domingo, 4 de fevereiro de 2018

A PARTIDA E OUTRAS HISTÓRIAS

-TESTEMUNHO-

PAQUETE UIGE NA PARTIDA DO BATALHÃO DE CAÇADORES 2872 A 8 DE MAIO DE 1969
Charneca de Torres e Cercas, na freguesia e concelho de Silves, terra onde nasci, decorria o mês de agosto de 1947, precisamente no dia 25. Aí permaneci até aos onze anos, frequentei neste período, o posto escolar da Fonte Figueira, que distava da minha casa cerca de 4 Km, distância que fazia a pé, ida e volta, de segunda a sexta-feira.

Aos onze anos fiz o exame de admissão à Escola Industrial e Comercial de Silves, com aproveitamento. Os meus pais, matricularam-me naquela escola, nesse ano, no 1º ano do ciclo preparatório. Para me facilitar a vida, fixaram residência numa aldeia que fica entre a beira serra e o castelo de Silves. Ali conheci muitos amigos, entre eles, o Abel Santos, com quem partilhei muitas brincadeiras.

CASA ONDE MOREI NO  MONTE BRANCO - SILVES
No dia 4 de maio de 1969, domingo, estive com este amigo num baile do "marroquino", naquela aldeia, nesta ocasião, falámos da tropa e de muitas outras coisas. Contei-lhe na altura que estava mobilizado para Angola e que partia na quinta-feira seguinte, ele disse-me que ia para Moçambique, mas não sabia quando partia para aquela província.

No dia 7 de maio de 1969, embarquei na estação de Silves, no comboio com destino ao norte, fiz alguns transbordos até chegar ao apeadeiro de Santa Margarida, no concelho de Abrantes, onde cheguei na madrugada do dia 8 de maio de 1969. Ali aguardava-me o comboio, que me levaria até Lisboa, para embarcar no paquete Uíge.

O Abel estava, naquele  dia, no cais da Rocha de Conde de Óbidos, local de partida com destino a Angola. Viagem atribulada: começou com enjoos e o cambalear pelo barco como se estivéssemos com uma bebedeira; ao fim de alguns dias passou e entramos na normalidade; os graduados tinham no navio instalações aceitáveis (bar, salão de refeições e camarotes que os furriéis, no meio caso, dividiam com outro camarada); as das praças já não posso dizer o mesmo; desloquei-me, um dia em que estava de serviço de sargento dia, ao porão do navio, onde se amontoavam estes militares, em condições deploráveis, para não dizer outra coisa. Em consequência destas condições, havia muitos soldados que levavam os colchões para convés, colchões, que para o final da viagem, não regressavam ao local de origem, pois eram atirados ao mar, criando alguns problemas, porque a nossa viagem demorou mais tempo do que o habitual (presume que com uma avaria nos motores do navio), 13 dias em vez de 8. Finalmente, chegámos no dia 21 de maio de 1969, ao porto de Luanda.

Tenho apenas uma foto do interior do barco no salão de refeições.

SALÃO DE REFEIÇÕES DE GRADUADOS NO UIGE -  F SANTOS AO CENTRO
Ao pisarmos terra firme em Luanda, voltamos a cambalear, não sabia que isso poderia acontecer depois duma longa viagem de barco. Fomos levados para o Grafanil, pernoitamos debaixo duns telheiros que tinham umas estruturas de cimento com mais ou menos um metro de altura. Dormimos em cima dessa estrutura, nessa noite, antes de seguirmos para as instalações reservadas ao batalhão.

CIDADE DE LUANDA , ANOS 1969/1971
No dia 23 de maio de 1969, sábado, como a maioria dos militares, os sargentos (onde se incluíam os furriéis) e oficiais, rumei à cidade de Luanda, no machibombo militar (autocarro),  as praças eram transportadas em berliets ou de boleia, jantei num restaurante de Luanda (não me lembro se na Floresta se no Polo Norte), ao entrar na esplanada da "Cervejaria Portugália"(ponto de encontro de muitos militares portugueses), ao passar por uma mesa, senti uma mão a agarrar-me o braço, era o Abel, 1º cabo especialista da Força Aérea Portuguesa! Perguntei-lhe se o destino dele tinha mudado para Angola, disse-me que não, que estava ali em trânsito, tinha vindo de avião e que partia no dia seguinte para Moçambique. Bebemos umas cervejas, conversamos e a determinada altura estendeu-me um subscrito e disse-me: "isto é para ti, pensava em escrever-te de Moçambique, mas entrego-to já". Abri o envelope e encontrei no interior a foto do barco na partida, perguntei-lhe: "o que é isto?",  - ele responde-me: "é a fotografia do barco onde vieste, eu estava no cais nesse dia" (primeira foto do testemunho).

PORTUGÁLIA - PONTO DE ENCONTRO DE MILITARES PORTUGUESES NOS ANOS 69 E 70 EM LUANDA
Voltei a encontrar o Abel em 1971, no regresso da guerra, continuamos amigos até hoje.

F. Santos - Memórias de Angola
12 de janeiro de 2018

2 comentários:

  1. CARO FERNANDO

    JÁ NÃO SEI QUAL FOI A RAZÃO, MAS FUI DIRETAMENTE DE CASA PARA O CAIS DA ROCHA, ONDE AGUARDEI PELA CHEGADA DA COMPANHIA. TENHO UMA HISTÓRIA CARICATA A CONTAR, POIS ALÉM DO FARDAMENTO NECESSÁRIO E CONHECIDO, TAMBÉM COMPREI UM BLUSÃO DE CABEDAL, QUE SÓ USEI NA IDA ATÉ AO CAIS DA ROCHA. A NOITEATÉ NÃO ESTAVA MUITO FRESCA E ACABEI POR O VENDER JÁ EM LUANDA.

    TENS RAZÃO AS CONDIÇÕES DE VIAGEM PARA OS NOSSOS RAPAZES, ERAM MUITO MÁS, TAMBÉM DE SERVIÇO E POR OUTRAS VEZES VISITEI O PORÃO E ERA MUITO MAU. AS NOSSAS EMBORA RAZOÁVEIS TAMBÉM ERAM MUITO PIORES QUE AS DO VERA CRUZ.

    RECORDO E ATÉ COM ALGUMA TERNURA OS TEMPOS QUE POR ALI PASSEI. TOMAVA SEMPRE CAFÉ NA VERSAILES E SE RECORDAS HAVIA POR BAIXO PARA ALÉM DE UM PEQUENO SUPERMERCADO HAVIA UMA PEQUENA DISCOTECA ONDECOMPREI VÁRIOS LP’S, QUE IAM SEMPRE PARAR A NOSSA DISCOTECA. NA PORTUGÁLIA ERAM AS NOSSAS VELHAS “CANHAS” PARA ACOMPANHAR OS PRATOS COM AS VELHAS GAMBAS.
    POSERÃO DIZER QUE ISTO É QUE ERA VIVER, MAS O PIOR ERA O RESTO…

    JM

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    1. O Vera Cruz, no regresso, embora não me lembro de quase nada, foi uma viagem fantástica, menos tempo, talvez porque o fantasma da guerra tinha sido exorcizado, escala no Funchal, onde comi umas deliciosas espetadas, num restaurante na encosta. Penso que estaria com o Simões e talvez com o Merca, mas não me lembro bem, irei quando estiver em Portugal, procurar uma carta que escrevi do Funchal, pode ser que encontre alguma pista.

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