quinta-feira, 3 de julho de 2014

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Postamos a seguir os PE dos dias 21 e 28 do passado mês de Junho e publicados no CM.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
21JUN2014

PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
28JUN2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

XLI - MUDANÇA DE RUMO... A POUCAS HORAS DE LISBOA

-FARDA OU FARDO?-
Zarpámos em plena noite, sem antes nos despedirmos, com uma olhadela curiosa, ainda de dia, ao navio Império, que tinha também acabado de levar tropas e que aguardava a saída do Vera Cruz a fim de acostar para início das operações de carregamento.

NAVIO IMPÉRIO
AS LUZES DO CAIS DE LUANDA,JÁ BEM LONGE









Embora cansados, conservámo-nos na amurada até deixarmos de ver totalmente Angola. E, com a linha do horizonte a evidenciar a curvatura do planeta, já em pleno alto-mar, era impossível dormir, com toda aquela azáfama. Bagagem de mão bem arrumada no Camarote, o Bar do navio era o poiso de toda a “maralha”, alguns começando a sua dose diária de bebedeira, reforçada ao momento por razões óbvias, ou por contentamento indisfarçável ou por confusão mental súbita fruto do balanceamento do que deixam e da nova e inesperada vida que vão encontrar … lá longe.

BELICHE NO CAMAROTE
RASTO DA VELOCIDADE DE 21 NÓS











Na segunda noite seguinte, 23, seria a famosa Noite de São João da minha cidade do Porto, que ainda não saborearia.

O Vera Cruz, tal como o Império, o Uíge, o Niassa, o Índia e o Pátria, penso que não me falha mais nenhum outro, eram navios que estavam fretados para transporte de tropas, portanto, tinham os seus porões adaptados com beliches feitos em madeira para acomodação das Praças. Tive que me deslocar lá uma vez, por razões de Serviço à Companhia, e verifiquei as condições paupérrimas em que o pessoal viajava, acrescida do facto perturbador da alta pressão atmosférica a que os corpos se sujeitavam, porquanto se encontravam abaixo da linha-de-água.

Como é normal nas viagens marítimas, são dadas instruções aos passageiros sobre o procedimento a adotar em caso de emergência, com a indicação da baleeira que lhes está destinada, e há sempre uma ou mais ocasiões, a decidir aleatoriamente pelo Comandante de Bandeira (neste caso, porque transportava tropas) ou pelo Comandante do Navio, para um exercício súbito e inesperado. As Praças, ao apito do navio para esse efeito, tinham mais dificuldade em chegar prontamente ao convés, não só pelo local onde se encontravam mas também pela sua maior quantidade. Havia que procurar controlar toda esta dificultosa situação, por razões do foro militar e de obrigação naval.

EXERCÍCIO PARA EMERGÊNCIA
NAVIO NO GOLFO DA GUINÉ











Uma bela tarde, em pleno Golfo da Guiné, vemos um navio mercante em rota de colisão com o nosso. Nada percebíamos de Leis Marítimas, mas fomos informados que aquele barco teria que dar passagem ao Vera Cruz e ser ele a desviar a sua rota, o que não fez. Não se conseguia vislumbrar vivalma e estivemos muito perto dele. Parece que viria em Piloto Automático, foi-me dito, depois, por um Oficial de Bordo. Óbvio que o piloto do nosso barco é que teve de guinar para a direita e fazer um círculo completo, retomando depois o rumo.

Passámos ao largo de São Tomé e Príncipe, da Guiné, depois Cabo Verde e seguíamos o nosso destino para Lisboa, quando nos chega a informação que aportaríamos primeiro ao Funchal. E Porquê? Exatamente porque tínhamos partido atrasados de Luanda decorrente das 12 horas gastas pelo Vera Cruz na sua paragem aquando da ida. É que o tempo é controlado ao máximo para efeito de articulação com outros fatores. Levávamos a bordo duas Companhias de Caçadores Independentes cuja Unidade Mobilizadora era um Quartel de Ponta Delgada. Estava previsto o seu desembarque em Lisboa e simultâneo transbordo para outro navio cujo percurso é a triangulação dos Arquipélagos da Madeira e dos Açores. A fim de se evitar o atraso de saída desse barco o Vera Cruz foi descarregar essas Companhias ao Funchal que ficaram a aguardar a chegada do tal outro para posterior embarque para o seu efetivo destino. Esta alteração proporcionou-nos a oportunidade de conhecer a Ilha da Madeira, pois tivemos autorização de saída. Em grupos, alugámos um carro e percorremos aquela maravilhosa Pérola do Atlântico, como a cantava o grande Max.










