terça-feira, 14 de maio de 2013

Três episódios na vida dum "operacional"!


(A jiboia… a bússola… e a G3, ou a vida atribulada no Dange…)


Casa nova, vida nova, é o que se costuma dizer quando mudamos de casa ou de emprego…, neste caso nem mudámos de casa nem de emprego, deixamos apenas umas funções e fomos investidos noutras.

As novas funções não nos traziam tantas preocupações como as anteriores, pois, limitavam-se aos serviços da companhia, operações no interior da mata (3 a 5 dias) e colunas motorizadas para proteção de viaturas civis, entre as Fazendas Maria Fernanda e Maria Manuela, a partir do nosso acampamento na foz do rio Loge, que desaguava no Dange. Mas não estávamos de todo sensibilizados para estas tarefas, mas lá íamos cumprindo sem dificuldade de maior. 

No desempenho dessa função de “operacional”, aconteceram vários episódios, dos quais escolhemos três, que na nossa opinião, têm algum interesse, para que não se perdessem e perdurassem na nossa memória coletiva: 

A jiboia

De regresso duma missão à Fazenda Maria Manuela, já era início de noite, não nos recordamos qual a missão, mas também não é importante para o episódio que vamos narrar. Quando nos aproximávamos do aquartelamento da companhia de cavalaria, “Os Centauros”, que fazia a proteção à construção da ponte sobre o Dange (Ponte Totobola), chama-se assim, não sei porquê, talvez por ser a ponte da sorte, sorte! não faço ideia de quê! Mas vamos continuar; aí chegados, a uma distância que não sei precisar com exatidão, todavia não devia ser longe do aquartelamento da referida companhia, deparámo-nos com uma jiboia enorme que ocupava toda a largura da estrada, como não queríamos passar sobre o bicho, não porque o pudesse magoar, mas não queríamos, parámos as viaturas, apeámo-nos, discutimos o que fazer, e, saiu um decisão brilhante, matar a jiboia a tiro, não sei quem disparou, nem isso interessa muito, penso que o bicho morreu, mas ao ouvirem todo aquele tiroteio, os nossos amigos “Os Centauros”, pensaram de imediato que estavam a ser atacados pelos “turras” (nome vulgar porque eram conhecidos os guerrilheiros). Organizaram-se imediatamente, e, em coluna apeada, dirigiram-se para o local de onde vinha o som das rajadas, na sua deslocação, demorou pouco tempo, vislumbrarem as luzes das nossas viaturas, verificaram então, que não se tratava de nenhum ataque, era apenas mais uma “maçaricada” dos vizinhos do Dange. Tivemos sorte, porque “Os Centauros” já eram “velhinhos”.




A bússola                                                     



Estava tudo no seu lugar, era mais uma manhã tranquila no nosso aquartelamento, havia no entanto, qualquer coisa de diferente, tínhamos em nosso poder um guia que tinha sido guerrilheiro naquela região. Claro que se antevia uma operação guiada, com um objetivo muito concreto, assaltar um acampamento inimigo, só não sabíamos quando. Pois aconteceu que veio a ordem para a operação ter início nessa manhã; o sol já ia alto, não tivemos direito a almoço quente, e, preparámos tudo; rações de combate, cantis com água, oleado e a inseparável G3; os dois pelotões que tinham sido escalonados, onde nos incluíamos, partiram com as mochilas às costas.

Pernoitamos numa encosta, o mais perto possível do objetivo, essa noite foi horrível, o frio era imenso, e não tínhamos agasalhos para essa eventualidade, juntamo-nos em grupos, delimitamos uma área em círculo, cada um desses grupos formava um posto de vigilância, com um vigia, que era rendido ao longo da noite, cada camarada fazia um turno de vigilância. O frio era tanto que nos tapámos com os oleados, que não foram suficientes para nos aquecer. Ao levantarmos de manhã, tínhamos cavado uma vala aos pés, de tanto nos mexermos.

No último dia já cansados de andar às voltas, o alferes que comandava a operação, já irritado, voltou-se para o guia, e perguntou-lhe: “Então você não sabe onde é o acampamento?”; o guia a tremer, apavorado, todo ele transparecia medo, respondeu com a voz trémula: “meu alferes veja aí na máquina” (máquina era a bússola que o alferes empunhava naquele momento, mas que não ajudava muito…). Continuamos a nossa caminhada, mas a única coisa que encontramos foi um acampamento abandonado há muito tempo.

A G3
Periodicamente, dado que não conseguíamos gastar as munições nas operações, e convinha testar o armamento, fazíamos treino de tiro.

Naquela tarde o alvo era a encosta em frente ao nosso aquartelamento, virada a nordeste do outro lado do Dange. Foram testadas todas as armas, bazuca, breda, morteiro etc…, foi também efetuado tiro de G3, de repetição e rajada, o tiroteio foi tanto que derrubámos as árvores mais altas da encosta. Derrubámos! nem todos, pois o vosso amigo “operacional” nem um tiro conseguiu dar de tanta sujidade acumulada na G3 que tinha distribuída à sua responsabilidade.

Conclusão andou todo esse tempo, em operações e colunas, com uma arma às costas que só serviu para fazer peso, dificultar a caminhada e talvez assustar o inimigo.

