quarta-feira, 14 de março de 2018

LIGA DOS COMBATENTES-IRS 2017

-NOTÍCIA-

Recebemos do Núcleo de Lisboa da Liga dos Combatentes, o mail que pelo interesse para a "Liga Solidária" passamos a divulgar a todos os Combatentes, Familiares e Amigos da nossa Companhia e que a seguir transcrevemos na íntegra: 
J Merca

"Caros Sócios,
A DC/LC solicita-nos que lembremos a todos os sócios da LIGA o quanto poderá significar para o apoio do projecto “LIGA SOLIDÁRIA” que no nosso IRS façamos a consignação dos 0.5% conforme previsto no Nº 6 do artº 32 da Lei 16/2001 de 22 de Junho.
Basta para isso preencher o quadro 11 do modelo 3 da Declaração



Desde já os nossos agradecimentos em nome daqueles que porventura venham a beneficiar desta nossa tão simples decisão.

Cumprimentos,

A Direcção do Núcleo

terça-feira, 6 de março de 2018

ENCONTRO 2007 C CAÇ 2505

-ENCONTROS C CAÇ 2505-
ENCONTRO C CAÇ 2505 NA MEALHADA 2007

O Encontro Anual da C Caç 2505 em 2007, realizou-se no restaurante “O Telheiro”, na Mealhada. Só agora foi possível reunir todos os elementos e fotografias relacionadas com o encontro, que de imediato passamos a postar.

O restaurante foi indicado pelo Simões que em boa hora o recomendou, pois o almoço foi serviço com bastante qualidade e com custo abaixo do que naquela altura se praticava, para o mesmo tipo de estabelecimento.

Como sempre estes convívios são repletos de alegria e camaradagem, em que as recordações brotam como a água numa nascente em pleno inverno.

Antes do repasto e como hábito pronunciei algumas breves palavras e logo de seguida começou a ser servido o já desejado almoço.

Pela meia tarde formavam-se pequenos grupos de camaradas, discutindo os mais diversos assuntos. Chegou a hora das despedidas e pouco a pouco os restantes participantes, começaram a abandonar o parque de estacionamento do restaurante.

A tarde estava a chegar ao fim e com ela mais um Encontro Anual da nossa Companhia.
jM

Nota: Para postar os Encontro Anuais da Companhia em falta, agradecemos aos combatentes, familiares e amigos presentes nos eventos de 2008 a 2010 inclusive, nos enviem as fotos que tenham em sua posse.

A CONVOCATÓRIA

O DISCURSO



AS FOTOS
A CONCENTRAÇÃO



CASAL MUITO AMIGO. AO FUNDO AS INSTALAÇÕES DE UMA ORGANIZAÇÃO
QUE MUITO DIZ AO CAMARADA DE ARMAS NA FOTO 


A FOTO DE FAMILIA


HOMENAGEM AO SILVA, ANTUNES, ELÍSIO E PRAZERES QUE JÁ NÃO ESTÃO ENTRE NÓS.
QUE DESCANSEM EM PAZ

O ALMOÇO




O BOLO COMEMORATIVO

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

CERCO AO MUSSEQUE DO CAZENGA

-TESTEMUNHO-

O Musseque do Cazenga, bairro da periferia de Luanda, como tantos outros existentes nesta cidade. O Batalhão de Caçadores 2872, batalhão de intervenção, estava aquartelado no Campo Militar do Grafanil, tinha por missão o patrulhamento destes bairros que eram constituídos por casas térreas de barro, sem grande organização, e com ruas de terra batida. A polícia fazia a segurança na cidade, onde existia o comércio e habitações dos europeus, a cidade europeia. As patrulhas militares destinavam-se a manter a presença militar nestes bairros e eram feitas usando armas automáticas de guerra, nada de pistolas (as pistolas eram usadas, às vezes, pelos graduados, que chefiavam as patrulhas). Estas patrulhas serviam para tentar detetar movimentos de guerrilheiros, vulgo "turras", no seu interior e manter a ordem.