(acentuando o último a). Exactement comme l’Algerie!”, talvez lembrando-se da Guerra da Argélia. Teria sido ele também Combatente? 

Carlos Jorge Mota

segunda-feira, 30 de junho de 2014

XL - EMBARQUE À VISTA

- FARDA OU FARDO?-
Chegada ao Porto de Luanda do Navio Vera Cruz, com tropas frescas a bordo para rendição de outras, prevista para 20 de junho, de manhã. Uns dias antes dessa data, começa a nossa entrega do Armamento, Munições, das Viaturas, do material de Transmissões, enfim de tudo que nos fora confiado para o desempenho da missão de 24 meses, mais o “mata-bicho”. E as deslocações para as Chefias dos respetivos Serviços, na baixa de Luanda, se sucedem, no seguimento das diligências por mim iniciadas e de cuja incumbência fora encarregado, não obstante permanecer na Província, por mais um bom número de dias razoável, uma Comissão Liquidatária, como era normal, na esperança que tudo estivesse em ordem e nenhuma anormalidade fosse detetada e impeditiva de quitação. E a azáfama do encaixotamento logo se inicia. Só se ouve martelar, por todo o lado do Campo Militar do Grafanil onde nos encontrávamos, pregando caixotes e mais caixotes, para embarque no porão. Eu trouxe três, com o meu nome e posto e a designação da Companhia, tudo bem visível do exterior, pintado a tinta branca, para levantamento em Abrantes. Uma correria em busca de tábuas, improvisando-se tudo que servia para esse desiderato. Entretanto, somos sabedores que o navio se atrasou 12 horas. Chegaria, portanto, só à noite, o que, em termos práticos para nós, representaria um dia, pois nessa noite de 21 ele estaria ocupado nas operações de descarga, quer do pessoal embarcado quer do conteúdo dos seus porões quer ainda em reabastecimento. Vim a saber depois a razão desse atraso. Ao largo do Golfo da Guiné, durante a exibição dum filme, um Soldado, pendurado nos cabos do navio (em linguagem marítima cordas são cabos), desequilibrou-se e caiu à água. O Vera Cruz parou os seus motores e permaneceu na zona cerca de meio dia na esperança de recuperar o rapaz, vivo ou morto, mas, e infelizmente, sem resultados positivos. O navio retoma a marcha e chega atrasado a Luanda. As implicações do retardamento irão surgir no regresso, connosco a bordo.
VERA CRUZ
NUNCA IMAGINARIA QUE CERCA DE 6 MESES ANTES ELE ESTEVE PRESTES
A IR AO FUNDO COM 3 800 HOMENS A BORDO, VINDO DE MOÇAMBIQUE AO
LARGO DE EAST LONDON ( R A S )




PREPARATIVOS PARA O EMBARQUE



Da minha Companhia, o Fernando Temudo resolveu ficar a residir em Angola, bem como mais, pelo menos, dois Soldados. Das outras Companhias houve igualmente pessoal que ficou por lá, razão por que todos entraram de licença registada à data da saída do navio. Não quiseram, todavia, deixar de nos vir dar um abraço. Sabe-se lá se nos voltaremos a encontrar um dia?
E CHEGA A ORDEM DE EMBARQUE

Como alguns Camaradas tinham lá família e outros tinham já feito namoritos, com promessa de voltar, houve choros e ranger de dentes, fora do navio, que aumentaram de intensidade, até com algum histerismo, quando o pessoal passou para bordo, atingindo o apogeu com o apito estridente do barco, em jeito de despedida. Cerca das 10 horas da noite do dia 21 de junho de 1971 o Vera Cruz zarpa de Luanda, rumo a Lisboa. Curioso foi o súbito e estranho sentimento que se apoderou de mim (provavelmente generalizado a todos): olhar para aquela terra onde passei 26 meses, onde senti algumas alegrias, muita saudade e tristezas, por vezes fome e sede, momentos de desespero … e começar a emergir uma nostalgia inesperada, num misto e contraditório pensamento – colocar-me mentalmente no destino mas observando embevecido esta linda terra que vou agora deixar …