F. Santos

7 comentários:

  1. Transcrevemos na íntegra, como comentário o texto do autor que acompanhava este testemunho:

    Olá amigo!
    Estou a enviar-te, mais três narrativas das desventuras do teu amigo!!!
    Por agora é o que se pode arranjar, já que não conseguimos que os outros companheiros se decidam a pôr no papel as suas aventuras de outrora.

    Um abraço amigo!
    F Santos

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  2. Caro Fernando

    Continuas apesar dos teus cabelos brancos a ser " aquela máquina".
    Não posso deixar de acrescentar umas "coisinhas" ao teu testemunho, não com o sentido de o enriquecer, pois isso é impossível.

    Assim no primeiro episódio da jibóia e respondendo à tua dúvida quanto à origem do nome da ponte sobre o rio Dange na picada entre a fazenda M Manuela e a fazenda M Fernanda, ponte Totobola, deve-se ao facto segundo a minha parca opinião, à alcunha do comandante do Batalhão de Cavalaria 2830-Os Centauros-. O tenente coronel Totobola foi também o comandante da grande operação nas matas dos Dembos/Dange, denominada Operação Marabunta, que envolveu muitos meios e homens, causando pesadas baixas no inimigo, com a captura de muitos prisioneiros e material. Aproveito para transcrever algumas linhas extraídas do livro " Os Anos da Guerra", 1961-1975, crónicas, ficção e histórias, organização de João de Melo:
    - "... não perdermos uns dos outros nessa altura entrei eu na «Operação Marabunta» chefiada pelo tenente-coronel Totobola foi nos Dembos cinco mil militares portugueses fizeram um cerco aos terroristas ou libertadores de Angola para dizer a verdade nem ..."
    Depois a nossa Cia, como adida do Bat 2830, realizou no segundo semestre de 1969 a Operação Grande Salto,em que a engenharia,também tinha como missão a construção de uma ponte sobre o rio Dange, que baptizaram com a alcunha daquele oficial.
    Podíamos ser ainda novatos, mas já não cheirávamos a "água salgada". Nessa altura já não arriscávamos nada, colocando nos nossos actos todas as normas de segurança. Se bem me lembro, naquelas matas mal a coluna parava, dava logo ordem ao meu pessoal, para saltar das viaturas e efectuar segurança próxima à picada. Aprendemos muito com o incidente junto à fazenda M Fernanda, onde deixámos um nosso camarada sendo outro evacuado para Luanda.

    No episódio da bússola recordo perfeitamente, apesar dos anos passados, do frio que passamos, naquela encosta e penso que muito agravado por termos os camuflados molhados, com poucas hipóteses de secar. Foi um mau bocado que passamos.

    No episódio da G3, meu caro amigo, foste uma das excepções por teres dormido com a arma debaixo da cama a apanhar pó. Eh! Eh! Eh!
    No meu pelotão o pessoal tinha, claro com uma ou outra excepção, a G3 limpa, até porque, sem dia certo, fazíamos inspecção ao armamento. Aqui, o teu amigo, além de ter os carregadores com menos munições (18), para as molas não pasmarem, colocava também no tapa chamas, depois de limpar a arma, um celofane que normalmente revestia os maços de tabaco de algumas marcas.Essa G3 tinha o privilégio de pertencer a um graduado. A Cia tinha "operacionais e operacionais". Eh!Eh! Eh!
    Abraço
    JM

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    1. Boa noite, amigo Merca!

      Claro que enriqueceu!
      Desde logo esclareceu algumas dúvidas... e pôs os pontos nos iiiis... noutras passagens dos testemunhos.

      Os 3 testemunhos relatados, focam prepositadamente as partes mais hilariantes e insólitas dessas situações. Na altura não tiveram tanta graça, e, até causaram algum desconforto. No caso da G3, estou como diz o camarada Seguro "...ou seja mandou-se um médico construir um prédio para depois mandar um pedreiro, fazer uma operação ao apêndice...", era como ir à caça com um "guarda chuva".

      FS

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    2. A explicação do nome totobola para a ponte só parcialmnte está correcta. O cmdt dos Centauros não se chamava assim. Esse nome foi dado a um TCor Alves(?)Pereira que realmente comandou uma grande opreação chamada Quissonde que decorreu naquela area onde parece ter havido uma ponte rudimentar.Ex-Centauro

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  3. Caro Camarada de Armas

    A nossa presença junto ao rio Dange na picada que ligava as fazendas Maria Manuela e Maria Fernanda, foi posterior às Operações Quissonde e Marabunta.
    Estivemos na Operação Grande Salto e sabemos que a ponte rudimentar foi substituída por uma nova de estrutura metálica e junto a ela também foi construído um fortim. A esta ponte sempre ouvimos chamar "totobola" e por os Centauros estarem em fim de comissão ligou-se este nome ao seu cmdt.
    Com o nosso agradecimento pelo comentário, aqui fica a correcção.
    JM

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  4. Na operação quissondo ainda não havia a ponte sobre o rio dange.Era o comandante da operação o comandante totobola,porque foi o destacamento de fuzileiros nº13 a passar uma companhia do exercito para outra margem de botes mas primeiro foi lá os Fiat bombardear foi quando foi a picada aberta da fazenda Maria Manuela choveu no regresso an damos três dias para fazer 18 quilómetros de camionete sem comer

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    1. Caro Camarada de Armas

      Dada a nossa ausência prolongada, só hoje publicamos o seu comentário que agradecemos. Apresentamos as nossas desculpas.

      JM

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