Foto de Manuel Pimenta extraída dum slide: vista geral do bairro Cazenga nos anos 69/70
Seria 3 horas da manhã, duma data que não consigo precisar, mas seguramente do ano de 1970, soa o toque de alvorada no Batalhão de Caçadores 2872. O que se preparava? Eu pelo menos não sabia, mas a companhia 1782 do batalhão 2830, teria sido informada duma missão  muito diferente da que veio acontecer. Esta companhia estava adida ao nosso batalhão, no serviço de intervenção, fazia todas as missões como qualquer companhia pertencente a esta unidade. Numa passagem do livro do Batalhão 2830, pode ler-se na página 316:

*****************

"...em formatura geral, pediam-se voluntários na Companhia 1782 e no Batalhão 2872 para participar como figurantes numas filmagens, lá para a barra do Cuanza, a horas desusadas e clandestinas, exactamente na companhia dessas artistas recém-chegadas à capital de Angola. Seria um filme ousado, com cenas violentas e doces, sobre a história do terrorismo, para correr Portugal e o mundo.
A tarde desse dia foi estranhamente atarefada. Com sonhos de sorrisos doces, entre conversas de ensaio imaginário e lances aventureiros, engraxavam-se botas, alisavam-se fardas, camuflados e lencinhos.
A altas horas da noite chegaram as viaturas para a numerosa tropa voluntária avançar.
"Como furriel mais antigo - conta o fur. enf. António R. Morais - eu ia a comandar uma viatura. E a certa altura, o condutor, também todo engraxadinho e que era da Região Militar de Angola, começa a gozar:
-Ó meu furriel, vocês caíram como patos.
- Porquê?
-Vocês vão fazer uma batida aos musseques e não é nada de filmagens.
Efectivamente, tratou-se de uma batida ai pelas 3/4 horas da manhã em colaboração com a polícia. Por secções, a tropa fazia o cerco ao musseque e esse cerco ia-se apertando ou comprimindo. A polícia arrombava as portas e entrava por lá dentro a fim de identificar as pessoas. Foram apanhados tipos suspeitos, sem documentação ou fugidos à justiça. Muitos foram levados para a prisão."
******************

A nossa companhia, a Companhia de Caçadores 2505, participou com todos os efetivos nesta operação, onde terá participado a CCS - Companhia de Comandos e Serviços, não tenho a certeza se participou. A nossa missão consistia, tão só, em cercar o bairro, sem deixar qualquer passagem a não ser a de controlo.

 Lembro-me que comandei uma secção, colocada na extremidade norte do bairro, onde passava uma vala. As instruções consistiam em indicar às pessoas, que eram retiradas das casas, para seguirem pela direita até à saída. A polícia participou sob orientação dos civis (na altura não imaginávamos quem seriam, hoje, podemos fazer conjeturas), tiravam toda a gente do interior das habitações. Na saída era feito o controlo, dos habitantes do bairro, pelos referidos polícias e civis. Quem não tinha documentos ia para as viaturas (camiões e camionetas - vulgo "machibombos"), mas houve também quem tivesse documentos que seguiu para as viaturas e o seu destino terá sido o Governo Civil.
Foto de Manuel Pimenta extraída dum slide: Bairro Cazenga
O que aconteceu no Governo Civil não pudemos testemunhar, mas a esta distância não será difícil imaginar!!!

Operações deste tipo, só me recordo desta, mas seria habitual, de tempos a tempos, serem efetuadas. Partiriam de informações recolhidas no interior do musseque, da presença de dirigentes dos movimentos guerrilheiros, que estariam de visita ao bairro, para rever familiares, recolha de fundos e de mantimentos. Passariam nos postos de controlo da rede, com identidades falsas, iludindo assim a vigilância.

F. Santos - Memórias de Angola
14 de janeiro de 2018

domingo, 18 de fevereiro de 2018

CONFRATERNIZAÇÃO NA ASSOCIAÇÃO DOS FUZILEIROS NO BARREIRO

-NOTÍCIA-

Teve lugar no passado dia 8 de Fevereiro, uma confraternização que contou com a presença de vários combatentes do Batalhão de Caçadores 2872 e que na Associação dos Fuzileiros no Barreiro, decorreu num ambiente de grande camaradagem e amizade.