Carlos Jorge Mota

quarta-feira, 25 de junho de 2014

OUTROS CONVÍVIOS

-NOTÍCIA-
Postamos hoje com algum atraso os PE da passada sexta-feira dia 6, assim como os também passados sábados dias 7 e 14 do corrente mês, publicados no CM.
JM
PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
06JUN2014

PONTO DE ENCONTRO
CORREIO DA MANHÃ
07JUNI2014

PONTO DE ENCONTRO

CORREIO DA MANHÃ
14JUN2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

XXXIX - O ROSTO DO COLONIALISMO

-FARDA OU FARDO?-
Ao segundo dia em Luanda, já pela noite, chegam todas as Companhias do Batalhão, em coluna, depois da viagem de Comboio entre o Luso e Nova Lisboa, em que transportaram também as viaturas. O local de acantonamento foi no Campo do Grafanil em cujas instalações se colocavam as tropas em trânsito, as vindas da Metrópole e com destino ao Mato e vice-versa.

Sabíamos já qual a data da chegada do Vera Cruz, navio que nos transportaria para Lisboa, mas ela só teria lugar daí a uns dias. Entretanto, como Tropa não pode estar parada, é dos livros, cria ócio e dá mau exemplo aos outros militares, foram-nos atribuídas missões a empreender na própria cidade de Luanda. Eram de vário tipo, por rotação de Companhias: serviço à Rede, em que tínhamos já estado à chegada à R.M.A e durante cerca de 3 meses, e patrulhamento aos Musseques, isto é, ação de policiamento.

MUSSEQUE EM LUANDA
Atendendo a que eu estava interessado em conhecer essa tarefa de polícia, e já não teria outra oportunidade pela proximidade da data do embarque, perguntei ao Fernando Temudo se ele via algum inconveniente em eu o acompanhar numa sua saída, com ele a comandar, obviamente. Ele acedeu e eu então requisitei uma Pistola-Metralhadora FBP (Fábrica de Braço de Prata) para me incorporar no grupo, uma vez que só as Praças transportavam G-3. Ele levou uma Pistola Walther. Embrenhados nos Musseques, a missão consistia em pedir identificação, duma forma mais ou menos aleatória, aos transeuntes. Uns paravam, mostravam a documentação e eram mandados em paz; outros, indocumentados, subiam para um Unimogue, vazio para o efeito - só com o condutor -, para entrega posterior à PSP; e outros, logo que nos avistavam, desatavam numa correria louca, em fuga. O Temudo chegou a mandar uns tiros para o ar, mas sem resultado.

Uma vez a viatura cheia, deslocámo-nos à Esquadra da PSP, julgo que a 1ª, e entregámos os cidadãos para os devidos efeitos: identificação, morada, profissão e averiguações de atividade eventualmente ilícita, pensava eu. A Esquadra era uma casa tipo habitação, com Portão de Jardim, um corredor e depois, percorridos uns 15 metros, a Porta de Entrada. Mas … eis que, logo à passagem do Portão, onde estava uma Sentinela, verifico que, à medida que os cidadãos desciam e penetravam nesse corredor, sem nada lhes ser perguntado, começavam a levar pontapés, estalos, socos. Eles procuravam proteger-se das agressões, mas infrutiferamente. Lá dentro, na sala, depois de passada a Porta, era o chicote que entrava em ação. Pasmado com aquilo, digo ao Temudo: “eh pá, isto é assim? Eles (os da Polícia) já te assinaram a Guia de Entrega? Os homens estão ainda sob a tua custódia! Que merda é esta?”. O Temudo responde-me: “oh pá, temos o barco à nossa espera, deixa lá isso, não levantes problemas!”. Nesse momento senti uma revolta interior, vi ali o Rosto do Colonialismo. Suponho que todos os Guardas seriam gente do recrutamento local, portanto, com anos na Polícia de lá. Um metropolitano jamais faria aquilo. Percebi, então, a razão por que muitos dos cidadãos negros, avistando-nos, fugiam a sete pés. Já teriam passado por aquela situação … Tentei perceber, pelo tempo de permanência na Esquadra, o que lhes faziam depois. Após algumas perguntas, mandavam-nos embora … com porrada já carregada no lombo. Procedimento desumano e que contrariava toda a filosofia reinante de interligação racial apregoada. Fariam o mesmo se os homens fossem brancos? Não fariam, com toda a certeza!.. Naquele momento percebi que todo o meu esforço ao longo daqueles 26 meses não tinha razão de ser. Eu tinha sido enganado.

