segunda-feira, 30 de junho de 2014

XL - EMBARQUE À VISTA

- FARDA OU FARDO?-
Chegada ao Porto de Luanda do Navio Vera Cruz, com tropas frescas a bordo para rendição de outras, prevista para 20 de junho, de manhã. Uns dias antes dessa data, começa a nossa entrega do Armamento, Munições, das Viaturas, do material de Transmissões, enfim de tudo que nos fora confiado para o desempenho da missão de 24 meses, mais o “mata-bicho”. E as deslocações para as Chefias dos respetivos Serviços, na baixa de Luanda, se sucedem, no seguimento das diligências por mim iniciadas e de cuja incumbência fora encarregado, não obstante permanecer na Província, por mais um bom número de dias razoável, uma Comissão Liquidatária, como era normal, na esperança que tudo estivesse em ordem e nenhuma anormalidade fosse detetada e impeditiva de quitação. E a azáfama do encaixotamento logo se inicia. Só se ouve martelar, por todo o lado do Campo Militar do Grafanil onde nos encontrávamos, pregando caixotes e mais caixotes, para embarque no porão. Eu trouxe três, com o meu nome e posto e a designação da Companhia, tudo bem visível do exterior, pintado a tinta branca, para levantamento em Abrantes. Uma correria em busca de tábuas, improvisando-se tudo que servia para esse desiderato. Entretanto, somos sabedores que o navio se atrasou 12 horas. Chegaria, portanto, só à noite, o que, em termos práticos para nós, representaria um dia, pois nessa noite de 21 ele estaria ocupado nas operações de descarga, quer do pessoal embarcado quer do conteúdo dos seus porões quer ainda em reabastecimento. Vim a saber depois a razão desse atraso. Ao largo do Golfo da Guiné, durante a exibição dum filme, um Soldado, pendurado nos cabos do navio (em linguagem marítima cordas são cabos), desequilibrou-se e caiu à água. O Vera Cruz parou os seus motores e permaneceu na zona cerca de meio dia na esperança de recuperar o rapaz, vivo ou morto, mas, e infelizmente, sem resultados positivos. O navio retoma a marcha e chega atrasado a Luanda. As implicações do retardamento irão surgir no regresso, connosco a bordo.
VERA CRUZ
NUNCA IMAGINARIA QUE CERCA DE 6 MESES ANTES ELE ESTEVE PRESTES
A IR AO FUNDO COM 3 800 HOMENS A BORDO, VINDO DE MOÇAMBIQUE AO
LARGO DE EAST LONDON ( R A S )




PREPARATIVOS PARA O EMBARQUE



Da minha Companhia, o Fernando Temudo resolveu ficar a residir em Angola, bem como mais, pelo menos, dois Soldados. Das outras Companhias houve igualmente pessoal que ficou por lá, razão por que todos entraram de licença registada à data da saída do navio. Não quiseram, todavia, deixar de nos vir dar um abraço. Sabe-se lá se nos voltaremos a encontrar um dia?
E CHEGA A ORDEM DE EMBARQUE

Como alguns Camaradas tinham lá família e outros tinham já feito namoritos, com promessa de voltar, houve choros e ranger de dentes, fora do navio, que aumentaram de intensidade, até com algum histerismo, quando o pessoal passou para bordo, atingindo o apogeu com o apito estridente do barco, em jeito de despedida. Cerca das 10 horas da noite do dia 21 de junho de 1971 o Vera Cruz zarpa de Luanda, rumo a Lisboa. Curioso foi o súbito e estranho sentimento que se apoderou de mim (provavelmente generalizado a todos): olhar para aquela terra onde passei 26 meses, onde senti algumas alegrias, muita saudade e tristezas, por vezes fome e sede, momentos de desespero … e começar a emergir uma nostalgia inesperada, num misto e contraditório pensamento – colocar-me mentalmente no destino mas observando embevecido esta linda terra que vou agora deixar …

Carlos Jorge Mota

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