=TESTEMUNHO=
Nasci em Lisboa há já algum tempo. Podia por oito dias ter
nascido numa bela cidade da Beira Alta, mas isso não aconteceu. Sempre residi
nesta bela cidade banhada pelo rio Tejo, mas posso afirmar que dela apenas
conheço profundamente uma pequena parte.
Ontem, por uma interrupção de trânsito parei o carro numa rua
que limita um dos lados do Hospital dos Lusíadas. Olhei para o lado e reparando
na sua identificação, recordei o passado.
Pois bem! Na placa toponímica estava escrito: Rua Abílio
Mendes – Médico Pediatra 1911-1992. Passo por esta rua inúmeras vezes, mas
desconhecia completamente com se chamava.
O Dr. Abílio Mendes foi pediatra da minha filha a partir de
1973 ano em que nasceu. Era também o pai do Alferes Médico Abílio Mendes,
curiosamente com o mesmo nome, e pertenceu ao Batalhão de Cavalaria 2830, Os
Centauros e a minha Companhia encontrava-se na Região dos Dembos a reforçar
aquela unidade.
Entre o Alferes Abílio Mendes e o pessoal da minha Companhia,
estabeleceu-se um clima de simpatia e grande companheirismo. Visitava
frequentes vezes no nosso acampamento e dada a distância de 4 KM para o seu,
por várias vezes também connosco pernoitava.
Muitas situações algumas até hilariantes se passaram com o
nosso alferes tais como a relatada no testemunho do companheiro Fernando Santos
publicada anteriormente e denominada: “Festival da Canção Dange 1969”, http://ccac2505.blogspot.pt/2015/10/festival-da-cancao-do-dange-1969.html, em que o nosso estimado amigo só
nos pedia para ouvir o single dos Sheiks, grupo musical do qual o irmão Carlos
Mendes fazia parte. Decorria o segundo semestre de 1969 e encontrávamo-nos na
foz do Loche perto da ponte sobre o rio Dange, entre as Fazendas Maria Fernanda
e Manuela.
O testemunho que agora vou postar passou-se comigo numa
deslocação até à ponte do Dange para levar ao seu acampamento o nosso alferes
médico. Tendo pernoitado no nosso acampamento, logo de manhã recebemos um rádio
para o levar à sua unidade.
Saímos imediatamente com uma secção reforçada em duas
viaturas e mais ou menos a meio do percurso a viatura da frente parou e o
condutor que não lembro o nome, mas poderia ser o Gil alertou-me para algo que
estava na picada. Logo se montou segurança próxima ao local e verificou-se que
a terra estava remexida, mas não existia nenhuma mina ou engenho explosivo.
Neste espaço de tempo o nosso alferes médico, possuidor de um
físico algo corpulento, afastava-se caminhando pelo meio da picada com uma
enorme descontração. Embora a zona fosse por nós muito patrulhada, o lema
presente era nunca facilitar.
Com um “porra doutor” vá para dentro da mata, quero levá-lo
com vida até à ponte, respondeu-me vindo ao meu encontro: “Eles sabem que salvo
vidas, não as tiro como vocês”.
Na verdade, o alferes médico Abílio Mendes não usava qualquer
armamento, nem a velha Walter.
Contaram-me mais tarde que o nosso doutor, na Fazenda Maria
Manuela, tentava prestar os primeiros socorros a um camarada gravemente ferido
e enquanto isto acontecia circulando à volta do corpo, o capelão do seu
batalhão, rezando o atrapalhava na prestação destes cuidados. Como às vezes
acontecia com alguns impropérios a mistura afastava-o com alguma frontalidade. Mais
controlada a situação dirigiu-se ao capelão pedindo-lhe desculpa ao que este
lhe respondeu: Compreendo doutor, mas só estava a preparar esta alma para a
grande viagem. Como sempre a resposta pronta e sempre inesperada do dr não se
fez esperar: “ Estou a tentar prepara-lo para a grande viagem daqui até Luanda,
porque lá poderá certamente ter no pior um colega seu que lhe dará o pontapé de
saída.”
O Alferes Médico Abílio Mendes era assim.
Chegamos bem à ponte, bebemos umas nocais e regressamos ao
nosso acampamento sem qualquer problema.
João Merca
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| Acampamento em bivaque Foz Rio Loche |
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