Como eu transportava uma FBP, arma perigosa se mal manuseada, pela eventual mudança brusca, aleatória, da posição da culatra que ela própria faz, um Guarda alertou-me para a posição da minha, dizendo-me: “cuidado, o senhor já viu como traz a arma?”. Disse-lhe: “Já, fique tranquilo, que eu sei o que estou a fazer!”.-“Como posso ficar descansado? Ela pode disparar sozinha a todo o momento!”, disse ele. Respondi-lhe: “você acha que eu iria agora correr riscos?”… e tiro o carregador, vazio … e mostro-lho. “O cheio, está aqui, no bolso” e bato no bolso lateral da calça da farda do camuflado. “Ah, já estava a ver, estava a ficar com medo”, retorquiu ele, aliviado.

Carlos Jorge Mota

quarta-feira, 11 de junho de 2014

XXXVIII - 8 DE MAIO DE 1971 - ÚNICA BEBEDEIRA NA VIDA

-FARDA OU FARDO?-
Finalmente, o almejado dia chegou: 8 de maio de 1971, data do fim da Comissão. Daí para a frente entraríamos no “mata-bicho” (designação que em Angola tinha dois sentidos – agora só tem um: para os civis significava “Pequeno-Almoço”; para os militares era o tempo entre a data do fim da Comissão e a do Embarque de regresso).  Vou ao Sacassanje encontrar-me com o pessoal que estava nesse momento na picada, para festejo geral. Não bebi muito mas a mistura do que me deram, em confraternização, arrasou comigo: apanhei uma bebedeira que pensei que ia morrer. Nunca tinha tido tal experiência, apesar de habitualmente beber todo o tipo de álcool, só que moderadamente e sem misturas. Tenho consciência que fiz uma figura patética, não fosse o compreensível momento, seria ridícula até e mesmo reprovável. Sei que os Soldados riam-se do que eu fazia e do que eu dizia. Mas também não fui o único.

ENTRE O PESSOAL DE TRANSMISSÕES
ENTRE O COIMBRA (DE MANTA), O HONORATO E O  RIACHOS (JÁ DESAPARECIDO)

Todo o pessoal de todas as Companhias do Batalhão, nos respetivos locais onde se encontravam, festejaram dum modo especial aquele desejado dia. No regresso ao Luso, no jipe com o Capitão Santana ao volante, eu ria, cantava, vociferava. Ele manteve-se sempre calmo e completamente sóbrio, talvez por indispensável precaução e exemplo de recato, e teve a amabilidade de me transportar a casa, até porque seria muito perigoso para mim, sob o ponto de vista disciplinar, ser topado na rua naquele estado, fardado e armado de G-3. Deitei-me, mas não conseguia permanecer na cama pois tinha a sensação de que me encontrava num barco a afundar. Foi uma noite horrível, sempre a correr para o Quarto-de-Banho, “a lançar a carga ao mar”. Os outros riam-se, mas também só estavam um pouco melhor do que eu.

Dia seguinte, manhã complicada, pois a nossa Guerra não tinha ainda acabado. Era preciso ultrapassar a situação para dar seguimento às tarefas. Dois banhos, um em cima do outro. E, pelo continuar das horas, a “coisa” lá foi melhorando …

Na semana imediata, talvez porque eles soubessem que estávamos no fim da Comissão e queriam afirmar-se, como despedida, montaram uma emboscada em plena zona do Sacassanje, nossa zona de proteção às obras. O Ajax, condutor da Berliet que seguia à testa da coluna, aguentou ao volante os momentos de fogo e conseguiu inverter a marcha para uma melhor posição, enquanto o Luís Brandão de Macedo, em pé e de peito descoberto, metralhava a zona onde eles se encontrariam. Debandaram rapidamente, tipo “bate e foge”. 

Nada mais de assinalável e que mereça especial referência aconteceu até ao dia em que recebemos ordem de regresso a Luanda.

Como o Fernandito, portuense colocado no Comando de Setor com quem havia feito amizade na Cristália, e já atrás citado, me havia dito que talvez me conseguisse uma passagem de avião militar para Luanda, coloco a questão ao Capitão Santana no sentido de auscultar o seu consentimento, uma vez que a minha presença no Comboio e nas viaturas, para enquadramento do meu pessoal, poderia ser dispensada. Aquiesceu e disse-me que até seria bom porque, dessa forma, eu começaria de imediato a tratar duma série de diligências a fazer junto das respetivas Chefias dos vários Serviços, em Luanda: de Intendência, de Material, de Armamento, de Transmissões, etc.


