domingo, 27 de dezembro de 2020

FALECIMENTOS NA COMPANHIA

 -NOTÍCIA-

Tivemos conhecimento do falecimento do nosso camarada de armas Mário Manuel Fernandes Jorge, por todos conhecido como o "Jorge Caçador". O Mário Jorge era Soldado Atirador, elemento da 2ª. Secção do 3º- Grupo de Combate da Companhia e era natural de Ermegeira/ Torres Vedras.
Faleceu com 73 anos vítima de uma pneumonia, às 00H30 do dia 26 no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde se encontrava internado desde 7 do corrente mês. O funeral realizou-se hoje pelas 11H00 para o Cemitério do Ramalhal/Torres Vedras.

Dada a relação dos nossos Grupos de Combate convivi bastante com ele, assim como após o nosso regresso de terras de Angola e sempre demonstrou ser um homem de grande afabilidade e fácil trato. Tinha um extraordinário prazer pela caça. onde no leste daquela então Província Ultramarina, demonstrava as suas excelentes qualidades de atirador.

Para todos os que com ele mais conviveram, fica a recordação dos bons momentos passados.
Deixo aqui o nosso mais profundo sentido pesar a toda a família e amigos. Que descanse em paz.

Até um dia Mário

João Merca

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

BOAS FESTAS 2020

SÃO OS NOSSOS VOTOS PARA TODOS OS COMBATENTES EM GERAL E EM PARTICULAR PARA OS DA C CAÇ 2505, FAMILIARES, AMIGOS E SEGUIDORES
João Merca

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O PADEIRO QUE FICOU CHAMUSCADO...

 -TESTEMUNHO-

João Martins (padeiro) ao centro, com o Mateus (Macary) à esquerda e o 1º cabo Domingos Ferreira à direita

O João dos Reis Martins era um soldado atirador do 1º grupo de combate da Companhia de Caçadores 2505 do Batalhão de Caçadores 2872. Natural de Montemor-o-Velho (não confundir com os alentejanos de Montemor-o-Novo), vila portuguesa do distrito de Coimbra, situada na província da Beira Litoral, distrito de Coimbra. O Martins alternava com o Salvador de Almeida Mondim (este camarada da terra do “carrapau”-Setúbal), na arte de fabricar o pão para o pessoal da companhia, livrando-se assim de algumas missões mais complicadas.

A nossa companhia, sempre acampou no meio da mata, em tendas de campanha (exceção a um curto período de permanência no Grafanil, em Luanda), para fabricar o tão apetecido pão utilizávamos um forno elétrico da marca “REKENA”.

Na última etapa da nossa comissão de serviço, no Lungué-Bungo, era o Martins quem assegurava o fabrico do imprescindível pão que acompanhava religiosamente todas as refeições. Este nosso padeiro era oriundo duma aldeia, onde os fornos comunitários, essencialmente, feitos de barro, todos os habitantes fabricavam pão.

Então o nosso padeiro, no Lungué-Bungo, vinha insistindo que devíamos construir um desses fornos: havia barro, havia água, havia lenha. Isto era o que ele vinha dizendo. Até que um dia, abordou-me diretamente e disse-me: “meu furriel, vamos fazer um forno de barro!”, e prosseguiu: “o meu furriel vai ver que nunca comeu um pão tão bom”. Depois de alguma discussão concordei com ele e disse-lhe: “então vamos construir o forno”.

O João Martins tinha sempre boas relações com os companheiros do pelotão e não só, arregimentou-os para nas horas vagas, participarem na construção do forno. Ao fim de alguns dias, o forno já estava construído, pronto para começar a produzir o pão. Até ficou bonito.

O forno de barro
Havia, então, de experimentar o resultado da obra, sendo que sempre tínhamos a alternativa de ligar o forno elétrico.  Depois de amassado e pôr a  fermentar a massa, tínhamos de aquecer o forno:  lenha, alguns pastos e os indispensáveis fósforos.  O nosso padeiro, começou por acender os fósforos para pegar fogo ao pasto para começar a arder a lenha, mas nada. O fogo apagava-se logo. Então ele diz: “vou ali aos mecânicos para lhes pedir uma lata de combustível e atear o fogo”.  Dito e feito: abalou e regressou com uma lata  de combustível  (não sei se seria de gasolina ou gasóleo). 

Ato contínuo atirou todo o combustível sobre a lenha e ficou tudo pronto para atear o fogo. Ele bem se afastou um pouco da porta do forno (nós ainda mais afastados), atirou o fósforo a arder para dentro do forno.  Grande confusão, sai do interior do forno, uma labareda e fumo que apanhou a cara e os braços do padeiro,  ficando completamente negro, só se viam os olhos. Pensei “estou desgraçado, autorizei esta “merda” e agora fico com o padeiro todo queimado”. Rapidamente conduziu-o até à tenda da enfermaria, sem saber no que aquilo resultaria.  Chegados à tenda, disse para o furriel enfermeiro:  “Eh pá! Temos de evacuar este gajo para o hospital do Luso, está todo queimado”; o furriel enfermeiro observou-o, olhando para a cara dele atentamente e fez logo ali o diagnóstico: “o gajo só está chamuscado, só tem de lavar a cara e fica como novo”. E assim foi, não passou dum susto!