Por iniciativa de alguns elementos da companhia irmã 2506, estes almoços já se vinham a realizar naquela associação há quatro ou cinco anos. A estes encontros compareciam, também, alguns camaradas daquela companhia, que da região do Grande Porto, se deslocavam ao Barreiro para estarem presentes. Foi convidado pelo Carlos Jorge para num dos primeiros almoços estar presente, e desde aí, salvo uma única vez e por imperativos motivos, nunca deixei de estar presente.

Estes encontros que contavam com perto de 10 participantes, talvez com uma exceção para o último realizado em 11 de Julho de 2016, onde dado o seu posterior falecimento foi a última vez que revi o Manuel Arvelos, Furriel Mec/Auto da CCS. Desta vez como que por varinha mágica no passado dia 8, as participações a esta confraternização aumentaram para 25. Este número foi atingido pela presença de pelo menos 4 elementos de cada companhia do Batalhão, o Major Lo, então 2º. Comandante do Batalhão que a companhia 2506 reforçou em terras do sul de Angola e a de um outro participante que penso ser amigo do C Mota.
ALMOÇO DE JUL/2016 - HOMENAGEM AO MANUEL ARVELOS - EM BAIXO 2º DA ESQUERDA
Acabada a refeição na base do cozido à portuguesa, prato do dia e já depois de servido o café, tomaram a palavra o então Major Ló, o comandante da companhia irmã 2504, na altura Capitão Miliciano Conde e Silva e eu próprio, que em síntese aproveitei a oportunidade para opinar sobre a importância destes encontros transbordantes de amizade e camaradagem propondo a sua realização pelo menos de seis em seis meses e também, que num futuro, as confraternizações anuais das companhias pudessem vier a realizar-se a nível do Batalhão.

Uma palavra ainda, para elogiar a maneira afetiva como fomos recebidos na Associação dos Fuzileiros, onde o serviço teve nota mais, na qualidade, quantidade e até no custo.

Foi pela iniciativa do Carlos Neves que passado mais de um ano, lembrou que era altura de realizarmos mais um almoço aproveitando-se a presença do nosso Fernando Santos regressado da Cidade da Praia, contando na logística e no terreno com o Fernando Temudo.

Assim, para os meus grandes amigos Carlos Neves, o da ideia, o impulsionador, o Fernando Temudo o trabalhador incansável, o organizador, no mais insignificante pormenor, aqui fica o nosso obrigado e vincado elogio.

AS FOTOS
OS MOINHOS
OS MOINHOS












A ASSOCIAÇÃO
A MESA










O ALMOÇO

O ALMOÇO - AS CONVERSAS

O CONVÍVIO - NEVES E SANTOS
O CONVÍVIO - PIMENTA, SANTOS E NEVES












OS DISCURSOS
OUVINDO OS DISCURSOS










A FOTO DE FAMÍLIA
O VIDEO
jMerca

Fotos: F  Santos e J Merca
Video: F Santos

domingo, 4 de fevereiro de 2018

A PARTIDA E OUTRAS HISTÓRIAS

-TESTEMUNHO-

PAQUETE UIGE NA PARTIDA DO BATALHÃO DE CAÇADORES 2872 A 8 DE MAIO DE 1969
Charneca de Torres e Cercas, na freguesia e concelho de Silves, terra onde nasci, decorria o mês de agosto de 1947, precisamente no dia 25. Aí permaneci até aos onze anos, frequentei neste período, o posto escolar da Fonte Figueira, que distava da minha casa cerca de 4 Km, distância que fazia a pé, ida e volta, de segunda a sexta-feira.

Aos onze anos fiz o exame de admissão à Escola Industrial e Comercial de Silves, com aproveitamento. Os meus pais, matricularam-me naquela escola, nesse ano, no 1º ano do ciclo preparatório. Para me facilitar a vida, fixaram residência numa aldeia que fica entre a beira serra e o castelo de Silves. Ali conheci muitos amigos, entre eles, o Abel Santos, com quem partilhei muitas brincadeiras.

CASA ONDE MOREI NO  MONTE BRANCO - SILVES
No dia 4 de maio de 1969, domingo, estive com este amigo num baile do "marroquino", naquela aldeia, nesta ocasião, falámos da tropa e de muitas outras coisas. Contei-lhe na altura que estava mobilizado para Angola e que partia na quinta-feira seguinte, ele disse-me que ia para Moçambique, mas não sabia quando partia para aquela província.

