para a sua tenda … enquanto os camaradas cumpriam o estabelecido. Fui no seu encalço, procurando sensibilizá-lo para o que estava em causa e despertá-lo para a realidade. Estava eu agora a fazer instintivamente um balanceamento perante uma insustentável atitude, sob o ponto de vista militar, e uma compreensível causa humana. Fui treinado para obedecer e fazer-me obedecer, pois ordens são ordens. É essa a essência da disciplina militar sem a qual não há Exército. Entrei na tenda com a minha G-3 em bandoleira e ele já havia pousado a sua. Qual é o meu espanto quando o vejo “crescer” para mim. Fiz-lhe frente e espetei-lhe uma valente bofetada na face e agarrei-o pela camisa. Ele soltou-se e correu para pegar na sua arma. Retirei imediatamente a patilha da posição de Segurança da minha e fiquei expectante. Outros Soldados acorreram logo e imobilizaram-no. Entrou num choro convulsivo, como uma criança, e agarrou-se a mim a pedir desculpa. Talvez não tivesse aguentado o stress sofrido naquelas horas… Disse-lhe: “Sr. R…, dado o seu atual estado psicológico, fica por mim dispensado de ir descarregar as viaturas”, e retirei-me. No dia imediato, o Capitão Santana, sabedor da ocorrência, desconheço por que via, disse-me para apresentar uma participação, porque queria punir o Soldado. Disse-lhe: “Meu Capitão, desculpe, mas não apresento essa participação”“É uma ordem que lhe estou a dar!”, retorquiu de imediato. “Ele já recebeu uma punição, não vai receber duas pelo mesmo ato. Então vai ter que me punir a mim, porque não vou apresentar nenhuma participação”, respondi. O assunto morreu ali. Vim a saber posteriormente que o Capitão Santana teria dito a alguém que ambos deveríamos ser punidos. Como essa suposta afirmação é incompatível com o que me ordenou, a ser verdadeira, só teria sustentação pelo desconhecimento das circunstâncias do sucedido. Desse ato resultou, daí para a frente, uma amizade muito forte entre o Sr. R… e eu próprio. Hoje, fazendo uma retrospetiva, e recolocando-me no contexto, penso que a minha atitude não deixou de ser correta, embora admita que outros possam não a compreender e interpretá-la até como uma prepotência. Apesar de ele ser daqui da área do Porto, nunca mais o encontrei, mas tenho a certeza que a nossa amizade se terá fortalecido e tornado perene. Gostaria de lhe dar um abraço franco e fraterno.

Carlos Jorge Mota

quinta-feira, 29 de maio de 2014

XXIX - MISSA...EM ZONA DE GUERRA

-FARDA OU FARDO?-
Percurso feito com alguma precaução, velocidade lenta pois a picada tinha muitos buracos e formato irregular, e, finalmente, decorridas umas três a quatro horas, chegámos ao local onde bivacámos. Como se previa um período de permanência de, pelo menos, uns quinze dias, após montagem da respetiva segurança, tomaram-se as providências para que instalações com um mínimo de condições se assegurassem, nomeadamente a armação de tendas cónicas, triangulares e retangulares, para acomodação do pessoal, de Géneros Alimentares – incluindo Rações de Combate -, Transmissões, Enfermagem e os demais serviços. Um pouco afastado, mas dentro do perímetro de vigilância permanente, abriram-se latrinas onde se colocaram tábuas para serventia simultânea.
TERRENO COM INCLINAÇÃO E DE VEGETAÇÃO RAREADA
Entretanto, como se aproximava a data que perfaria 30 dias da morte de meu pai, pelos canais próprios de transmissões, solicitei autorização para contacto com o Capelão do Batalhão, Padre Serra, graduado em Alferes (vive atualmente nos Açores, segundo fui informado), e que se encontrava com o pessoal da CCS, noutro local. Perguntei-lhe se se disponibilizaria para vir à Companhia 2506 e dizer uma Missa em 14 de setembro, isto é, 30 dias após o falecimento de meu pai - 16 de agosto, esse mês tem 31 dias e o dia da morte já conta para este efeito. “Claro que vou, pá, é só combinarmos como!”. Daí a uns dias, eu teria que me deslocar em coluna para fazer um reabastecimento no Quartel de Cangumbe, que, antes da Operação, havia sido instruído para aumentar o  seu Nível de Abastecimento (os denominados Níveis e Avanços) pois seria a partir de si que o nosso Batalhão se forneceria. Ele deslocou-se a esse quartel num reabastecimento da CCS, ficou lá um dia, e eu trouxe-o na minha coluna de reabastecimento, que teve lugar no dia seguinte. Aproveitei para me encontrar com o “Tatarelho”, mas, por mera coincidência, ele tinha saído também para Operações. Gorado o contacto, portanto.

Dirigi-me à loja dum Cantineiro (indivíduo que vive no Mato vendendo topo o tipo de artigos - como antigamente se procedia nas nossas aldeias -, principalmente aos indígenas, mas não só) para comprar uns artigos que Camaradas me tinham solicitado. Entro na loja e ele, que estava a falar em português com um nativo, imediatamente começa a falar no dialeto, que dominava bem. Percebi logo que estava a “enrolar” o homem e, óbvio, não queria que eu entendesse … Era essa a maneira de “negociar”, muitas vezes recebendo o pagamento em géneros cujo valor … era ele que avaliava!...

O Padre Serra ficou uns dias connosco, até porque o ministério sacerdotal é genérico e universal, portanto, não só confinado à sua CCS. Montou-se um “altar” improvisado com a tampa do motor duma Berliet, assente em estacas de madeira, e, na sua retaguarda, simulando o fundo da “capela”, tudo por ele idealizado, colocaram-se cordas presas ao chão que convergiam na parte superior para um só prego numa árvore. Ficou  com um aspeto digno de registo para a posteridade. Tirei fotografia mas … revelei depois em slide, que, com o decorrer do tempo, já se deteriorou. Houve pessoal que aproveitou para assistir a essa missa, independentemente da razão da sua origem. Apesar de eu não ser pessoalmente um Ser muito crente, nestes momentos em que estão em causa entes queridos, a obrigatória tradição tem muito peso.

No reabastecimento imediatamente seguinte, ele fez comigo o trajeto inverso e regressou à CCS. Homem generoso, bom e corajoso. Posteriormente, já no Leste, deslocando-se do Lucusse para o Luso, a viatura em que seguia, quase no fim da coluna, acionou uma Mina Anti-Carro cujo dispositivo de percussão era ministrado por roda dentada, o que significa que só rebenta quando ela atinge o ponto predefinido. Felizmente, e porque muitos sacos de areia eram sempre bem acondicionados, só houve danos materiais e umas escoriações ligeiras no pessoal que se fazia transportar nessa Berliet. Para além duma surdez temporária …

No fim do regresso, ao local de bivaque, desse reabastecimento que fiz ao Quartel de Cangumbe, vi-me envolvido numa situação inusitada com consequências tremendamente … anómalas, direi mesmo, aberrantes.

Carlos Jorge Mota