F. Santos – Memórias de Angola

30 de setembro de 2020 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

A MINA NA CAÇADA

 -TESTEMUNHO-

O dia 13 de Dezembro de 1970, amanheceria como muitos outros. Nesse dia às oito da manhã e sem grandes formalidades, eu e o meu grupo de combate estaríamos de serviço. Entraríamos numa espécie de piquete, com alguns elementos destacados durante o dia para rotineiras tarefas no acampamento. Um outro grupo, penso que o terceiro efetuaria a segurança ao acampamento. Tudo apontava para um dia calmo possibilitando a hipótese de um merecido descanso.

Estávamos no Canage e nessa altura se não me engano, comandava o grupo de combate, que pela ausência do nosso maior, o J Franco estava à frente da companhia

O ACAMPAMENTO NO CANAGE

O Canage era nem mais nem menos o lugar, onde a picada Luso/Gago Coutinho, atravessava o rio com o mesmo nome e que mais à frente iria desaguar no rio Lungué-Bungo, este que  a jusante acabava no rio Zambeze. Aqui, a Empresa Tecnil aplanou o terreno e devastando a savana em seu redor, criou as condições para montarmos um acampamento provisório onde permanecemos algum tempo, passando lá o último Natal, na nossa quase finda comissão de serviço. Excetuando uma ou duas tendas quadradas, sendo uma delas a nossa messe, dormíamos em tendas cónicas e tudo o resto era passado ao ar livre.

A vida corria normalmente naquele local, salvo um ou outro susto no cumprimento da missão que nos tinha sido confiada e que consistia na proteção próxima aos trabalhos que a Tecnil vinha a executar na picada entre a cidade do Luso e o Lucusse , inclusive também, às máquinas que à noite ali ficavam estacionadas. Na segurança afastada, atuávamos com a efetivação de várias operações de patrulhamento no local, ou outros ofensivos a objetivos, indicados pelo nosso oficial de operações.

O CANAGE

Depois dos contactos havidos com o inimigo no Caminhão, a nossa maior preocupação e dada a configuração do terreno, estava mais dirigida para as minas, especialmente nas picadas.

No leste de Angola e principalmente naquela zona, a savana era a paisagem dominante. Era também local onde caça grossa abundava, em especial ao amanhecer junto a locais com água. Por vezes, quando havia disponibilidade o que não era fácil, saíamos para efetuar uma ou outra caçada, cujo resultado servia para melhorar a dieta do pessoal. O rancho não era nada mau, pois tínhamos um bom “chefe de cozinha”, o nosso vagomestre mas, ou por interrupções no abastecimento por vários motivos ou por o mesmo chegar com os frescos em mau estado de conservação, lá tínhamos como menu, os “ciclistas” com atum ou o arroz de salchichas e vice-versa, quando o pior ainda poderia ser a ração de combate.

Tínhamos bons atiradores onde destaco o Jorge (caçador), que com a caçadeira, mauzer ou G3, raramente falhava. 

A MINHA TENDA

Encontrava-me deitado no meu colchão de ar (no Canage não tínhamos camas de ferro) na tenda cónica, quando um camarada me acordou para ir falar com o Alf Franco. Eram talvez umas quatro ou cinco da manhã, e no seu estilo próprio transmitiu-me: “Houve mexxx com uma das viaturas saídas. Foi uma mina anticarro e há feridos. Arranca já e trata disso e quero saber se vai ser necessário o hélio”.
Rapidamente reunimos o pessoal resmungão, subi para a berliet rebenta minas, assim como o restante pessoal também o fez, em dois ou três unimogues e arrancamos para as coordenadas indicadas. Lembro-me que o condutor era o Inês mas já não recordo os três ou quatro homens que me acompanhavam. Lembro-me ser esta a segunda ou terceira vez que ultrapassei normas banais de segurança, pois era tão grande a vontade de chegar depressa ao local que deixámos de ver o resto da coluna . Gritei para o Inês para afrouxar e depois lá seguimos todos de novo, sempre atentos a uma possível emboscada. 
VIATURA MINADA NO ACAMPAMENTO

Chegados ao local a tragédia estava à vista e logo reforçamos a segurança do local. Todos estavam enfarruscados, surdos, combalidos, com pequenos ferimentos sem gravidade, mais provocados pela queda forçada. A nossa maior preocupação era o condutor da viatura minada, o Proença Gonçalves, que salvo erro, apresentava no pé e perna esquerda ferimento de bastante gravidade. Já estava a receber alguns cuidados que reforçámos com auxiliar enfermeiro que levávamos. Imediatamente, dada a situação de urgência e falando com o nosso Primeiro que também estava na caçada, pedi se não estou em erro ao sinistrado transmissões A Sousa, que enviasse uma “Charlie”, mesmo em claro para o acampamento, informando o comando da Cia, que de imediato nos deslocaríamos para lá, sendo necessário chamar o “hélio” para uma evacuação.
CABINE DA VIATURA
REBOQUE DA VIATURA MINADA
Ficando no local uma secção reforçada na segurança da viatura minada, arrancamos para o acampamento transportando o Proença e restante pessoal que participou na caçada. Mais tarde, voltamos ao local, penso com o Furriel Miliciano José Fernando, comandante da sec/auto e mais alguns camaradas, para tratarmos do transporte da viatura minada
EVACUAÇÃO

O João P Gonçalves foi evacuado primeiramente para a cidade do Luso e felizmente hoje está bem e não deixa de comparecer aos nossos Encontros Anuais. Continua a gostar de caçar.

