segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

MAIS UM ANO PASSOU

-TESTEMUNHO-
Um novo ano começou. Virámos mais uma página do livro da nossa vida. Hoje estamos aqui, mas nem sempre estivemos.    

Na passagem do dia 31 de Dezembro de 1969 para o dia 1 de Janeiro de 1970, quase todos nós, ex-combatentes da C Caç 2505 estávamos em outro longínquo lugar.

Depois de combatermos na Operação Grande Salto, nas matas do Dange, na zona dos Dembos, desde o mês de Junho como companhia de intervenção, regressámos ao Grafanil, em Luanda, no fim de Dezembro de 1969, onde festejámos a passagem do ano.
ACAMPAMENTO  NO DANGE
OPERAÇÃO-ACAMPAMENTO INIMIGO
DANGE-DESLOCAÇÃO NA PICADA
A sede do nosso Batalhão,"O Pop", situava-se no Campo Militar do Grafanil, onde a nossa Companhia chegando a casa, se voltou a instalar.

ENTRADA C M GRAFANIL
GRAFANIL-INSTALAÇÕES
Queríamos deixar para trás as tristes ocorrências, que sempre ao lembrar tentávamos esquecer, com destaque principalmente para a morte dos nossos dois camaradas, assim como os nossos três feridos mais graves, (incluindo o nosso Cmdt de Cia com fractura da bacia), mas elas estavam ainda muito presentes. Foram uns meses na nossa comissão de serviço, onde passámos um muito mau bocado.

Bom! Agora estávamos em casa e voltámos a ser a primeira frente de controlo e defesa da cidade de Luanda. Apertavam os serviços, mas, o perigo iminente era quase nulo. A vigilância na Rede, o controlo a pessoas e viaturas que entravam na cidade, a escolta ao comboio de Catete, o patrulhamento no Bairro Operário e no Cazenga, assim como, à Central Eléctrica, Nocal e Cuca, entre outros locais.
REDE-POSTO DE VIGIA
REDE-INICIO PATRULHA
COMBOIO CATETE
CAZENGA
Não me recordo onde passei o fim daquele ano, se dentro do Grafanil com a "rapaziada" ou na cidade de Luanda, onde através da minha vida desportiva tinha muitos conhecimentos civis e também possuía alojamento. Não estando escalado para algum serviço, tomo como certo que andei a saltitar por toda a cidade. Naquela noite deve ter havido, muito marisco, cerveja e espumante. Uma coisa recordo como se fosse hoje, Quando regressei a Luanda e logo que tive oportunidade, dirigi-me ao Polo Norte, cervejaria bem conhecida do "pessoal", onde lentamente saboreei o especial bife à inglesa, com batatas fritas e ovo a cavalo, quase submerso naquele delicioso molho. Claro, que tudo isto foi muito bem regado, com pelo menos duas fresquinhas "canhas". 
POLO NORTE
"Meu Deus!!" Isto já aconteceu há 44 anos.

Não vou ficar por aqui sem perguntar, onde parava a C Caç 2505 há 43 anos, no fim de 1970. Para quem já não se recorde, vou lembrar que nesse fim de ano, a nossa Cia estava situada no Canage. 
CANAGE-ACAMPAMENTO
O Canage ficava praticamente a meio da picada que ligava o Luso ao Lucusse. Após a deslocação do Batalhão para a Região Militar Leste, a Companhia participou na Operação Escovar, na área de Cangumbe, onde patrulhou, combateu, abriu picadas e recolhendo populações, ajudou a reorganizar o quimbo do Caminhão. Só depois "assentou arrais" no Canage, junto ao rio com o mesmo nome, onde construiu um acampamento provisório, com a forma de um quadrado, em cujos lados se ergueram barreiras, para a protecção de qualquer ataque inimigo com armas de tiro tenso. Dormíamos em tendas cónicas e algumas quadradas, que também serviam para outros fins logísticos. Tínhamos a missão, de por vezes escoltarmos viaturas civis, mas no essencial voltámos a efectuar a protecção próxima e afastada aos trabalhos de construção, da futura estrada asfaltada que ligaria, nos seus mais ou menos 400 Km, o Luso a Gago Coutinho.
CANAGE-ACAMPAMENTO
COLUNA AUTO
SINALIZAÇÃO
Mas voltemos à nossa passagem de ano. No dia 31 de Dezembro de 1970, a companhia estava toda reunida e em conjunto festejámos efusivamente a despedida daquele ano velho e o nascimento do novo.
O JANTAR
Numa daquelas tendas quadradas, que tinham mais ou menos 10 metros  de lado, oficiais e sargentos desta "Cia Pop", reuniram-se numa inesquecível festa. Houve melhoria no jantar e até cada um de nós contribuiu com algo para comer e beber. Claro, que não faltava para além da cerveja, muitas e variadas bebidas alcoólicas. Naquela noite, ao deslocar-me algumas vezes pelo acampamento, participei momentaneamente em grupos maiores ou menores, de outros combatentes da Cia, que também faziam a passagem de ano.
A PARÓDIA
A COMPOR A ÁRVORE
Depois das 12 badaladas a festa continuou noite fora. Muitos de nós com a alvorada e na hora de abalarmos para as nossas missões, lamentávamos os excessos cometidos horas antes.
OS COPOS
Acrescento que foram momentos de grande diversão, muito alegres e de grande camaradagem, que nos fizeram esquecer o local onde estávamos.

Naquela noite também um novo ano começou e também virámos uma página do livro da nossa vida.
JM

1 comentário:

  1. Uma descrição muito fiel das situações e lugares que tão bem conhecemos, é o Merca no seu melhor!

    Penso que na 1ª passagem de ano no Grafanil, nos dispersamos em grupos por Luanda, não houve nada organizado, mas não me recordo de quase nada da passagem do testemunho do ano velho (1969) para o novo (1970).

    Na 2ª passagem estávamos em reunião forçada, e aí já nos organizámos em grupos dentro daquele quadrado do Canage, como sempre a cerveja foi muita o que nos fez esquecer os pormenores da celebração.

    O testemunho do companheiro Merca é muito bom, porque nos leva aos lugares distantes, onde durante mais de dois anos tivemos um convívio que jamais se apagará, fazendo-nos recordar aqueles tempos, que quer queiramos ou não, foram marcantes nas nossas vidas.

    Continua, Merca, a recordar outros momentos vividos naquelas paragens.

    Outros companheiros poderiam enriquecer muito mais este espaço de memórias e reflexão sobre este tempo do nosso passado comum.

    Um abraço amigo!
    Fernando Santos

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