AEROPORTO DO LUSO, ONDE O CHEMBENE SE DESLOCOU NUM PV2,
PARA SE ENCONTRAR COMIGO E ONDE EMBARQUEI NO NORD-ATLAS

Bilhete na mão, conseguido pelo Fernando, aí estou eu a entrar para um Nord-Atlas, da FAP, conhecido como Barriga de Ginguba, que me proporcionou uma viagem de cerca de três horas. Aterro em Luanda, na zona militar do Aeroporto. Vou para casa dos tios do Fontes, que, entretanto, já tinha acabado a Comissão e regressado à Metrópole. Durmo lá e, no seguinte, começo a tratar dos assuntos incumbidos.

Carlos Jorge Mota

terça-feira, 10 de junho de 2014

XXXVII - CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

-FARDA OU FARDO?-
Não demoraram 15 minutos quando o Capitão Santana me procura e me diz: “eh pá, oh Mota, você tinha razão. Os Dragões rebelaram-se e agora sobrou para nós! Vamos começar a ‘alinhar’ nas escoltas para o Dala e Buçaco, que estavam a cargo deles. Acabei agora de receber um telefonema do Comando de Setor. Começamos já amanhã”.
QUARTEL DOS DRAGÕES - LUSO
Venho logo depois a saber o que tinha ocorrido: o Soldado abatido estava de serviço, drogado com liamba, o que era muito comum com os nativos naquela altura, e dizia que se ia embora para casa. O Furriel dizia-lhe: “pá, não podes sair da Unidade, só amanhã, depois do Render da Parada. Conheces as regras militares. Eu não te posso deixar sair”. O rapaz, talvez toldado pela dopagem, resolveu sair mesmo. E vai daí, o Furriel resolveu levar o caso até ao extremo, servindo-se do que o Regulamento Militar determina e lhe permite. Soube, já muito mais tarde, em Luanda, que ele tinha sido julgado em Tribunal Militar e … foi absolvido.

Mas, no entretanto, as coisas complicaram-se dentro da Unidade. Os Soldados, nativos na sua quase totalidade, não tinham arma distribuída. E foi o que salvou a situação. Levantavam-na na Arrecadação de Material de Guerra do Quartel sempre que saíam para um serviço. A rajada de arma pesada que eu tinha ouvido quando encostado ao muro foi disparada por um 2º Sargento, branco, para evitar que eles concretizassem uma tentativa de assalto a essa arrecadação, pois diziam que iam matar todos os Graduados do Quartel. Acresce que esse rapaz tinha um irmão também lá colocado, o que ajudava a aumentar a efervescência. O Furriel teve que fugir pela parte de trás, saltando o muro junto ao Campo de Futebol (que é visível na fotografia).

O Aquartelamento foi entretanto ocupado pelos Comandos, o pessoal foi todo transferido de imediato e a Unidade foi reativada com tropa fresca, provinda de outros pontos da RMA.

À tardinha, ao chegar a “minha” casa, contígua ao edifício do Comando, depara-se-me um espetáculo deprimente, pela impotência da multidão “fardada” que pedia “justiça” junto do Brigadeiro Bettencourt Rodrigues e a postura militarista deste de só receber uma Delegação que se encontrasse mínima e regularmente composta sob o ponto de vista de fardamento.

E, no dia seguinte, conforme ordem recebida, uma Secção da nossa Companhia começou a ocupar-se das escoltas na estrada para Henrique de Carvalho, até ao Buçaco, via Dala, tarefa que permaneceu durante quase um mês.

Nessa mesma estrada, segundo se falava na altura, e durante esse período, terá sido a primeira vez que uma Mina Anti-Carro foi acionada numa via asfaltada. Eles cortaram um pedaço certinho do alcatrão, colocaram lá a Mina e taparam de novo, com disfarce não detetável.

Um Camarada que passou à disponibilidade em Angola, não regressando, portanto, à Metrópole, conviveu algum tempo, por razões de namoro com duas irmãs, com o moço envolvido nesse incidente. Penso que um ato desses, feito a quente, deverá marcar indelevelmente um indivíduo para toda a vida.

Carlos Jorge Mota