quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

MARIA FERNANDA ...UMA DOLOROSA RECORDAÇÃO

 -TESTEMUNHO-

Embarcámos em Lisboa, no dia 8 de maio de 1969, a bordo do paquete Uíge, com destino à cidade de Luanda, Angola, onde chegámos a 21 desse mesmo mês. Permanecemos no Grafanil cerca de 3 semanas, entretanto, participámos no desfile do 10 de junho, que ocorreu naquela cidade.

Partimos quase de imediato para os Dembos, passando pela Fazenda Maria Fernanda, onde ficámos apenas alguns dias, antes de seguirmos para o nosso destino final, o Dange. Foi nesta curta estadia, cuja duração, se bem me lembro, não terá ultrapassado os 3 dias, quando aconteceu um episódio que teve tanto de inesperado e absurdo, como de trágico, o que dificulta traduzi-lo em palavras neste relato pessoal.

Acampámos no cimo duma encosta a Nascente da Fazenda, num espaço em declive, na parte de baixo existia a picada e um vale, em frente erguia-se uma nova encosta, que devia distar do local onde nos encontrávamos cerca de 1 KM em linha reta, no cimo dessa encosta eram visíveis algumas bananeiras.

FAZENDA MARIA FERNANDA
No segundo dia de permanência na Fazenda, a 20 de junho de 1969, ao final da tarde, encontrávamo-nos junto ao espaço reservado à cozinha, quando tudo começou: estava uma ligeira brisa, o sol refletia-se na folhagem das bananeiras da encosta em frente, o vento fazia com que a folhagem das referidas bananeiras se movesse, provocando sombras difusas em movimento. Este cenário, levou-nos a imaginar e a acreditar de que aquelas sombras seriam o inimigo (vulgo “turras”) a passar de um lado para o outro, alinhando-se para um ataque surpresa. Iludidos pelo medo e pela inexperiência, fomos induzidos a organizar uma operação de reconhecimento e neutralização do “inimigo”.

Não sei bem como foi tomada esta decisão, lembro-me que partiram duas colunas, - o recrutamento terá sido feito na base do voluntariado -, uma seguia pelo lado norte e outra pelo lado sul, sob o comando do Alferes Franco. Nós continuámos junto da cozinha, - o jantar era, as inevitáveis salsichas com arroz -, onde o cozinheiro Albertino (Ponte de Lima), mexia o arroz com uma enorme pá de madeira. Ficaram por ali também o 1º Cabo cozinheiro Carlos Pereira e os cozinheiros Orlando e Rodrigues, o Furriel Simões, penso que o Furriel Merca também estaria, entre muitos outros camaradas, tanto das especialidades, como atiradores, que se juntaram, observando com alguma ansiedade o que se passava com os camaradas que participavam na já referida operação.

Os que ficaram, iam fazendo alguns comentários, uns pró, outros contra, relativamente à presença dos “turras”, mas parece-me que a tese do contra seria a mais consistente e teria mais adeptos, no entanto, uma coisa é certa, havia uma cisão nas opiniões que íamos tecendo. Estávamos nestas conjeturas quando se ouviu um tiro, seguido dum tiroteio intenso, que demorou poucos minutos, seguido de um silêncio opaco e assustador. Cerca de meia hora depois, quem tinha ficado no acampamento, teve conhecimento da tragédia, que se saldava por um morto confirmado, o Manuel Tavares e um ferido com certa gravidade, o Albano.

Há várias teses sobre o que aconteceu no local, mas a mais provável, terá sido o desencadear de um tiroteio na frente das duas colunas, uma contra a outra, por um disparo inicial, inadvertido.

Hoje, à distância de 45 anos, não se percebe muito bem, porque desencadeámos esta insólita operação, quando no local, existia uma Companhia, que estava ali instalada havia muito tempo e tinha como missão proteger a Fazenda. A nossa Companhia estava apenas em trânsito para o Dange.

FAZENDA MARIA FERNANDA: O NOSSO ACAMPAMENTO SERIA AO CIMO DESTA RAMPA
Texto: F. Santos

Fotos: Pesquisadas na NET

PS. Alguém que tenha participado nesta operação deveria contar a sua versão dos acontecimentos, já que esta é uma visão parcial de quem permaneceu no acampamento e os presenciou de fora.
FS.

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