No dia 7 de maio de 1969, embarquei na estação de Silves, no comboio com destino ao norte, fiz alguns transbordos até chegar ao apeadeiro de Santa Margarida, no concelho de Abrantes, onde cheguei na madrugada do dia 8 de maio de 1969. Ali aguardava-me o comboio, que me levaria até Lisboa, para embarcar no paquete Uíge.

O Abel estava, naquele  dia, no cais da Rocha de Conde de Óbidos, local de partida com destino a Angola. Viagem atribulada: começou com enjoos e o cambalear pelo barco como se estivéssemos com uma bebedeira; ao fim de alguns dias passou e entramos na normalidade; os graduados tinham no navio instalações aceitáveis (bar, salão de refeições e camarotes que os furriéis, no meio caso, dividiam com outro camarada); as das praças já não posso dizer o mesmo; desloquei-me, um dia em que estava de serviço de sargento dia, ao porão do navio, onde se amontoavam estes militares, em condições deploráveis, para não dizer outra coisa. Em consequência destas condições, havia muitos soldados que levavam os colchões para convés, colchões, que para o final da viagem, não regressavam ao local de origem, pois eram atirados ao mar, criando alguns problemas, porque a nossa viagem demorou mais tempo do que o habitual (presume que com uma avaria nos motores do navio), 13 dias em vez de 8. Finalmente, chegámos no dia 21 de maio de 1969, ao porto de Luanda.

Tenho apenas uma foto do interior do barco no salão de refeições.

SALÃO DE REFEIÇÕES DE GRADUADOS NO UIGE -  F SANTOS AO CENTRO
Ao pisarmos terra firme em Luanda, voltamos a cambalear, não sabia que isso poderia acontecer depois duma longa viagem de barco. Fomos levados para o Grafanil, pernoitamos debaixo duns telheiros que tinham umas estruturas de cimento com mais ou menos um metro de altura. Dormimos em cima dessa estrutura, nessa noite, antes de seguirmos para as instalações reservadas ao batalhão.

CIDADE DE LUANDA , ANOS 1969/1971
No dia 23 de maio de 1969, sábado, como a maioria dos militares, os sargentos (onde se incluíam os furriéis) e oficiais, rumei à cidade de Luanda, no machibombo militar (autocarro),  as praças eram transportadas em berliets ou de boleia, jantei num restaurante de Luanda (não me lembro se na Floresta se no Polo Norte), ao entrar na esplanada da "Cervejaria Portugália"(ponto de encontro de muitos militares portugueses), ao passar por uma mesa, senti uma mão a agarrar-me o braço, era o Abel, 1º cabo especialista da Força Aérea Portuguesa! Perguntei-lhe se o destino dele tinha mudado para Angola, disse-me que não, que estava ali em trânsito, tinha vindo de avião e que partia no dia seguinte para Moçambique. Bebemos umas cervejas, conversamos e a determinada altura estendeu-me um subscrito e disse-me: "isto é para ti, pensava em escrever-te de Moçambique, mas entrego-to já". Abri o envelope e encontrei no interior a foto do barco na partida, perguntei-lhe: "o que é isto?",  - ele responde-me: "é a fotografia do barco onde vieste, eu estava no cais nesse dia" (primeira foto do testemunho).

PORTUGÁLIA - PONTO DE ENCONTRO DE MILITARES PORTUGUESES NOS ANOS 69 E 70 EM LUANDA
Voltei a encontrar o Abel em 1971, no regresso da guerra, continuamos amigos até hoje.

F. Santos - Memórias de Angola
12 de janeiro de 2018

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

FALECIMENTOS NA COMPANHIA

-NOTÍCIA-

Tivemos conhecimento que o Artur Henriques Gaspar precocemente nos deixou aos setenta anos. Soubemos que já se encontrava doente há algum tempo, mas esta triste notícia só nos chegou agora, apesar do seu falecimento se ter verificado no mês de Novembro do passado ano.


