domingo, 1 de novembro de 2026

RECORDAR O ALFERES MILICIANO MÉDICO ABÍLIO MENDES

 =TESTEMUNHO=

Nasci em Lisboa há já algum tempo. Podia por oito dias ter nascido numa bela cidade da Beira Alta, mas isso não aconteceu. Sempre residi nesta bela cidade banhada pelo rio Tejo, mas posso afirmar que dela apenas conheço profundamente uma pequena parte.

Ontem, por uma interrupção de trânsito parei o carro numa rua que limita um dos lados do Hospital dos Lusíadas. Olhei para o lado e reparando na sua identificação, recordei o passado.

Pois bem! Na placa toponímica estava escrito: Rua Abílio Mendes – Médico Pediatra 1911-1992. Passo por esta rua inúmeras vezes, mas desconhecia completamente com se chamava.

O Dr. Abílio Mendes foi pediatra da minha filha a partir de 1973 ano em que nasceu. Era também o pai do Alferes Médico Abílio Mendes, curiosamente com o mesmo nome, e pertenceu ao Batalhão de Cavalaria 2830, Os Centauros e a minha Companhia encontrava-se na Região dos Dembos a reforçar aquela unidade. 

Entre o Alferes Abílio Mendes e o pessoal da minha Companhia, estabeleceu-se um clima de simpatia e grande companheirismo. Visitava frequentes vezes no nosso acampamento e dada a distância de 4 KM para o seu, por várias vezes também connosco pernoitava.

Muitas situações algumas até hilariantes se passaram com o nosso alferes tais como a relatada no testemunho do companheiro Fernando Santos publicada anteriormente e denominada: “Festival da Canção Dange 1969”, http://ccac2505.blogspot.pt/2015/10/festival-da-cancao-do-dange-1969.html, em que o nosso estimado amigo só nos pedia para ouvir o single dos Sheiks, grupo musical do qual o irmão Carlos Mendes fazia parte. Decorria o segundo semestre de 1969 e encontrávamo-nos na foz do Loche perto da ponte sobre o rio Dange, entre as Fazendas Maria Fernanda e Manuela.

O testemunho que agora vou postar passou-se comigo numa deslocação até à ponte do Dange para levar ao seu acampamento o nosso alferes médico. Tendo pernoitado no nosso acampamento, logo de manhã recebemos um rádio para o levar à sua unidade. 

Saímos imediatamente com uma secção reforçada em duas viaturas e mais ou menos a meio do percurso a viatura da frente parou e o condutor que não lembro o nome, mas poderia ser o Gil alertou-me para algo que estava na picada. Logo se montou segurança próxima ao local e verificou-se que a terra estava remexida, mas não existia nenhuma mina ou engenho explosivo.

Neste espaço de tempo o nosso alferes médico, possuidor de um físico algo corpulento, afastava-se caminhando pelo meio da picada com uma enorme descontração. Embora a zona fosse por nós muito patrulhada, o lema presente era nunca facilitar.

Com um “porra doutor” vá para dentro da mata, quero levá-lo com vida até à ponte, respondeu-me vindo ao meu encontro: “Eles sabem que salvo vidas, não as tiro como vocês”.

Na verdade, o alferes médico Abílio Mendes não usava qualquer armamento, nem a velha Walter.

Contaram-me mais tarde que o nosso doutor, na Fazenda Maria Manuela, tentava prestar os primeiros socorros a um camarada gravemente ferido e enquanto isto acontecia circulando à volta do corpo, o capelão do seu batalhão, rezando o atrapalhava na prestação destes cuidados. Como às vezes acontecia com alguns impropérios a mistura afastava-o com alguma frontalidade. Mais controlada a situação dirigiu-se ao capelão pedindo-lhe desculpa ao que este lhe respondeu: Compreendo doutor, mas só estava a preparar esta alma para a grande viagem. Como sempre a resposta pronta e sempre inesperada do dr não se fez esperar: “ Estou a tentar prepara-lo para a grande viagem daqui até Luanda, porque lá poderá certamente ter no pior um colega seu que lhe dará o pontapé de saída.”

O Alferes Médico Abílio Mendes era assim.

Chegamos bem à ponte, bebemos umas nocais e regressamos ao nosso acampamento sem qualquer problema.

João Merca




Acampamento em bivaque Foz Rio Loche
Fotos: J Merca

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