A parte operacional desenvolvida nesta ação, pelos elementos que possuo e dada a distância no tempo, foi aqui recordada em escrito muito cruzado, tentando testemunhar o que aconteceu naquele dia 13 de Dezembro de 1970.

Texto: João Merca

Fotos: João Merca e João Gonçalves

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

DIA DE FINADOS

 -NOTÍCIA-

Hoje foi o dia que mais profundamente, sempre recordaremos os nossos irmãos de armas falecidos.

Na página deste blogue "IN MEMORIAM", publicamos os combatentes da nossa Companhia falecidos na então Província Ultramarina de Angola, assim como de todos os que após o nosso regresso à Metrópole, tivemos conhecimento. Vamos lembra-los e recordar todos os bons momentos, que com eles passámos. Vamos sempre ter presente que nunca morreram, que apenas partiram antes de nós.

Apresentamos às suas famílias e amigos o nosso mais profundo pesar. Que descansem em paz.

João Merca

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

FALECIMENTOS NA COMPANHIA

 -NOTÍCIA-

Só agora, tivemos conhecimento do falecimento há já algum tempo, não sendo possível determinar a data, do nosso camarada de armas FRANCISCO DA GRAÇA LEONARDO, 1º. Cabo Enfermeiro Auxiliar na Secção de Saúde da nossa Companhia.
O Leonardo, revelou sempre boa formação moral e ótimas qualidades na função da sua especialidade, quer nos acampamentos por onde passou, quer no acompanhamento de várias missões operacionais.
Era natural de Loureiras, concelho de Ferreira do Zêzere e deixou-nos bem cedo. Fica aqui a recordação, dos bons momentos passados na sua companhia. Aos familiares e amigos, apresentamos o nosso profundo pesar.
Descansa em paz Leonardo e até um dia.

Texto: João Merca
Foto: Mário Tavares

domingo, 25 de outubro de 2020

O CANAGE, A PICADA E A TECNIL

 -TESTEMUNHO-

Estamos na Região Militar Leste e decorre a Operação Lance. Esta operação, consistia em dar proteção próxima e afastada aos trabalhos de construção e asfaltagem, da futura estrada entre o Lucusse e a cidade do Luso, a cargo da empresa Tecnil. Fazíamos, também, o transporte do pessoal daquela empresa no fim do dia, do local dos trabalhos ao Luso e vice-versa, excetuando os domingos e feriados, assim como, com o avanço dos mesmos pernoitarmos na picada, montando segurança à maquinaria, que à noite ali ficava.

A PORTA DE ARMAS
A foto acima publicada mostra a entrada para o nosso acampamento em bivaque, sem porta de armas, nem alguma espécie de cavalo de frisa. Chamou-se Canage a este estacionamento, por estar ao lado do rio com o mesmo nome. A Tecnil, terraplanou o terreno, não só no seu interior, como também, em uma ou duas centenas de metros à sua volta, dando-nos uma muito boa visão circundante. Protegidos à volta por uma barreira de terra, o maior perigo seria o ataque inimigo com armas de tiro curvo, excluindo completamente um possível ataque, com armas de tiro tenso.
A COZINHA
A BARREIRA AO FUNDO
Assim, vivemos em tendas cónicas, dormindo no chão sobre colchões de ar, todo o mês de Novembro de 1970 até princípios de Janeiro de 1971.
AS TENDAS CÒNICAS
Os dias passavam bastante ocupados dada a constante operacionalidade, com rendições constantes, idas e vindas ao Luso, para transportarmos o pessoal da Tecnil no fim dos trabalhos do dia e lá pernoitando, regressávamos no dia seguinte, sendo rendidos por outro grupo de combate. Salvo dois ou três patrulhamentos e creio uma operação a possível posição inimiga, a vida passava-se entre a picada e o acampamento.
A PICADA ANTES DAS OBRAS
O RIO
OS PETISCOS E COPOS
No tempo livre e como era nosso costume para esquecer o dia a seguir, para além de descansar, aproveitávamos para nos distrairmos das mais variadas maneiras. Para além da Rádio Canage com o rio ao lado, tínhamos banho e praia garantidos e à noite os petiscos e as loiras cucas e nocais. Aqui, também passámos um Natal e uma Passagem de Ano.
Claro que pelo exposto tudo isto parecia uma pasmaceira, mas nem tudo foram rosas. Tivemos alguns problemas, um bastante grave, mas isso é assunto para outro testemunho.
Hoje, sei que este local foi aproveitado para construir uma povoação, que possivelmente tem o mesmo nome.

Texto e fotos
 João Merca