O Artur Gaspar foi soldado atirador e pertencia ao segundo grupo de combate da nossa Companhia. Participou em vários Encontros Anuais da Companhia, sendo o último em Torres Vedras no decorrer do ano de 2005. Foi tanoeiro de profissão e bem recordo os bancos e cadeiras que fez para a Companhia, utilizando as aduelas dos pipos do vinho.

Deixamos aqui o nosso mais profundo pesar a toda a família e amigos. Para todos nós que com ele convivemos, fica a profunda saudade de mais um camarada de armas que nos deixa.

Que descanse em paz.

JM

domingo, 28 de janeiro de 2018

RADIO CANAGE...DUAS HISTÓRIAS

-TESTEMUNHO-

Antes de chegarmos ao  Canage, um sítio onde não havia nada para além do rio e a "picada, após o nosso Batalhão ter sido "despachado" para a Região Militar Leste, durante o  mês de setembro de 1970, acampámos em Camgumbe, a partir daí, participámos na operação "ESCOVAR", combatemos, patrulhámos, reconstruímos pontões, abrimos picadas, recolhemos populações e reorganizámos o quimbo do Caminhão.

Já no Canage, foi construído um acampamento provisório, junto ao rio do mesmo nome. Tínhamos como missão, a proteção próxima e afastada aos trabalhos de construção da futura estrada que ligaria, nos cerca de  400 Km, o Luso a Gago Coutinho.

PLACA COM AS AS DISTÂNCIAS
Foi neste acampamento que o nosso camarada, António Joaquim Piçarra, soldado atirador do 1º pelotão, com apetência e arte para as tecnologias radiofónicas, construiu um posto emissor: um rádio velho, antena, microfone, gira-discos que tinha sido utilizado no "Festival da Canção do Dange 1969" e discos, isto tudo colocado em cima dum caixote de material militar. Assim nascia, o que viemos a chamar, "Radio Canage". O posto emissor funcionava com uma cobertura reduzida, era no entanto,  possível sintonizar na frequência que foi escolhida, em todo o acampamento. Com o nosso locutor de serviço, Furriel Miliciano João Merca, assistido pelo operador de som, soldado atirador António Joaquim Piçarra, difundia música todas as tardes, do tipo "discos pedidos" e simulava spots publicitários. 

Foi com suporte nesta rádio que  estas duas histórias (entre outras), do testemunho, que vamos relatar.

VISTA PARCIAL DO NOSSO ACAMPAMENTO  - " A RADIO CANAGE" FUNCIONAVA NUMA TENDA COMO A QUADRADA DA FOTO

As Histórias

"Relojoaria Canas Seguro"


ESTÚDIO DA "RADIO CANAGE", COM O LOCUTOR FURRIEL MILICIANO MERCA E O FURRIEL MILICIANO SEGURO 
O Furriel Miliciano Canas Seguro tinha residência em Luanda, onde morava com a esposa, aquando da nossa passagem pelo Grafanil. Após a transferência do Batalhão para a RM Leste, manteve a casa onde a esposa continuava a viver; deslocava-se algumas vezes a Luanda, utilizando, aquilo a que hoje chamamos "férias repartidas". Este nosso amigo tinha uma especial vocação para o negócio e quando regressava da capital, vinha munido dum carregamento de artigos para negociar: relógios de pulso, peças de ourivesaria e outros adereços; os seus clientes eram o pessoal da companhia, ou ainda, outros militares que por ali passavam, especialmente das outras companhias irmãs.

No intervalo duma dessas deslocações, foi montado e inaugurado o "Rádio Canage". Quando do seu regresso, tivemos a ideia de simular um anúncio. O nosso comerciante não tinha conhecimento da existência do posto emissor, e, na tenda que servia de casa partilhada com outros camaradas, havia companheiros que  encarregar-se-iam de fazer com que ele assistisse à difusão do anúncio. Quando nos assegurámos que tudo estava em ordem, começou a encenação: na telefonia ouvia-se música; termina a passagem dum disco; neste momento, ouve-se o locutor - "agora é o momento da publicidade", "não tem relógio ou o seu está avariado?", temos a solução! No Canage, dirija-se à 'Relojoaria Canas Seguro',   relógios bons e  baratos, só em 'Canas Seguro'!",  isto acompanhado com música de fundo. O Seguro que estava sentado, dá um salto, fica incrédulo e com ar de espanto, ainda sem acreditar no que estava a ouvir, interroga-nos: "Eh pá! Vocês puseram este anúncio na rádio?!"


O Furriel que se passou para o lado dos "turras"!

O soldado atirador do 3º pelotão, Carlos Andrade (mais conhecido por "Martelão"), chegava duma coluna de proteção ou duma operação, não nos recordamos qual a missão, ao chegar à tenda que dividia com outros militares, sentou-se na cama a descansar. Naquele momento, ouvia-se música dos anos 60, na rádio. Termina uma canção que estava a passar, entra no ar o locutor: "agora música da nossa terra, vamos ouvir, 'Muxima'  do  Duo Ouro Negro". O Carlos Andrade que não estava a par da existência da nossa rádio, exclama, entre a admiração e a interrogação:  "mas isto é o furriel Merca a falar!?" - "Ah então tu não sabes?" questiona outro camarada, - "não sei o quê?", pergunta o Andrade - "O furriel Merca desertou e passou-se para o lado dos 'turras'!" disse outro militar, - "Ah! Eu sempre achei que ele não era bom!", disse o 'Martelão' e remata, "tamém já não come do porco!" (o porco era um animal que tinha sido encontrado e trazido para o acampamento e estava destinado a um assado no forno).

(A história "Relojoaria Canas Seguro" foi presenciada por mim, a história "O Furriel Merca passou-se para o lado dos "turras"!", foi-me contada pelo 1º cabo atirador Joaquim Pereira dos Santos).


F. Santos - Memórias de Angola
5 de janeiro de 2018

PS. Dedico este testemunho ao nosso saudoso amigo, Carlos Andrade, que já nos deixou. Amigo, onde estiveres vais rir à gargalhada destas lembranças! Até um dia! Um abraço de saudade!

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O ALFERES QUE QUERIA TIRAR A CARTA DE CONDUÇÃO, MAS ...HAVIA OUTRAS IDEIAS!

-TESTEMUNHO-

Breno Botelho de Vasconcelos, açoriano, natural do concelho de Ponta Delgada, ilha de S. Miguel, era o alferes miliciano que comandava o 3º pelotão da Companhia de Caçadores 2505. Figura franzina, oficial de trato afável e educado, tinha alguma dificuldade em deslocar-se nas operações com incursão nas matas dos Dembos, norte de Angola. Era ajudado algumas vezes, pelos soldados do seu pelotão, no transporte da mochila e algum material.

BAÍA DE LUANDA NOS ANOS 69/71 

Depois de passadas as dificuldades do Dange, com o regresso a Luanda pelo Natal, à nossa companhia foi confiada, entre outras missões (patrulhamento  dos bairros periféricos de Luanda, escolta ao comboio de Luanda/Catete, escolta a colunas MVL para o norte de Angola), a guarda à "rede de Luanda". A guarda à "rede de Luanda" constava de cerca de 50 postos de vigia, começava junto ao mar a nascente e prolongava-se até à outra ponta do mar a poente, numa extensão de cerca de 15 KM, nos limites da cidade (cercada por arame farpado em todo o círculo). Ao longo da rede existia uma "picada", que era percorrida pelas patrulhas de ronda que zelavam pelo bom funcionamento da vigilância. Essas patrulhas eram compostas pelo condutor da viatura e por um graduado (normalmente um furriel ou um alferes). Havia, salvo erro, duas saídas de viaturas (estradas para o Cacuaco e Catete) e, uma de peões, onde era feito controlo das saídas e entradas.


INICIO DA REDE COM ENTRADA NO MAR
FOTO CEDIDA PELO FURRIEL M PIMENTA
POSTO NR 1   FOTO  CEDIDA  PELO
FURRIEL M PIMENTA












O alferes miliciano Breno de Vasconcelos, como a grande maioria dos militares não era portador de carta de condução: ambicionava tirar a carta naquele tempo de estadia em Luanda, não se tinha inscrito numa escola de condução, mas aproveitava todas as oportunidades, nos dias em que estava de ronda à rede (que era quase dia sim dia não). Certo dia em que o Breno estava de ronda, como sempre trocou com o condutor para treinar a condução. Nisto aparece na "picada" outra patrulha. Esta patrulha era formada por um condutor e o comandante do batalhão, tenente coronel António Soares. O comandante mandou parar a viatura onde seguia o nosso alferes e perguntou-lhe: "quem é o responsável da patrulha?", - responde o Breno ao volante do jipe: "sou eu meu comandante", - o comandante interroga-o de novo: "então o que está aí a fazer ao volante?",- diz o Breno: "estou a aprender a conduzir meu comandante",   - o comandante, com cara de poucos amigos, argumenta e ordena: "está a aprender a conduzir, então não tem carta de condução, quando chegar ao Grafanil, passe pelo meu gabinete" - "sim meu comandante" remata o Breno .

ALFERES VASCONCELOS E FURRIEL SIMÕES FOTO CEDIDA PELO FURRIEL SIMÕES
No gabinete do comandante continuou o interrogatório ao alferes prevaricador. Em conclusão: o alferes miliciano Breno Botelho de Vasconcelos, saiu do gabinete com uma pena de prisão e transferência para outra companhia. A companhia de destino foi a CCaç 2569.

Já quase no final de comissão chegou ao nosso conhecimento o seu falecimento, ocorrido a 26 de abril de 1971, num acidente (ver dados do falecimento do alferes). Ver também: Cronologia da Guerra Colonial - 1971 "Em Angola quatro militares da CCaç 2569 morrem em acidente", entre eles estava o alferes miliciano Breno Botelho Vasconcelos.


A sua terra natal, Pilar Da Bretanha, no concelho de Ponta Delgada, homenageou-o, atribuindo o seu nome a uma artéria da localidade "Rua Breno Botelho de Vasconcelos".

Quanto ao tenente coronel, António Soares, depois de terminada a comissão, regressou a Portugal, mas não por muito tempo, voltou a  Angola para comandar um novo Batalhão. Nesta comissão de serviço, foi saneado pelos oficiais do batalhão e apeado do comando. Esta ocorrência relatada, nas suas próprias palavras, num encontro de graduados e familiares do nosso batalhão. Extrato do vídeo do ex-furriel miliciano Manuel Pimenta: (Clique aqui para ouvir a comunicação do comandante do Batalhão de Caçadores 2872). Faleceu a dia 2 de setembro de 2014, com 93 anos de idade.

F. Santos - Memórias de Angola

PS. O diálogo entre o alferes e o comandante, poderá não ter sido exatamente como o descrito, mas resulta de muitas conversas com outros camaradas. Seja como for, não deve ter andado longe do relato. As consequências, essas  foram as do testemunho. FS

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

BOAS FESTAS 2018


SÃO OS NOSSOS VOTOS PARA TODOS OS COMBATENTES, FAMILIARES E AMIGOS DA C CAÇ 2505, COM O DESEJO DE UM FELIZ NATAL E UM ANO DE 2018, COM AS MELHORES PERSPECTIVAS PESSOAIS E FAMILIARES     

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

PASSARINHOS NA MUTAMBA

-TESTEMUNHO-


Os passarinhos, ou uma noite passada entre Grafanil - Luanda -Grafanil, com algumas peripécias pelo meio.
(Na guerra também havia diversão)

CAMPO MILITAR DO GRAFANIL, 1970 ( ARQUIVO DIGITAL GRAFANIL-LUANDA)
Nos aposentos dos sargentos do Grafanil, num dos quartos, o 1º sargento Fernando Reis e o furriel miliciano Fernando Santos, jogavam uma partida de "crapô" (espécie de paciência, disputado por dois jogadores, com dois baralhos de 52 cartas), seria muito próximo da meia noite. Nisto entra de rampante o furriel miliciano Vitorino Rodrigues.  A partida foi interrompida e o Rodrigues diz em tom de gabarolice: "eh pá vocês nem sabem, comi uns passarinhos fritos numa tasquinha ali próxima da Mutamba (baixa de Luanda), que nem queiram saber!"

O 1º  SARGENTO FERNANDO REIS À ESQUERDA E O
 FURRIEL MILICIANO FERNANDO SANTOS À DIREITA
 JOGAVAM UMA PARTIDA DE CRAPÔ
O 1º Reis, para quem o conhece, sabe bem que petiscos, era com ele, diz logo: "Vamos lá comer esses passarinhos e beber umas cervejinhas". O Vitorino diz que não pode ser, que vai entrar de serviço de Sargento dia ao Batalhão, às 8 horas da manhã. O Reis não desarma, secundado pelo Santos, diz: "estás com medo de não conseguires estar aqui a horas para entrares de serviço? Diz o Santos, "vamos lá". O Vitorino depois de alguma insistência, responde: "então vamos". E fomos, no último "machimbombo militar" (autocarro) da noite, que fazia a carreira Grafanil-Luanda.

MUTAMBA ANOS 60 (TERMINAL DE TRANSPORTES)
Chegados à tasquinha, ali numa travessa entre a Mutamba e a Portugália, fomos encaminhados para um reservado. Pedimos 2 cervejas cada um e uma dúzia de passarinhos fritos (diz o Vitorino que o Santos devia estar com tanta fome que comeu logo metade, o que eu não me recordo, nem acredito!).

Durante o repasto, fizemos algumas viagens até à casa de banho, que ficava ali mesmo ao lado. A dada altura, lembro-me de ter olhado para o canto da salinha e visualizei, amontoadas dezenas de garrafas de cerveja vazias. Terminámos por volta das 5 horas da manhã, porque a tasquinha fechava a essa hora. Já bem aviados, parámos na rua, o 1º Reis volta-se para nós e pergunta: "e agora onde vamos?", responde de pronto o Vitorino: "vamos ao Rex", diz de imediato o Reis: "eu não gosto de maricas!", esclarece o Santos: "oh Reis, o Rex é um bar noturno!", então o Reis, compreensivo concorda: "ah assim vamos lá! Vamos ao strip-tease?", o Vitorino que tinha sempre a resposta pronta disse: "para o strip-tease, é melhor no Maxime". Passamos pelo Rex, pelo Maxime e talvez por mais algum! (Pedi ajuda ao Furriel miliciano João Merca e ele recordou-me mais três bares: Gôndola ( da Zé), o  007 (da Ju) e o Texas Bar ( da Manuela).

Mas o Vitorino tinha de entrar de "Sargento Dia", pelas 8 da manhã, transportes não havia aquela hora, mesmo que houvesse, estávamos noutra, então, iniciámos o percurso de regresso a pé para o Grafanil: subimos até à Maria da Fonte; Avenida dos Combatentes e tomámos o rumo da estrada de Catete, ali bem perto, fomos encontrar uma tasca ainda aberta: encontravam-se na tasca, alguns resistentes da noite, bebendo, conversando e discutindo. Bebemos mais umas aguardentes, que não pagamos, porque os nossos companheiros ocasionais não nos deixaram pagar.

Tínhamos ainda que percorrer alguns quilómetros até ao Grafanil, dois metros para a frente, parávamos para fazer uma reunião, não sei quantas fizemos, nem me lembro o que discutíamos. O Vitorino estragava logo as reuniões e não chegávamos a conclusões. Dizia o Reis para ele já irritado: "'porra', por causa da 'merda' dum serviço temos de ir a correr!"  O Vitorino tinha de entrar de serviço e ainda queria conviver mais um ano connosco (a falta a um serviço no batalhão, provavelmente, daria uma pena de prisão e transferência de companhia)! E apressou-nos.

Chegámos mesmo a tempo do Vitorino mudar de roupa e ir ter à parada para a rendição. O Reis e o Santos, ainda foram tomar um banho fresco e dormiram até à hora do jantar (almoço para quê?). Se não fosse a "porcaria" do serviço de Sargento Dia, teríamos ido até à Ilha de Luanda, tomar um banho de mar na praia, ver o nascer do sol ao raiar da aurora e talvez dormir na areia.

À DIREITA O VITORINO (ESTAVA DE SARGENTO DIA, MAS EM NAMBUANGONGO)
À ESQUERDA, O SANTOS E AO CENTRO O 2º SARGENTO BRAGA, "O PISTOLEIRO"
F. Santos -  Memórias de Angola